Indústria 4.0 e jeans são tópicos de debate na feira Maquintex

A indústria 4.0 não se resume à automação: envolve o ideal da interatividade total entre dispositivos móveis, computadores, máquinas, fabricantes e consumidores. O jeans sustentável, por sua vez, não implica apenas no uso de matérias alternativas: pressupõe o conhecimento real do impacto de cada item produzido. Estas reflexões e insights foram o foco da palestra “Tecnologia para o jeans sustentável”, apresentada para o público no segundo dia da feira Maquintex (Feira de Máquinas, Equipamentos, Serviços e Química para a Indústria Têxtil e de Confecção).

Referência no setor, a edição de 2019 da feira acontece em Fortaleza entre os dias 10 e 13 de setemebro. A palestra realizada no segundo dia contou com mediação do diretor da Benatêxtil Paulo Rabelo e  das professoras Lígia Nottingan e Danielle Caldas Vasconcelos, que leciona na Uniateneu.

Danielle, iniciou suas falas justificando que a visão completamente automatizada da indústria 4.0, não corresponde a definição brasileira, pois em solo nacional esse conceito se estende para a ideia de interatividade total.

De acordo com a professora, 99% da produção do vestuário usa recursos virgens, sintéticos ou retirados da natureza. “Ou seja, são 53 toneladas anuais de roupas novas onde apenas 12% são reaproveitadas”, comentou, revelando também que desta expressiva quantidade, apenas 74% são incinerados, logo não tem um destino limpo.

Desde 2012, a circularidade ganhou muita força nesse processo, afirmou Danielle ao citar exemplos de marcas que já estão adaptadas ao conceito como a Patagônia, que oferece serviço de reparos em suas peças promovendo assim a longevidade dos seus itens, e a gaúcha Envido, que transforma suas peças de jeans descartado. Ainda na lista de referências, citou The Collaboratory, o laboratório da Levi’s criado para pesquisar ações com impacto positivo e também a Pepe Jeans, com a lavagem Wiser Wash.

Como consenso, todos os participantes concordaram que entre os maiores desafios impostos para o mercado denim do Brasil o maior de todos consiste na questão da moda autoral e dos novos modelos de negócios que estão surgindo, que podem ser extremamente positivos para o jeanswear.

Agregando sua contribuição, Paulo Rabelo destacou que antes de falar em indústria 4.0 no Brasil, é preciso situar onde a industria brasileira está. “Algumas empresas ainda estão na etapa 1.0”, justificou.

“O 4.0 é um futuro promissor, mas precisamos antes fazer o dever de casa para que ela realmente aconteça”, alertou Paulo, destacando que a indústria nacional avançou muito. “Já existem fabricantes que produzem com 40%, 70% menos de água”, completou.

Tratar água, de acordo com o diretor da Benatextil, na realidade atual já é algo básico: “melhor do que tratar é não sujar a água”, afirmou. Relatando dados, trouxe números interessantes do nosso setor, como o expressivo volume de 4.735 litros de água empregados para criação de cada jeans, se considerado seu ciclo desde o plantio do algodão.

Desta quantia, de acordo com Paulo, 60 a 70 litros são gastos pela lavanderia, quando os métodos são convencionais. Ainda de acordo com o expertise do palestrante, somente na etapa da lavanderia já é possível reduzir sensivelmente esse volume, de 7 até 3 mil litros de água dependendo do processo. O sustentável não pode ser feio, muito menos caro ou insustentável, concluiu explanando os dados acima.

No espaço para interação com o público, refletindo sobre alternativas para prolongar o uso das peças criadas, surgiram questões como a recuperação de um jeans por meio de uma nova lavagem industrial.

Já Daniele Caldas Vasconcelos opinou: “Lavar de novo é retornar ela em processos que causam impacto”. Como maneiras reais de dar nova vida, a professora indicou a revenda e a própria responsabilidade do consumidor, que além de fazer escolhas ecológicas, deve prover a durabilidade da sua peça.

Complementando a ideia de inclusão do consumidor na co-autoria do impacto ambiental da produção de jeans, Paulo compartilhou com o público a iniciativa da Levi’s, que engajou seu público a guardar seu jeans no congelador ao invés de lavar. Destacou também, que existem produtos antibacterianos que podem ser usados pelo usuário de jeans para desinfecção das peças sem lavagem.

Após a colocação desse novo direcionamento para os grandes fabricantes, o debate foi encerrado com o desfile da marca sustentável Hodierno, desenvolvida pelos estudantes da Uniateneu Luis Butrago e Vítor Cunha.

Fonte: Vivian David | Fotos: Equipe Guia JeansWear