Londres acrescenta inspirações noturnas para o denim

A temporada de desfiles da London Fashion Week tradicionalmente distancia-se do streetwear na maioria de suas apresentações, tornando assim as aparições do jeans menos numerosas. No entanto, dentro do line-up, os designers que se apropriam do denim como material principal, são extremamente formadores de opinião. Neste perfil, temos Marques Almeida, Ashish Gupta, House of Holland e MM6 Maison Martin Margiela: sempre leituras direcionais esclarecedoras para quem desenvolve jeans. O motivo, não está necessariamente na pronta aplicação de suas interpretações, mas na indicação certeira dos temas, e na pertinência da apresentação de linguagens extremamente experimentais: novas formas de rasgar o jeans, novas lógicas de ornamentação de paetês, novas texturas manchadas, são alguns exemplos.



De alguma maneira, os temas apresentados em Nova Iorque se repetiram: o jeans melhor amigo, representado pela tendência My Favorite Denim, esteve presente na ideia de reaproveitamento escultural de Faustine Steinmetz, que propôs um visual delicado e poético para as customizações, romantizando-as com o acréscimo de flores: uma forma conceitual de destacar o bom diálogo deste tema com a simplicidade e a natureza.



Já o tema Traveller Babe, caracterizado pelo denim com tratamento homogêneo e regular, decorado por bordados multicoloridos e pegada boho, foi contemplado por designers recentes que se destacaram justamente neste visual. Como exemplo temos Eilen Agar, que decorou seu jeans com imagens relacionadas à arte e à natureza, inspirada no efeito espelhado e rotativo dos caleidoscópios. Desenhos colorindo joelhos, repartindo jaquetas e espalhando referências em movimento ao longo de combos formados por casacos e pantalonas caracterizaram sua coleção, que deteve grande atenção e visibilidade.



A aparência imponente e a postura de afronta que marcou o tema Real Denim, especialmente através do visual elaborado a partir de peças retorcidas, alcançou familiaridade em alguns looks das coleções das grifes House of Holland e MM6 Maison Martin Margiela. A fundamentação das inspirações no entanto, foi proposta em um caminho completamente oposto: ao invés do empoderamento feminino, agrupamento de etnias e moda real; o visual trouxe um rastro de submundo Londrino setentista. O jeans alcançou cenário cavernoso, alucinógeno, com jeitão clubber e som tecno associando-se a materiais plásticos e metalizados: típico ambiente que fervilhava na cidade na mesma década. Nos complementos, constaram toques delirantes, amarrações, contravenções e o denim pontuando todos estes elementos, comunicando sensação de caos. Insetos, medo e delírio também constaram, especialmente nas interpretações de House of Holland, marca que resgatou o enredo do filme de mesmo nome protagonizado por Johnny Deep em 1986.



Já as referências setentistas agrupadas no tópico Casual Sixties, em Londres foram pouco mencionadas, mas ainda assim constaram; especialmente através das roupas contemporâneas de Timo Weiland, cujo sortimento explorou como essência principal o tópico da beleza com foco na característica usável.



Com todos os temas Nova Iorquinos retomados, e com seus diálogos para com a temporada de moda Londrina devidamente “costurados:, ficam faltando Marques Almeida e Ashish. Mas estes, como foi dito logo no início, afirmam caminhos bem mais sólidos. Enquanto o primeiro, através de sua coleção repleta de babados e referências noturnas legitima o toque de inconformismo nas inspirações relacionadas ao jeans, e propõe o jeans em um contexto noturno, o segundo, joga de maneira direta nas inspirações do segmento novas linguagens para trabalhar a superfície do denim. Ashish contribui com linguagens como brilhos em tom fluo, jeitão tecno, vazados em formato de corações – mas acima de tudo esclarece a consistência tanto dos temas relacionados à vida noturna, quanto à moda esportiva e casual.

VIVIAN DAVID | FOTO: REPRODUÇÃO