Representatividade e autoconhecimento colocaram a quarta noite de desfiles na Casa de Criadores na história

Nada de saltos altos e padrões inatingíveis. O quarto dia de desfile na Casa de Criadores foi marcado pelo o que é real. A exaltação das minorias, o autoconhecimento, o sentimento de pertencimento e a criatividade foram os responsáveis por ditar o ritmo da passarela e arrancar aplausos de um público que se viu representado nas coleções das marcas Neriage, Saint Studio, Angela Brito, Caroline Funke e Isaac Silva.

A noite, que contou com a presença de Pablo Vittar, Gloria Kalil, Erika Palomino, Magá Moura e Flávia Durante na plateia, começou com as peças elaboradas pela estilista Rafaella Caniello, nome à frente da Neriage. Unindo o estudo do filósofo Arthur Schopenhauer sobre o caráter próprio da matéria às obras de Gaston Bachelard, cada coleção da marca foca em um dos quatro elementos. Em “Phare”, Rafaella deu continuidade ao que já mostrou em suas apresentações anteriores na Casa, e revelou a água como elemento principal.

Phare quer dizer farol, em francês. A coleção foi inspirada no livro “O Velho e o Mar”, e mostra a água em sua forma mais profunda, densa e melancólica. Ao som de músicas calmas, o clima de maresia foi expressado nas peças pelos tons de azul, creme e preto, silhuetas monocromáticas e com o linho como destaque em peças modernas e elegantes.

O line-up seguiu com a “Saint Studio”. Com uma pegada mais pop e um desfile cheio de gingado, a marca fez sua estreia na Casa de Criadores com um desfile pautado no minimalismo e conforto. Os looks funcionais passeiam pelo casual e o elegante, causando o efeito sofisticado que reflete a identidade da marca slow fashion.

A coleção é inspirada no instrumento de criação mais básico: a folha de papel. Com shapes baseados em linhas simples, o verão ganha ares contemporâneos com peças de alfaiataria em tecidos planos e malhas estruturadas em tons que reiteram a ideia de que o menos é mais.

Terceira marca a entrar na passarela, Angela Brito enalteceu a sua origem cabo-verdiana com o projeto BRUMEDJOS, no qual aborda o conceito místico que existe sobre o início dessa terra, antes uma ilha despovoada.

Ao som de uma música que remete a matrizes africanas, a coleção lida com a ancestralidade, inadequação e metamorfismo. Bege, vermelho, marrom e azul foram algumas das cores vistas em peças como calças, vestidos, batas e saias com shapes leves e funcionais.

A tecnologia do fio Emana e a inspiração nas obras de Salvador Dali foram os componentes principais da coleção apresentada pela estilista Caroline Funke, em um desfile sem música que buscou trazer uma reflexão sobre o futuro se baseando na memória. Cabelos molhados e tons de rosa, cinza, preto e verde foram vistos nas composições criadas para o Verão.

No entanto, o destaque da noite ficou por conta de “Xica Manícongo”, do estilista Isaac Silva. A coleção foi batizada com o nome da primeira travesti não-índia do Brasil, escrava de um sapateiro em 1591 e símbolo de luta e resistência. Representatividade, exaltação, minorias, manifesto. O desfile, que utilizou o brim da Vicunha, levou para a passarela apenas modelos negras e trans, em uma celebração pela identidade e feminismo negro. A trilha ficou por conta do texto de autoria de Neon Cunha, diretora de arte e ativista, que foi declamado pela mestranda em estudos culturais Magô Tonhon, dona do perfil @Mulherestrans. Na sequência, Urias deu voz a “Geni”.

Vestidos e conjuntos com estampas africanas em preto e branco deram o ar de divindade e feminilidade em um desfile marcado pelo conforto, atitude e visibilidade de uma minoria marginalizada e silenciada. Isaac deu voz às mulheres trans e principalmente negras. Voz que foi ouvida por meio dos aplausos e gritos de um público que viu sua força e luta representadas ali, na passarela de um emocionante desfile de moda.

Fonte: Kessy Christine | Fotos: Agência Fotosite