Congresso da USP aborda impactos e soluções da sustentabilidade na moda

A implementação de um sistema sustentável tem sido apontado como prioridade no mundo na moda. A mudança, porém, não acontece de uma hora para outra. O tema foi abordado na primeira edição do Congresso Internacional de Sustentabilidade em Têxtil e Moda, o Sustexmoda, da Universidade de São Paulo (USP), realizado nos últimos dias 29 e 30 de maio.

O evento contou com palestras voltadas à cadeia têxtil que apresentaram o tripé da sustentabilidade: economia, sociedade e meio ambiente. A intenção foi integrar empresas, acadêmicos e profissionais do setor em torno do tema. Além disto, houve ainda uma exposição no vão livre do auditório Azul da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH).

Entre as atividades no congresso, destaque para a mesa redonda “Sustentabilidade na Cadeia Têxtil e Indústria da Moda: um olhar para Economia”. A conversa, mediada por Cecilia Loschiavo, trouxe à tona uma análise sobre a ação sustentável dentro da indústria têxtil nacional.

A belga Annick Schramme, professora na University Antwerp, colocou em debate os 5 Ps da Agenda 2030 da ONU. São eles: Pessoas (erradicar a probreza e a fome de todas as maneiras, garantindo dignidade e igualdade), Prosperidade (vidas prósperas e plenas em harmonia com a natureza), Paz (promover sociedade pacíficas, justas e inclusas), Parceria (implementar a agenda por meio de uma parceria global e sólida) e Planeta (proteger recursos natural e o clima para futuras gerações). Os princípios guiam os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável.

A narrativa seguiu com a abordagem sobre o ciclo fechado da economia, que tem sustentabilidade inserida no contexto. “A indústria da moda é a segunda mais poluente e a segunda que mais consome água no mundo. O momento é hora de mudança de uma abordagem linear para uma abordagem circular em relação a durabilidade, tem uma questão de ter em mente que você não esta trabalhando o design do produto para amanhã mas sim para gerações futuras, onde é muito mais longo o processo”, disse Annick Schramme.

“Hoje o varejo, através dessa digitalização que existe no mundo da moda, já é trabalhado alguns modelos de negócios online, onde o cliente escolhe o design e encomenda a roupa. No jeans, temos como exemplo a marca Hens, que no ciclo reutilizam o jeans, pegam jeans mais gasto eles levam para a produção e fazem novas peças, onde o fim do ciclo é sempre um recomeço para uma peça nova. Acreditamos que a pequenos passos faz com que alcançamos um desafio grande, sustentabilidade é uma evolução e não uma revolução“, completou.

A mesa de debate contou com a presença de Patrícia de Sant’Anna, fundadora e CVO da Tendere – Pesquisa de Tendências e Soluções Criativas, que trouxe um olhar preciso sobre o caráter imediatista da indústria brasileira e quais são suas barreiras no pensamento sustentável.

“Quem está neste meio capitalista, envolvido nessa produção não pensa assim (a longo prazo). Tem que pagar os salários, não adianta sanar o problema para daqui há 30 anos. O modo de pensar, principalmente na indústria brasileira, focada no mercado interno, é extremamente imediatista. […] Os empreendedores médios, que são os que mais empreendem no país quando pensamos em moda, não tem ninguém ‘tomando conta dele’. Por isso ele é imediatista”, apontou.

Para Patrícia, a ideia de sustentabilidade deve ser ajustada em sua introdução na indústria têxtil. “Sustentabilidade, quando pensamos em ambiental, social e econômica, o desafio está em articular todos esses players que estão neste universo”, completou Patrícia.

Também integrando a mesa redonda, Maria José de Carvalho, do portal Textília, teve um contato mais direto com os estudantes presentes na platéia. Após uma rodada de conselhos aos jovens, a palestrante ressaltou a atual “facilidade” burocrática em se abrir uma pequena empresa no país e como este movimento pode influenciar o futuro.

“O que importa é o conteúdo dela (empresa), o valor agregado é seu conteúdo, inteligência e não o seu tamanho. Daqui para frente, até 2030, nós teremos mais empresas pequenas com grande valor agregado, do que grandes empresas. É isto que estamos vendo na economia mundial”, disse.

O Sustexmoda é coordenado por Francisca Dantas Mendes, professora e pesquisadora do curso de Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. O projeto, formado por um grupo de pesquisadores da universidade, une a pesquisa acadêmica ao mercado.

Fonte: Thaina Barros | Fotos: Equipe Guia JeansWear