Luciana Amarante e Anselmo Santos discutem sobre a importância da capacitação dentro do mercado jeanswear

Quando dois profissionais do segmento jeanswear se juntam para discutir sobre o mercado e as dificuldades de se formar profissionais na área, com certeza, algo de muito interessante pode sair desse bate-papo. Por isso, convidamos os estilistas especializados em jeans, Anselmo Santos e Luciana Amarante para abordar esses assuntos e muito mais, sobre o universo azul.

Anselmo está no mercado há mais de 20 anos e trabalhou na empresa Vest Hakme por 16 anos e nesse período desenvolveu coleções para as marcas mais renomadas do país. Atualmente dá palestras sobre jeans para universidades, escreve para uma revista de moda profissional internacional e trabalha em projetos pessoais para o ano de 2018.

Luciana mantém uma carreira de 30 anos. Teve seu início na Zoomp, marca que foi sua grande escola e que trabalhou durante 18 anos. Passou ainda pelas marcas Le Lis Blanc e Bobstore e atualmente presta consultoria para empresas de jeanswear. Para um futuro próximo também pretende lançar sua própria marca.

Anselmo: Luciana, como você iniciou sua carreira como estilista de jeans e o que você acha imprescindível para se tornar um profissional da área?

Luciana: Eu iniciei a minha carreira em 1988 fazendo o curso de estilismo de 1 ano no Senac em SP (na época ainda não existia faculdade de moda no Brasil). Trabalhava como vendedora na loja da Zoomp do shopping Eldorado enquanto fazia o curso. Quando terminei queria trabalhar na minha área, foi quando o Renato Kherlakian me convidou para trabalhar na fábrica como assistente de estilo.

Foi lá que iniciei minha carreira como estilista. Tínhamos excelentes profissionais da área do jeans, modelista, desenvolvimento de produto, designers, gerentes de produção, pilotagem, engenheiro têxtil, lavanderia, acabamento, entre outros. Foi a melhor escola, foi realmente onde aprendi como se faz jeans, onde descobri meu amor pelo denim. Aprendi na melhor marca de jeans do Brasil, foram os melhores 18 anos da minha carreira!

Por isso, acho imprescindível que o profissional que tenha interesse em trabalhar com jeans tenha conhecimento técnico, tenha conhecimento de produção, conheça realmente como diferenciar um denim de outro, entenda de processos na lavanderia e acabamentos para conseguir chegar no resultado esperado no produto.

E você Anselmo, o que te levou ao Mundo Azul?

Anselmo: Lu, na verdade eu não tive muita escolha, a coisa aconteceu sem que eu ao menos esperasse. Meu sonho era ser jogador de vôlei, mas a minha família era muito pobre e não tinha condição nenhuma de me manter nesse esporte. Toda a minha família trabalhava em fábricas de jeans em Cianorte e com 14 anos minha mãe me levou para trabalhar com ela. Eu executava várias funções como tirar linhas das calças, revisar as costuras, passar as calças no ferro e por fim aprendi a costurar. Me identifiquei muito com o jeans e logo resolvi fazer um curso de desenho de moda mesmo contra a vontade da minha mãe porque ela dizia que isso não era coisa pra homem.

Pouco tempo depois, conheci uma estilista que já havia morado em Paris e estava visitando a empresa, então, eu peguei a apostila e joguei em cima dela (risos). Para minha surpresa ela viu, gostou dos meus desenhos e me levou para trabalhar com ela em Londrina num escritório de desenvolvimento. Daí, com muito trabalho e persistência, segui nesse caminho desenvolvendo produtos para as marcas de jeans mais importantes do país. Digo que o jeans mudou verdadeiramente a minha vida. Através desse trabalho pude viajar por todo o mundo conhecendo países que nem em meus mais lindos sonhos teria possibilidade de conhecer.

Acredito que o design é muito importante em qualquer coleção, é através dele que as marcas se individualizam, mas quando se trata de jeans, a técnica é indispensável. Somente um profissional com um bom conhecimento técnico consegue construir um produto diferenciado e autêntico.

O mercado tem mudado muito ultimamente, principalmente para atender às demandas do fast fashion e na minha opinião, a parte mais afetada foi a qualidade dos produtos. Percebo que há uma dificuldade da indústria em aliar preço e qualidade. Você também vê isso? Do que você sente falta quando falamos do jeans de alguns anos atrás?

Luciana: De um lado acho que o fast fashion faz com que a informação de moda chegue rápido e com preços acessíveis para o consumidor. Do outro, por seguirem as mesmas referências e não terem muito tempo para desenvolver produtos exclusivos, acabam copiando tudo e apresentando produtos com má qualidade para ter preço. Eu acho que antes tínhamos mais tempo para pesquisa, para desenvolver o produto que queríamos, desde o desenvolvimento de tecido exclusivo, modelagens diferenciadas, criávamos lavagens incríveis super autorais e criativas. Existia realmente personalidade nas peças. Sinto muita falta desde “Tempo de criação”.

Anselmo: Realmente. Acredito que a falta de tempo, principalmente para o desenvolvimento dos produtos, faz com que as marcas apresentem coleções cada vez mais parecidas e nada autorais. Da mesma forma consigo perceber um contraste muito grande quando identifico uma marca onde a criação é levada a sério. Entendo também que a concorrência e a situação econômica que o país vive leva as empresas a fixar cada vez mais os pés no chão tornando mais difícil qualquer possibilidade de mudança, mas por outro lado, o consumidor já demanda essa transformação. A qualidade nos acabamentos e lavagens também caiu muito. O aumento na quantidade de modelos produzidos e a agilidade nos processos produtivos infelizmente fez com que isso acontecesse.

Na minha opinião, as faculdades tradicionais de moda não conseguem formar profissionais com expertise em nosso ramo [denim], dada a complexidade e as constantes transformações no setor e a indústria com toda essa velocidade também não consegue desenvolver um sistema de treinamento eficiente. De que forma você acredita que esse panorama pode ser mudado?

Luciana: Acho que as faculdades de moda não preparam um estilista especializado em denim. Teria que ser muito especializada tecnicamente: tem que ter conhecimento têxtil, entender de tingimento, técnicas de lavanderia, encolhimento, modelagens, acabamento. É uma mágica antes e depois de todos os processos. Acho que o denim no Brasil é muito importante mas com poucos profissionais realmente preparados e com conhecimento. As grandes industrias deste setor poderiam se unir e criar uma universidade denim, como existe em Amsterdam. Seria incrível e espero que isso aconteça em breve!

Anselmo: Fui coordenador de uma empresa de jeans por 16 anos e muitos estudantes, estagiários e novos profissionais passaram por lá. Eu preparava um plano de estágio onde o novo profissional passava uma semana em cada setor da empresa para conhecer o processo da construção do produto e muitas vezes me surpreendia com a recepção negativa do programa, principalmente quando o funcionário tinha que ficar uma semana dentro da lavanderia numa época de clima quente. Isso me entristecia muito porque, infelizmente, esse novo profissional tem uma visão distorcida da realidade de uma indústria e não existe outra possibilidade de se formar um profissional sem que ele entenda os processos, seja na lavanderia, na modelagem, na costura ou outra área.

Um profissional de jeanswear não se forma numa sala fechada com ar condicionado. Por outro lado, eu entendo que os investimentos para a produção de jeans são muito altos e acredito que esse seja o maior impedimento no desenvolvimento de algum programa acadêmico. Concordo com você quando diz que as grandes indústrias ou até mesmo tecelagens poderiam financiar tais projetos. Provavelmente seriam beneficiados com tal atitude no futuro.

FONTE: Vanessa de Castro | Foto: Equipe Guia JeansWear