Hiago Martins detalha benefícios da lavanderia sustentável para as marcas

Valorização dos funcionários, ganhos na qualidade de vida do ambiente de trabalho, economia de recursos naturais e principalmente retornos financeiros. Quem diria que sustentabilidade no contexto da moda traria tantas vantagens. Se a alguns poucos anos no setor têxtil os processos de lavanderia ecológicos eram vistos como onerosos inimigos do apelo comercial, hoje representam estratégia desejo para venda e ideal de longevidade financeira para o mercado azul.

Um dos exemplos dessa evolução é ilustrado pela lavanderia catarinense Cristal, que recentemente adquiriu equipamentos da espanhola Jeanologia, referência mundial em tecnologias eco-friendly para o acabamento do denim. A aquisição dessas máquinas, foi o término de uma longa jornada envolvendo a preparação de todo o parque fabril da companhia, bem como a automatização do fluxo de produção.

“Não adianta ter investimento em tecnologia sem fazer o dever de casa básico com excelência”, apontou Hiago Martins, empresário da lavanderia Cristal. As palavras dimensionam o patamar dos esforços e investimentos realizados pela companhia para realização dessa transição.

Em entrevista exclusiva ao Guia JeansWear, Hiago explica como foram feitas essas mudanças preparatórias, quais são as possibilidades que a nova planta automatizada da Cristal oportuniza ao segmento, como funciona a logística eco-friendly no dia-a-dia de uma lavanderia e como ela já está se convertendo em ganhos não apenas para a própria empresa, mas também para os seus clientes parceiros. Confira abaixo!

Guia JeansWear: Sabemos que a Cristal investiu bastante em automação para mensurar seus próprios resultados. Justamente por essa visão, consegue identificar com veracidade seus percentuais de otimização no uso de água e tempo dos processos — comparativos aos processos anteriormente adotados. Você poderia compartilhar conosco alguns desses percentuais?

Hiago Martins: A relação homem máquina diminui bastante com a automação, conseguimos ter mais eficiência em nossos processos, registrando um aumento aproximado de 50% na produtividade. A automação também gera uma redução dos “re-processos”, o que também influencia na redução e no aumento da produtividade. No tingimento esta parte é bem mais visível.

Os tingimentos saem mais assertivos, pois a relação de banho fica perfeita, o trabalho é com conta-litros então cada litro que entra na máquina é importante. Em relação à geração de efluentes e ao consumo de água, conseguimos uma redução de pelo menos 40%. Comparando com algumas outras empresas, chegamos a utilizar até 1/5 da água empregada nos processos das que não possuem automação. Já na relação de energia elétrica e vapor, a economia é também bastante visível, chegando a cerca de 20%, pois não temos desperdício de vapor nem de água.

GJ: Sabemos também que essas estatísticas são extremamente favoráveis para agregar valor às marcas e, por conseguinte, também agrega valor aos prestadores de serviços das mesmas — no caso as lavanderias. Então perguntamos: os clientes da Cristal estão comunicando esses dados?

HM: A comunicação é feita através de visitas técnicas de representantes das empresas, onde apresentamos todo o nosso parque fabril. Buscamos passar as informações para os nossos clientes da forma mais ponderada possível, com muita transparência, sem pecar pelo excesso do marketing exagerado, e quem visita nossa sede consegue visualizar essa realidade. Hoje temos parceiros desenvolvendo coleções inteiras conosco justamente pela segurança que é transmitida através da comunicação precisa desses dados relativos ao consumo de água, reciclagem e tratamento. Muitos deles, já estão enfatizando a sustentabilidade como um valor agregado às suas marcas, mencionando nosso nome junto com essa divulgação para o consumidor final.

GJ: O investimento em automação da Cristal foi um passo preparativo para a adoção de importantes tecnologias. Soubemos que uma delas, foi a aquisição de máquinas da Jeanologia. Quais foram essas máquinas?

HM: Hoje contamos com duas máquinas de laser e dois de nebulização da Jeanologia em nossa planta — um para desenvolvimento de amostras em nosso laboratório interno e outro para produção. Temos também o planejamento para investimento de ozônio mais forte, para substituir os atualmente empregados, para preparar melhor as peças antes do início dos processos.

GJ: Que processos elas substituíram?

HM: O laser veio para substituir uma boa gama dos processos manuais que eram realizados; principalmente a parte da marcação de bigodes, detonados, puídos, estampas e em alguns casos até mesmo o used. Atualmente não realizamos praticamente nada manualmente — apenas alguns detalhes mínimos de puídos em bocas de bolsos. Já a nebulização, está substituindo processos como o sky, que eram feitos anteriormente com paninho e geravam muitos contratempos, e com a nova tecnologia impactam em maior produtividade e reprodutibilidade muito melhor.

GJ: Qual a capacidade produtiva das mesmas?

HM: A capacidade do laser depende muito do processo, mas trabalhando 24 horas conseguimos alcançar um volume de 8.000 a 10.000 peças por dia com uso de laser. Com relação a nebulização, ela nos confere uma produção e reprodução melhor do que a obtida com o sky manual realizado com paninho ou pó, chegando a um volume de 2.500 a 3.000 peças por dia com nebulização, podemos aumentar mais esse número ao envolver mais o cliente nesse processo, transmitindo melhor os ganhos na preservação na fibra.

GJ: A questão da redução do consumo de água é um dos grandes desafios das lavanderias. Além da redução no consumo, a Cristal realizou também alguma mudança para otimizar o tratamento dos seus efluentes?

HM: Hoje não trabalhamos mais com lenha: nossa estação de tratamento e efluentes é totalmente automatizada e dispensa atividade manual. Essa mudança elevou bastante a qualidade de vida dos funcionários, eliminando a necessidade de monitoração manual, e reduzindo também os gastos com combustível.

GJ: A partir desta mudança, a empresa projeta a redução nos próprios custos fixos?

HM: A empresa já é bem enxuta nesse sentido, mas a partir do momento que se investe em tecnologia é preciso investir em recursos humanos capacitados para operá-las. Compartilhamos a visão de que não é pagando salários baixos ou de mercado que vamos ter os melhores. Então, nosso custo fixo é bem parecido com o anterior, mas em compensação conseguimos retribuir nossos profissionais com uma remuneração muito melhor. Temos a redução dos impactos ambientais e da demanda por recursos naturais, e de mão-de-obra mas investimos mais em pessoas e capacitação e acreditamos que nos próximos 5 a 10 anos esse será o foco.

GJ: Como os clientes da lavanderia Cristal estão recebendo estas mudanças? Impactou no valor ofertado por lavação da Cristal?

HM: Em comparação com bigode ou detonado manual, o laser consegue ser até 50% mais barato no momento em que esses processos são realizadas simultaneamente. Uma peça com bigodes frontais e detonados na frente, por exemplo, é muito mais barata de se fazer pelo laser já que os processos não precisam ser feitos separadamente, diferentemente dos manuais.

GJ: Pensando em atender também as pequenas marcas que nos acompanham, qual o menor lote de lavagem possível? Como os pequenos poderiam acessar essa tecnologia em levas menores realizando parceria com vocês?

HM: As quantidades de peças neste caso estão ligadas à produtividade. Lotes muito pequenos implicam muitas trocas de máquinas e de grade, além do uso de máquinas muito maiores do que a demanda real. Os lotes ideais — considerados pequenos para a realidade global, porém aptos a passar pela tecnologia — são acima de 150 peças. Quanto maior a produtividade, maiores os ganhos. Abaixo disso, já temos que usar salas de desenvolvimento, o que implicaria na perda de todos os ganhos na economia de químicos, água e luz que poderiam ser obtidos com as tecnologias.

A partir do momento que a confecção entender como funcionam essas tecnologias, também vão conseguir ser mais produtivas. Acho que os pequenos devem aderir à causa: elas vieram para ficar e quem não estiver antenado, aos poucos vai perder mercado e vai ser dominado por quem tiver adotado. Cada vez mais o consumidor final quer saber onde é feito, quem fez, como fez, e quanto de água foi usado; e as marcas tem que ser o mais transparentes possível para transmitir essa informação para o consumidor final. Essa é a visão da lavanderia Cristal.

 

Agradecimentos à Hiago Martins e toda equipe da lavanderia Cristal

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução