Luciana Parisi conta sobre as mudanças no mundo da moda e a reformulação do Senac Moda Informação

Há 50 anos atrás você imaginava que a moda estaria exatamente como vemos agora? Ou que as mudanças previstas há bem pouco tempo atrás aconteceriam hoje e não num futuro tão distante? Robôs, naves espaciais, os Jetsons com suas roupas futurísticas poderiam estar passeando em pleno século 21? Sim, mas muito mais do que essa imagem do amanhã, conquistamos outras tecnologias, facilidades e inovações, voltamos atrás em busca do nosso passado, da paz, de uma quietude inexistente nas grandes cidades e chegamos aqui em um momento onde não existem mais tendências ou estações pré-definidas, desfiles que muitas vezes não fazem mais sentido, o slow fashion em contrapartida ao fast fashion, o artesanal, o sustentável, as novas formas de produzir e de consumir.


Seguindo essas e outras mudanças, o Senac Moda Informação acaba de reformular seu evento que há 20 anos fornece as principais tendências pesquisadas pelo mundo. Desta vez realizado em um espaço cultural, falou-se muito mais de comportamento do que referências para a próxima coleção. O Guia Jeanswear conversou com a consultora de moda Luciana Parisi para entender essa mudança que pode ser dura e difícil para os mais tradicionais, mas necessária e, a importância de não mais realizar cópias, mas sim manter uma identidade própria. Confira.

Guia Jeanswear – Por que resolveram investir neste novo formato?


Luciana Parisi – São 20 anos de entrega de informação respeitando os mesmos moldes, é claro que de tempos em tempos existem assuntos que ganham maior relevância e são contemplados nas diferentes estações, mas o formato de entrega de informação – conteúdo de moda – vem se mantendo há pelo menos duas décadas, e conversando com o público, com colaboradores, fazendo pesquisas, a contabilidade, na verdade o evento vinha perdendo público consistentemente a cada edição. Por isso, fizemos uma pesquisa efetiva, de campo, com colaboradores para entender o que estava acontecendo e, a conclusão é que o evento estava desalinhado com as necessidades do mercado, começando a ficar antiquado, precisava de renovação de formato, de data. Aí decidiu-se pela formação de um coletivo que faria o papel de editor que antes ficava na mão de uma pessoa só, reunindo profissionais de diversas áreas que foram dando suas ideias e sugestões do que eles enxergam do momento atual da moda, do mercado e, o que deveria ser oferecido para ajudar a fazer essa transição. Desse coletivo, apoiado por uma empresa especializada em desing thinking com a validação do Senac surgiu esse projeto de transição, um projeto experimental.


Hoje a gente está numa era de incertezas, nada está consolidado, tudo está em mudança e o público novo que está no mercado de consumo, não fala mais aquela língua que a gente até então falava, é outro idioma, só que quem frequenta o evento ainda fala a língua antiga. Então esse choque é natural que aconteça num evento de transição, que é essa edição, que eu chamo de histórica, porque você ainda não tem o produtor conectado com a cabeça do novo consumidor. Esse produtor está apegado a modelos antigos, ele reluta, ele resiste, porque é a sua área de conforto, é o familiar, é o que ele sabe fazer, só que ele mesmo está percebendo que o resultado está pior. Quantas empresas fecharam nos últimos 18 meses? Quantas fábricas deixaram de existir? Então a gente está destruindo a cadeia têxtil no mercado nacional por teimosia, por não querer enxergar que os tempos são outros, que as necessidades são outras. Esse grito que a gente vai ouvir sobre esse evento, é um grito de dor, de quem está perdendo uma coisa conhecida, familiar, que eu tenho apego, igual uma roupa querida, que a gente ama, mas não nos serve mais ou o tecido não dá mais e, a gente sofre pra dar aquela abençoada roupa, mas porque não dá mais, e a despedida do formato antigo tem esse sentimento, quase que de luto, de despedida, sofrido, mas necessário porque se esse corpo não cabe mais nessa roupa, é porque esse corpo expandiu, esse corpo tomou outras dimensões e ele precisa de outra indumentária e essa nova indumentária não está pronta, ela está sendo confeccionada.


Essa edição foi um convite para o nosso público tão fiel, para fazer essa reflexão, para repensar os rumos que se quer dar para suas empresas, o rumo que se quer dar para o futuro do planeta, para o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos, entregando de fato, um trabalho com muito mais profundidade, com muito mais conexão, com a realidade atual. Também houve aquela ruptura do paternalismo, do palco e do professor falando. Tivemos pessoas mais próximas, reais, que você pode pegar, conversar, mas isso é muito novo, impactou muito, demora um pouco pra ser absorvido.

Guia Jeanswear – O que o público pede? O que querem nestes novos tempos?


Luciana Parisi – Como a gente está vivendo um período de muita incerteza, de questionamento, de mudança, o principal desafio do evento foi entender o que o público quer, porque ele não consegue ser claro. Ele não consegue dizer. Aí a gente pergunta: “Mas se a coleção não agradou o que o teu cliente pediu? A resposta é sempre essa: “Ah, novidade, mas o que é a novidade? São conceitos muito amplos, abstratos, que de ordem prática não ajudam em nada as decisões de quem tem que mudar alguma coisa, mas alguns sinais foram apontados, por exemplo, o time da entrega da informação como: “vocês estão atrasados porque quando confirmam o verão eu já estou antecipando a informação de inverno para minha coleção de verão, então já tinha que estar falando de inverno, aí se não fala sobre o verão, o público pergunta, cade o verão? Mas vocês não queriam o inverno?”, então é muito difícil porque as pessoas não estão empenhadas em fazer a sua lição de casa, que é voltar pra dentro de si, no caso pra dentro da empresa, fazer uma reflexão sobre os rumos que a empresa está tomando, onde eu quero chegar…se aqui não está dando certo, se eu estou começando a ter prejuízo, se estou diminuindo de tamanho, que medidas eu tenho que tomar? Tenho que ajustar o tamanho da empresa? Tenho que rever o posicionamento de mercado? Tenho que sair da concorrência gigantesca do fast fashion e encontrar uma identidade? O que eu tenho que fazer?

GJ -Qual foi o objetivo dessa edição?


LP – O objetivo principal dessa edição foi instigar o público a fazer essa reflexão profunda sobre os rumos que cada empresa quer para os próximos anos. Uma única coisa a gente tem certeza, não é repetindo esse modelo que até então vinha sendo oferecido. É normal, vai acontecer esse debate, haver essa discussão toda “eu gastei dinheiro, eu investi, vim aqui pra pegar a receita de bolo e vocês não me deram?”.

GJ -Quais são os projetos e novidades para esse ano?


LP – Tudo a gente fala atualmente em curtíssimo prazo, então para 2017, teremos edição1 e edição2, a próxima acontece em outubro para falar de Verão 18/19 confirmadas nas passarelas. Tradicionalmente o Senac que acontecia em fevereiro, com a confirmação de varejo Verão e agosto era pra fazer confirmação de varejo inverno. Este ano a gente atrasou a data em relação ao que seria o Verão mas o assunto já foi o Inverno 18 e em outubro já vai antecipar o Verão. Mas o Senac não quer mais colar esse rótulo de estações. Vamos disponibilizar ainda outros conteúdos na área exclusiva, nos intervalos entre um evento e outro. Iremos trabalhar algum assunto que despertou maior interesse e convidar outro profissional para falar um pouco mais sobre aquilo, entregando mais conteúdos específicos ao longo do ano.

<strongGJ – Como você define o segmento de moda atualmente?


LP – Tudo está em transformação, não temos fórmula e não sei se haverá ainda uma nova fórmula no contexto global…a gente monitora, estuda e pesquisa pra entender que caminhos a moda vai tomando, a gente viu nas palestras apresentadas no evento, que não falaram em tendência, que tudo está ligado, como tudo está reforçando aquilo que a gente disse em relação ao mercado de moda especificamente. Então com essa polarização de mercado de varejo baseado nos gigantes de fast fashion surge também uma polarização de start ups que começam a propor um novo futuro, uma nova forma de pensar e fazer e vender a moda. Só que isso está começando, que caminho isso vai seguir, a gente não sabe. Ninguém sabe se volta-se a falar de temas, See now buy now vai emplacar, slow fashion, os desfiles de moda, questionam internacionalmente qual o papel das semanas de moda atualmente, porque com o crescimento da tecnologia você não vai precisar nem de modelos físicas, elas vão vender a licença de imagem e quem vai desfilar é um avatar, mas isso não é daqui 20 anos, isso é agora. Então isso para o público tradicional do Senac foi uma pancada no meio da cabeça, tem gente que saiu daqui nocauteado, não entendendo nada.


Queremos fazer a mentalidade expandir para selecionar aquilo que se encaixa e contar a sua própria história. Essas pessoas não estão preparadas para pensar, então quando chegam aqui e são desafiadas a pensar, dá um curto-circuito, dá pane e saem revoltadas, falando mal, que foi péssimo. Um exemplo é que muita gente pediu os manequins com as roupas. Esse foi um evento “desruptivo”. A gente não está entregando aquilo pronto pra cópia. Esse debate foi feito por muitos anos pelo Senac que é uma instituição de ensino que forma profissionais de criação, profissionais que vão propor novas soluções, que vão criar. Como é que na escola eu ensino isso e no Senac Moda Informação eu ensino a copiar? É uma incoerência, então para quem realmente funciona na base da cópia provavelmente vai deixar de frequentar ou funcionava a base da cópia mas resolveu pensar diferente e vem aprender mais com a gente.

GJ – Qual o papel da sustentabilidade?


LP – Se falou tanto de sustentabilidade o evento todo. Sustentabilidade não é mais diferencial, é obrigação, então tudo isso que as pessoas estão achando que é futuro, já é mais do que presente, e é mera obrigação. A sustentabilidade não deve ser assunto de marketing, deve ser DNA da sua marca, compromisso com o público. Só que a empresa ou ou empresário que veio aqui cobrar, exigir a cópia, ele nao está preparado para essa nova onda, então, ou ele vai continuar poluindo o meio ambiente ou ele vai sumir, ou ainda vai se transformar e alçar vôos mais altos.

GJ – Fale sobre a Galeria de Sensações montada no evento.


LP – A ideia partiu da necessidade de entregar para o cliente tradicional do evento alguma coisa do próximo verão, a temática da “Galeria de Sensações” é toda do verão – as principais estampas, cartela de cores, tecidos, etc. Essa altura do campeonato não faz mais sentido uma cartela de 40 tons porque já se filtrou, a gente já está começando o inverno, então apresentamos uma cartela de 12 cores certeiras, 10 temas de estamparia, de apostas, tecidos essenciais, subsidio para quem viesse, conseguisse vivenciar uma experiencia sensorial, para sensibilizar, para inspirar, para ajudar esse cliente que é muito espartano, começar a sair da caixinha, pensar fora da caixa, mas isso não é todo mundo que consegue.


O objetivo da “Galeria de Sensações” foi interagir com a informação de tal forma que aquilo fosse introjetado através de outros sentidos que não só a audição e a visão e, que aquelas sensações todas permeassem você, te inspirassem e que dentro de você emergisse alguma coisa além do que está sendo mostrado. Tudo num nível muito mais intelectual, e isso acaba incomodando quem não está habituado a fazer esse exercício de reflexão ou de pesquisa, de busca, de investimento no design, que é o que a gente está pregando. <strong<Sem design não há futuro, o desing é tudo, design é esse sentir, esse pensar, esse se conectar, transformar em realidade uma ideia, uma sensação, um desejo, um produto que corresponda a tudo isso, é super complexo, não é para amador. A gente sente muito se deixou pessoas a pé, mas esse grito, é um grito de alerta para um futuro que é amanhã.