Brenno Sarques e Rhudson Assolari explicam porque o Brasil é de Algodão

Somos de algodão. Aí está uma afirmação da qual podemos nos orgulhar. Nosso país sozinho é responsável pela produção de 1,98 milhões de toneladas da matéria-prima. E dentro deste expressivo número, temos qualidade. Somos de algodão também porque este impressionante número é formado por um material 100% certificado. Esse orgulho real do nosso país é também a palavra de ordem da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, que tem proclamado ao longo da cadeia produtiva a importância que essa matéria-prima valiosa representa para a economia, a moda e o conforto nacional, através do movimento Sou de Algodão. Grandes varejistas tem aderido ao uso da matéria-prima, assim como os consumidores finais tem compreendido e percebido valor agregado nas peças confeccionadas no material. Nosso algodão é produzido dentro dos parâmetros de sustentabilidade. Leva vantagens para o trabalhador do campo, que exercita sua função dentro do cumprimento de toda legislação trabalhista. Passa por criteriosas e padronizadas análise de qualidade, cumprindo parâmetros de sustentabilidade, uso do solo e irrigação. Com a intenção de tornar ainda mais evidente o potencial dessa matéria-prima, sem a qual o nosso setor não teria a grandiosidade atual, nossa equipe resolveu mergulhar a fundo na composição que define o dna da indústria denim. Durante visita à Agopa – Associação Goiana dos produtores de Algodão, nossa CEO Marlene Fernandes conversou com Brenno Sarques, responsável pela comunicação da mesma, e Rhudson Assolari, Gerente de Laboratório. Confira abaixo a entrevista.

GJ: Como é feita a venda das colheitas de algodão? De que forma os compradores conseguem selecionar as qualidades que buscam no seu produto final através dessa matéria-prima tão importante?

AGOPA: No contrato vai a qualidade. O comprador envia a descrição das qualidades que são necessárias de acordo com o seu objetivo. Principalmente da qualidade intrínseca que ele deseja no material. Após é feita a análise do material. Quando o lote não atende essa demanda, ou ele vai para lisagem ou buscamos outro lote para cumprir o contrato. Ou ainda, jogamos a compra para o próximo lote. Só depois depois dessa análise é possível identificar a qualidade intrínseca. Então existem duas classificações: a classificação visual, e a classificação tecnológica que chamamos de característica intrínseca da fibra.

GJ: De que forma é criado o diferencial das variedades de algodão no mercado?

AGOPA: Então, aí é pesquisa constante para desenvolver novas variedades. Como exemplo temos a Bayer, e a Embrapa que estão sempre mudando a genética para chegar a um equilíbrio que atenda melhor o produtor e as fiações – pois estas estão cada vez mais exigentes. Fibras mais longas, mais resistentes, mais uniformes… Por isso a pesquisa não pode parar. Estes centros estão sempre desenvolvendo novas variedades.

GJ: Para o Denim, existe um tipo de fibra mais específica?

AGOPA: O jeans aceita uma fibra mais grossa, é diferente de uma camisa que demanda uma fibra mais fina e mais longa.Todas as fibras abaixo de 12,7 mm são consideradas fibras curtas. Em um lote de algodão, é considerado tolerável no máximo 10% de fibras curtas. Porém no jeans, aceita-se um pouco mais.

GJ: Existe diferença na qualidade do algodão produzido nos diferentes estados do nosso país?

AGOPA: Tanto Goiás quanto os outros estados tem fibras de qualidade. Posso afirmar que 90% do algodão resulta em fibras que atendem às expectativas do mercado. Dependemos muito do clima, nos últimos dois anos o clima nos ajudou muito e o produtor que investiu de forma correta – incluindo manejo e pesquisa – está com qualidade. Bahia tem uma tendência a ter uma coloração melhor devido à luminosidade – acaba tendo uma fibra com mais resistência, brilho e reflexão. Mas independente disso, o algodão de todos os estados do nosso país tem uma qualidade excelente.

GJ: Como tem se formatado a busca do algodão no crescente contexto de evolução das misturas de fibras na trama pelas tecelagens de denim?

AGOPA: Como consenso as misturas são informações que ficam mais em sigilo. A busca real destes fornecedores é por algodão de qualidade, que não sejam contaminados ou manchados. Esta é a busca, e os fabricantes no geral a encontram. E nós não temos reclamação, quanto ao não atendimento destas expectativas.

GJ: Nos casos de rasgos ou defeitos identificados após os processos de lavanderia do jeans, o algodão pode ser cogitado como origem do problema?

AGOPA: Quando se leva o algodão, o comprador carrega junto o laudo do seu lote, e a nossa responsabilidade vai até este ponto, Então quando ocorre esse tipo de problema, a causa não está no algodão. As tecelagens geralmente não abrem para nós seus processos de fiação, e suas misturas. Então quando ocorrem esses problemas, a provável causa pode estar em algum erro na mistura, ou incompatibilidade na composição, etc. Mas não no algodão.Todo algodão que sai da Associação vai com um lado esquematizado. Existem normas para tudo: 21% temperatura, 65% umidade, calibração das máquinas, etc.

GJ: Desmistifique para nossos leitores, qual o diferencial do algodão egípcio?

AGOPA: O algodão egípcio é uma fibra extra longa, resultado de um clima extremamente favorável. No Egito a fibra tem a tendência de crescer 1mm por dia. Para isso o clima, o ambiente, o manejo – tudo tem que estar em equilíbrio. Nestas regiões todas estas variáveis são ótimas e o clima é mais estável. Algumas regiões da Bahia já produziram fibra extra-longa, mas foi pouca quantidade. O algodão Egípcio é de fato produzido lá. Claro que a pesquisa não para, e estamos buscando produzir a fibra cada vez mais longa. Mas ainda não temos a extra-longa – esta só mesmo nestas regiões.

GJ: E quais são os benefícios desta fibra mais longa?

AGOPA: É mais fácil trabalhar com fiação com fibras mais longas. São menos rompimentos, e maior resistência. Fibras mais curtas dão mais trabalho.

Encerrando a pesquisa, nossa equipe visitou os processos que separam os lotes de algodão por qualidades. Lá, foi possível ver de perto como pesquisa, inovação, e flexibilização dos processos também fazem parte da produção de algodão. O processo que antes, incluía 24 horas de climatização em gaiola, hoje foi reduzido a 30 minutos pelos caminhos das esteiras. Toda amostra de algodão produzida, leva consigo um barras que impede a mistura dos lotes. Trata-se de uma lista de conveniências e excelências que só tendem a favorecer o nosso segmento. Do fio da meada, ao produto final – como mencionado no tema do nosso evento Denim Meeting. É justo aí, na fibra, que se inicia o grande filão do nosso setor.

Fonte: Vivian David | Fotos: Equipe Guia JeansWear