Leopoldo Nóbrega fala da construção sustentável do Galo da Madrugada

O Carnaval terminou – e muita gente acredita que o ano só começa de verdade, depois dele. Pois então, que se comece com a importante evidência, de que os ecos da sustentabilidade já estão reverberando em proporções colossais, na maior festa popular do mundo. Entre esses ecos, um se destacou, por colocar junto à visibilidade daquele que segundo o Guiness Book, é o maior dentre todos os blocos de carnaval; soluções de reaproveitamento para resíduos industriais provenientes da indústria jeanswear. O Galo da Madrugada, da cidade de Recife – o maior e mais tradicional desfile do estado de Pernambuco; neste ano recebeu a versão eco-friendly idealizada pelo designer e artista visual Leopoldo Nóbrega.

Intitulada “Galo Artesão”, a alegoria colossal desenvolvida pelo artista, levou junto com sua visibilidade e grandeza, uma homenagem à importância e qualidade do feito à mão. Concebida a partir de incontáveis retalhos de tecidos descartados, a textura que deu origem à roupagem da escultura gigante, foi criada a partir de sobras industriais de jeans descartado. Processo constante na trajetória do criador, a pesquisa de reaproveitamento de resíduos do cenário produtivo de Pernambuco, é também um legado da sua trajetória como Ativista da Moda, marcada pelo estudo constante do perfil dos descartes das indústrias de confecção, e pela incessante busca por alternativas tecnológicas para os resíduos de Toritama e Caruaru – 2º maior produtor de jeans do Brasil. O artista se dedica ao estudo do impacto ambiental nesta região desde o ano 2007.

A engenharia que permitiu que retalhos pequenos formassem a roupa da escultura, foi a mesma que permeou o imaginário das peças em Denim, expostas na primeira edição do Denim Meeting de 2016. E certamente também estará presente, na exuberante exposição que fará na edição deste ano do evento, que já está em contagem regressiva.

Leopoldo criou logísticas rebuscadas para viabilizar seu imenso projeto. Os caminhos criados, além de expor a oportunidade para a arte do reaproveitamento, também colocaram em evidência os caminhos da sustentabilidade que o Pólo de Confecção de Pernambuco está trilhando na região: um exemplo inspirador para todos os demais pólos confeccionistas e até mesmo para o cenário internacional. A competência em criar a partir de um material tão pequeno, e de um trabalho tão minuciosas, uma estrutura tão apoteótica; bem como a proximidade da nossa equipe com a trajetória do artista, nos permitiu a privilegiada oportunidade de entrevistá-lo:

GJ: Conte um pouco sobre como a sua trajetória como artista o levou a criar soluções tão manuais, e ao mesmo tempo tão viáveis para o cenário industrial.

Leopoldo: Como artista plástico sempre lanço mão de recursos inusitados para beneficiar os retalhos com acabamentos artesanais que agregam valor ao produto final além de integrar mão de obra artesã através de capacitações. Em 2015 cheguei nessa forma geodésica (estrutura geométrica formada por seis triângulos com modelagem diferenciada de curvas) que permitem relevos lembrando a sombrinha de Frevo ou as texturas dos Cactos, vegetação característica do Nordeste. Esse processo pode ser aplicado em diferentes tamanhos, dando vida a mantas sofisticadas em diferentes proporções.

GJ: Como foi a organização da logística para captação dos resíduos usados no Galo da Madrugada do Carnaval 2019? Como se deu essa captação, triagem e aproveitamento de retalhos?

Leopoldo: Para realizar essa segunda pele original, fui em busca de parceiros que pudessem separar os pedaços maiores das sobras de produção a exemplo da confecção SRJ que doou mais de 100 metros em cortes irregulares de 1 metro aproximadamente. A Santana Textiles também ajudou a multiplicar a ideia aproximando outros parceiros de lavanderia e tecnologia laser, além de doar pedaços maiores de 1.50m do seu mostruário de tecidos e cortes aleatórios destinados a experimentos de lavanderia. Em Cupira, distrito que fica a 40Km de Caruaru,  A Joely Jeans também conseguiu juntar pedaços menores que foram úteis para texturas mais delicadas. A sensibilização começa com a apresentação do projeto de inovação e escolha dos efeitos desejados para cada proposta. Diferentes tipos de azuis foram selecionados para compor primeiramente as partes da roupa do Galo, nosso gigante. Cada parte da roupa do Galo precisava de um retalho no tamanho de 80cm x 80cm. As sobras dessa proporção gerou retalhos menores que deram origem aos figurinos do corpo de baile do espetáculo de abertura do Carnaval do Recife e outras roupas usadas por artistas e personalidades também vestiram-se da proposta em diferentes composições de cor e efeito.

GJ: Você tem algum projeto pensado para ampliar esse tipo de prática sustentável na indumentária do Carnaval – ou mesmo na indústria da moda e vestuário – como um todo?

Leopoldo: Sim. Já estamos dando continuidade a um plano de fortalecimento da cultura popular dos Bois folclóricos de Pernambuco através de um laboratório criativo com resíduos do Polo Agreste e outros tipos de resíduos para re construção das personagens originais e construção de figurinos exclusivos assinados por mim em parceria com os artesãos da Bomba do Hemetério na zona norte do Recife, que serão apresentados até o próximo carnaval como espetáculo itinerante para lançamento da grife de produtos em rede nacional. Além desse mergulho de capacitação e co criação com base nos resíduos, teremos um livro com os processos criativos e um documentário das experiencias vivenciadas, que ajudarão a formar novos grupos e projetar o desejo de rever os impactos da moda no mundo com soluções diferenciadas. Gerar novos códigos visuais e conceituais é um dos benefícios da investigação criativa.  Outros convites surgiram com possibilidade de exportar a experiência para Cleveland, nos Estados Unidos. Ainda em negociação.

GJ:Você disse que a técnica que usou para aproveitar os retalhos de tecidos funciona em resíduos industriais ainda menores, podendo alcançar até dimensões para estruturas urbanas. Em que outras áreas você acha que esse tipo de reaproveitamento poderia ganhar aplicação? Qual o papel desse tipo de iniciativa em pólos industriais ativos, como o de Toritama, por exemplo?

Leopoldo: Todos os tamanhos de resíduos de tecido podem ser utilizados de alguma forma como insumo estratégico para um trabalho criativo autoral. As sobreposições ou os encaixes costurados, as colagens, os bordados, as superfícies prensadas e termo aplicadas podem ser pontos de partida para a produção estrutural de superfícies inéditas. Acabamentos artesanais já são comuns na indústria do jeans. Só precisamos direciona-los de forma interessante e gerar novos caminhos para produtos diferenciados. Meu desejo de ocupar grandes dimensões urbanas com estruturas derivadas de resíduos é um dos desafios que estou trabalhando. Pretendo interagir com praças, prédios, rios, canais e viadutos, validando esses suportes como linguagem cenográfica ou roupas gigantes e personagens do cotidiano que possam estimular nossas fantasias secretas.

GJ: Existe algum projeto disponível para treinar confecções e pólos regionais para esse tipo de prática artesanal eco-friendly?

Por enquanto tenho atuado com pesquisas e práticas direcionadas ao Polo de Pernambuco. Mas as problemáticas são as mesmas de outros centros industriais. Mas considero fundamental abrir espaço para o diálogo sobre a responsabilidade sócio ambiental, para a consciência do desenvolvimento sustentável, para a inclusão e valorização da mão de obra e sua qualificação, para a autoralidade criativa dos designers e profissionais da moda, e para o valor agregado que o processo pode gerar.  E principalmente, para o fortalecimento da indústria nacional através de produtos inovadores com identidade e tecnologia a serviço de um mundo melhor.

GJ: Alguma surpresa inspiradora reservada para edição de 2019 do Denim Meeting?

Leopoldo: Uma exposição Inspiracional com peças exuberantes será apresentada em primeira mão nesta edição 2019 do Denim Meeting SP e tour nacional. Um laboratório valioso que aproximou arte, moda e sustentabilidade como exemplo de integração da cadeia produtiva e visibilidade internacional. A proposta é que possamos sensibilizar outros empresários e novos parceiros a exemplo do Polo de Santa Cruz do Capibaribe que já demonstrou interesse em integrar seus resíduos de malha e tecidos sintéticos para ações futuras. Isso é fantástico! Além desses caminhos, também desejo aproximar resíduos de outros cenários produtivos a exemplo dos polos calçadistas com seus resíduos plásticos incríveis! Imaginem poder unir resíduos de todos os Polos nacionais em pról de respostas que libertam caminhos e possibilidades de inovação? Um sonho possível!

E pensar que o design dessa belíssima escultura gigante, teve seu primeiro registro nos kits de marketing do nosso portal. Pois foram nos marcadores de livro distribuídos pelo artista, a poucos anos atrás, que esse Galo Artesão cantou sua beleza diferenciada pela primeira vez. Uma honra e um orgulho contar com esse privilegio – o esboço inicial desse trabalho – em nosso acervo.

Fonte: Vivian David | Fotos: Horst Lambert