AI.GINSKA fala sobre índigo natural e sustentabilidade

A equipe do Guia jeansWear foi conhecer de perto o ateliê da estilista Marina Stuginski, brasileira fundadora da marca AI.GINSKA – junção do nome do índigo em japonês com seu sobrenome. Especialista no desenvolvimento de corantes naturais que não impactam o meio ambiente, Marina nos conta sobre  a tendência que percorre todos os cantos do mundo, a do uso de pigmentos naturais nos tecidos.

Marina trabalha em seu ateliê, na região do Bom Retiro, em São Paulo, um local onde libera suas emoções artísticas há mais de um ano, e também se dedica a ensinar outras pessoas a utilizarem o índigo e outros pigmentos.

A AI.GINSKA, fundada em 2014, é resultado de anos de pesquisa e especialização. Formada em Design de Moda em 2001, a estilista trabalhou em marcas como A Mulher do Padre e André Lima, até ser convidada a integrar a equipe jeanswear da Iódice, onde se se apaixonou pelo índigo por muito tempo. Depois passou para o ramo da lavanderia industrial em Maringá, Paraná, e pela Scalon, última empresa em que foi funcionária.

Questionada sobre o tempo de pesquisa para desenvolvimento de cartelas de cores, ela garante “o processo é longo”. “Em 100 anos de corante sintético, a gente perdeu muita coisa, e como aqui no Brasil não temos dados históricos sobre isso, tudo demora. O processo pode ser muito rápido ou levar meses para acontecer. Até as técnicas, como a do uso da goma de mandioca podem ser revistas e aperfeiçoadas”.

A estilista explica que o índigo é naturalmente verde, e precisa passar por um processo de fermentação e de hidrólise (reação química de quebra de ligação de uma molécula com a adição de outra de água, onde as bactérias se responsabilizam por produzir um açúcar) para ficar azul.

“O índigo é o corante que mais dura. As pessoas pensam que o tingimento natural é uma coisa que vai desbotar, mas não é por aí. Um material bem tingido vai ter a mesma durabilidade que um índigo sintético, e não é necessário utilizar ingredientes para firmar a cor, quem faz isso é o oxigênio”, diz.

Sobre o processo de tingimento em etapas, Marina afirma “cada mergulho no índigo é uma cor, e a água é utilizada para não deixar o tecido manchar, trabalhando a oxidação em um processo que passa da tina para a água e entra em contato com o ar”.

O processo artesanal exige muita concentração e atenção, a estilista o considera terapêutico, “[…] o cheiro das plantas, isso perfuma o ambiente enquanto faço a extração. O tingimento natural é muito criativo. Hoje na indústria, tudo é muito pronto. Meu processo leva a confecção de cada fixador de planta.” Entre as técnicas usadas se encontra o shibori que produz padrões de imagens nos tecidos.

A estilista reforça seu desejo por criar uma cultura de índigo no país, fortalecendo sua marca, iniciando parcerias, para gerar experiências naturais e artesanais. E isso já está começando. Em 2018, Marina já produziu peças para Fernanda Yamamoto, e hoje considera que o laser uma excelente ferramenta para reproduzir técnicas naturais de tingimento.

Referente a indústria global, Marina concorda que o tingimento natural tem sido adicionado às linhas premium, mas que o tingimento sintético ainda está longe de ser extinto. Industry of All Nations, da Índia; Buaisou, Kapital e Japan Blue Jeans, do Japão; Supernaturelles da França; e a G-Star, da Holanda.

“Ninguém está aqui pra voltar a tingir com panelinhas, mas a partir do momento em que começamos a retomar processos naturais que foram esquecidos e agregamos as novas tecnologias, temos a possibilidade de criar corantes híbridos”, salienta.

Ao redor do mundo, os países vêm criando políticas de proibição da entrada de corantes poluentes. Os impasses da indústria em relação ao uso de um tipo em detrimento do outro, envolvem mais do que a velocidade de produção, falam sobre o descarte de toneladas de pigmentos que contaminam milhões de litros d’água todos os dias. Bilhões, ano a ano, causados principalmente pela produção e consumo desenfreado do setor fast fashion.

O que dificulta que as lavanderias passem a aderir ao uso dos corantes naturais é o fato de serem mais caros, e a falta de conhecimento de técnicas de produção de muitas cores, que já estão disponíveis entre os sintéticos. As cores se limitam à fúcsia, rosa, verde, azul marrom, dourado, laranja e cinza.

Marina fala que o índigo natural tem um custo mais alto do que o sintético. E explica que quando falamos de fast fashion, não se sabe se é possível produzir uma blusinha no mesmo valor que é comercializada hoje, com os pingimentos naturais.

Venha conhecer de perto esse trabalho espetacular de Marina Stuginski no Inspira Denim, espaço inspiracional localizado na Ilha do Denim que acontecerá paralelamente ao Denim Meeting dias 26 e 27 de março em São Paulo.

Fonte: Beatriz Fleira | Fotos: Equipe Guia JeansWear