Edmundo Lima, da ABVTEX, fala sobre as dificuldades no crescimento da indústria brasileira

A indústria e o varejo são os dois lados de uma mesma moeda, a moda. Abrir espaço para a comunicação entre as duas partes, identificando os pontos de convergência que possam ser explorados positivamente e minimizar os pontos de divergência, tem sido a função das duas principais entidades destes setores, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), e a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX). Nos últimos anos, tanto a indústria como o varejo de moda vêm enfrentando desafios importantes, sendo que a partir de 2013, com o início de um cenário econômico de recessão, estes desafios aumentaram consideravelmente.


Para a indústria, tanto o movimento de terceirização da produção, por parte do varejo, que ocorreu de 2003 até 2015, como o início de uma tendência atual de “renacionalização” desta produção, tiveram impacto fundamental nos modelos adotados pelos fabricantes. No lado do varejo, passar de um período de grande demanda do consumidor, de 2003 a 2014, para uma queda considerável a partir de 2015, tem exigido um grande esforço de adaptação, flexibilidade e agilidade nas estratégias. O que varejo e indústria esperam um do outro? De que forma cada um pode contribuir para o sucesso mútuo? Quais as críticas e as expectativas de cada um?


Esta entrevista realizada pela LINC pretende fazer o papel de um mapa inicial na busca do melhor caminho. Ela traz as visões das duas entidades a partir da palavra de seus principais executivos: Edmundo
Lima, diretor executivo da ABVTEX, e Fernando Pimentel, diretor superintendente da ABIT
, que abordaremos em outra matéria. Acompanhe.

LINC – Com o aumento do dólar o modelo de importação de produtos que esteve presente no varejo nas últimas décadas tornou-se pouco rentável. Você concorda?


Edmundo Lima -A alta do dólar motivou os varejistas a substituir parcela significativa de artigos importados por produtos nacionais. Isso criou desafios para o abastecimento de determinadas categorias de produtos, uma vez que o
Brasil não possui vocação para produção de alguns itens de inverno ou não possui a escala produtiva e qualidade de produtos necessárias para atendimento da demanda. O consumidor brasileiro está muito atento ao aspecto qualidade
de produto e não está disposto a pagar mais por um produto inferior. Portanto, a substituição de importações pelo varejo de moda sinaliza um momento favorável para a indústria nacional desenvolver novos produtos, investir em maquinário
e capacitação, em gestão e na mão de obra para atendimento
desta nova demanda.

LINC – Como fazer essa transição, do produto importado para o nacional, de forma satisfatória, considerando que a própria importação prejudicou de várias formas o
desenvolvimento desta indústria nacional?

EL – – Segundo estimativas do IEMI – Inteligência de Mercado, a participação de importados no varejo de moda em geral, em 2015, foi de 12,4%, mesmo índice observado em janeiro de 2016. Sendo assim, com este baixo índice de participação do produto importado no mercado brasileiro, não consideramos que as importações tenham prejudicado o desenvolvimento da indústria nacional. Na realidade, a importação foi um grande indutor de inovação e investimento no setor produtivo. A cadeia de fornecimento nacional possui limitações para atender a demanda das grandes redes de varejo em termos de escala de produção, qualidade e preço para determinadas categorias de produtos, bem como dificuldade para o cumprimento de requisitos de responsabilidade social exigidos pelos varejistas associados da ABVTEX. A falta de competitividade da indústria nacional tem um caráter ainda mais preocupante a partir da retomada da economia que virá, de forma acelerada ou não, aumentando o desafio para o abastecimento destas redes varejistas.

LINC – Quais são as principais questões a serem aprimoradas no relacionamento varejo x indústria no segmento de moda hoje no Brasil para se iniciar uma nova fase com êxito?


EL – Há um conjunto de necessidades a serem atendidas para maior eficiência na relação varejo e indústria: questões ligadas ao cumprimento da legislação trabalhista e tributária, não precarização da mão de obra e condições dignas de trabalho, aumento da produtividade da indústria nacional, maior integração entre a cadeia de fornecimento e os canais de distribuição, desenvolvimento de produto, melhoria na qualidade e acabamento de produto, dentre outros. A ABVTEX tem firmado parcerias com entidades ligadas à indústria e ao governo para promoção do desenvolvimento da cadeia da moda.
Reunimos as associadas da ABVTEX no Programa de Certificação de Fornecedores-ABVTEX. Lançado em setembro de 2010, o objetivo é ajudar as empresas varejistas signatárias do programa a monitorar e certificar, de maneira estruturada e integrada, a cadeia de fornecedores do setor de confecção, a fim de incentivar e disseminar a formalização, boas práticas de saúde e segurança no ambiente de trabalho e combater todo e qualquer trabalho irregular nas confecções, principalmente o uso de mão de obra infantil, análogo ao escravo ou
utilização de imigrante irregular. A certificação da ABVTEX vem estabelecendo um novo ambiente nas relações entre fornecedores e varejistas ao estimular o desenvolvimento de uma cadeia de fornecimento ética e responsável. Até abril
de 2016, registramos um total de 8.167 empresas de todo o país cadastradas no programa, das quais 4.474 obtiveram a certificação, representando mais de 397 mil empregos diretos. Desde a sua instituição, a ABVTEX registrou um total de
15.400 auditorias realizadas, sendo que, somente em 2015,
foram realizadas 5.266 auditorias.

LINC – O varejo que mais tem obtido sucesso no mundo é aquele que aderiu a modelos como o fast Fashion que envolve baixos volumes de produção de cada modelo de uma coleção e curta permanência nas lojas. Mas este modelo envolve uma adaptação considerável nos processos de desenvolvimento e produtivo. O que é necessário para se atender a esta demanda?

EL –O modelo de fast fashion,no caso do Brasil, é altamente dependente do fornecedor nacional, justamente pela proximidade do mercado fornecedor e consumidor. O
processo de importação tem uma duração média de nove meses entre o desenvolvimento da coleção e recebimento dos pedidos. Neste modelo de negócios, o fornecedor necessita de alta flexibilidade de produção, ser capaz de trabalhar com matérias-primas distintas e diferenciadas, velocidade e alta capacidade de desenvolvimento de produtos. Estes requisitos, apesar de presentes em uma pequena parcela da indústria nacional, necessitam ser aperfeiçoados para a realidade brasileira. Assim sendo, investimentos em inovação de processos, maquinário, gestão de empresas e capacitação de pessoas são essenciais para que o fornecedor nacional esteja alinhado às estratégias desenvolvidas pelos varejistas no modelo fast fashion.

LINC –De que forma a tecnologia pode ajudar a indústria hoje?

EL – Ao longo de todo o processo produtivo, desde o desenvolvimento de produto até a finalização da produção.
Atualmente, podemos contar com sistemas que auxiliam a gestão do ciclo de vida de produto (PLM), desde a sua concepção até a venda na loja, integrando o processo produtivo à gestão do varejista. Por meio destas plataformas, é possível ter a interface do varejista com seus fornecedores, promovendo a
maior transparência e integração entre as partes.

LINC – A tecnologia envolve investimento de capital em itens como treinamento, capacitação e atualização. Existe algum esforço da ABVTEX no sentido de fazer com que a indústria tenha confiança em assumir o risco de se investir hoje, com o panorama econômico que o país apresenta?

EL – Ser empresário, em qualquer setor, exige assumir riscos. No setor têxtil não é diferente. O Brasil vive um momento de transição em que a vocação industrial vem perdendo espaço para o varejo e a área de serviços. Isto vem acontecendo nas economias mais desenvolvidas, como os EUA, o que não quer dizer que o setor industrial brasileiro deva desaparecer. Pelo contrário, ele deve se fortalecer a partir do aumento do grau de eficiência. Isto é plenamente possível especialmente com o apoio da tecnologia. Há setores no processo produtivo que dependem de mão de obra, mas o maquinário utilizado faz toda a diferença. O Brasil se movimenta independentemente de governos e crises. O varejo de vestuário é exemplo de busca de eficiência. Mesmo sofrendo com os efeitos de um ano desafiador, busca formas de reduzir custos, aumentar a produtividade e conquistar o consumidor. A indústria têxtil nacional tem todas as condições de fazer o mesmo e os grandes varejistas de vestuário, associados da ABVTEX, vêm ajudando a cadeia fornecedora neste processo.


LINC -Como você resumiria as principais demandas do varejo em relação à indústria hoje no Brasil?


EL – Em síntese: aumento da produtividade e melhoria da qualidade de produto; aumento do nível tecnológico: renovação do parque industrial e automação de máquinas; gestão mais eficiente: planejamento financeiro, controle de custos, gestão de pessoas, processos de produção e gestão de parcerias; cumprimento da legislação trabalhista e fiscal.