Manoel Pizarro analisa cenário das lavanderias em nível nacional e mundial

Só quem vivencia um contexto ou uma problemática, o entende por completo. Isto é uma realidade. Mas também é verdade o ditado que aponta que muitas vezes quem vê o problema de fora, vê melhor, já que o interpreta de forma menos tendenciosa.

A caminho da Kingpins, a CEO do Guia Jeans Wear, Iolanda Wutzl, foi ao encontro do grande ícone em lavanderia Manuel Pizarro, fundador e CEO da Pizarro. Desta vez, o objetivo não foi traçar sua trajetória, como em sua última entrevista ao site. Mas sim, aproveitar o recente entrosamento desse expert com o contexto do nosso país, proporcionado pelas recentes parcerias da Pizarro com as nacionais Tecnoblu e Capricórnio, para ouvir um feedback sobre o cenário denim brasileiro e mundial.

CEO do Guia Jeans Wear, Iolanda Wutzl, ao lado de Manuel Pizarro, da lavanderia Pizarro

Com 28 anos de tradição no mercado, a gigante das lavanderias recentemente se uniu à Capricórnio e Tecnoblu e, segundo as palavras do próprio Manuel, não foi para “brincar” de inventar receitas. Mas para criar um polo e mudar a tão enraizada cultura da cópia que ainda prevalece em nosso país, através do desenvolvimento de coleções contínuas contextualizadas com a realidade das lavanderias brasileiras.  “Não adianta nada inventar peças lindas e depois não conseguir fazê-las, copiar não é o caminho”, explica.

Além dos entraves para concretizar uma ideia “importada”, o CEO da Pizarro também alerta que a mera reprodução das tendências desvia de uma das estratégias mais importantes para o mercado atual, a de planejar coleções que de fato atendam ao mercado.

“A coleção que deve ser desenvolvida é aquela que o mercado de investimentos pede. Não adianta criar de forma megalomaníaca sem conhecer e considerar o contexto para o qual se vende”, alerta. Como exemplo citou o mercado da Europa e da Kingpins, onde a demanda pede por peças limpas, bem feitas, transparecendo muito capricho e carinho no aspecto. De acordo com Manuel Pizarro, este é um resultado que passa por escolhas estratégicas em parceria com tecelagens.

Outro ponto importante sublinhado pelo visionário dos acabamentos foi o conceito de “hospital” de roupas. “A Europa está com os estoques de vestuário lotados e a recuperação destas peças é uma atitude em alta, por isto criamos cadernos de encartes para a feira Kingpins, ensinando como fazer isso”, explica. “É um mercado totalmente diferente do Brasil, onde se tem 200 milhões ou mais de pessoas para consumir”, compara.

Ainda de acordo com Manuel, tudo o que é levado para a Kingpins é sustentável e 100% ecológico. E é nesse ponto, de acordo com o CEO,  que temos uma demanda mundial. “Quando falamos em sustentabilidade, é preciso entender que ela não começa por formalidade ou obrigação, mas sim por paixão”, explica. “As pessoas acham que sustentabilidade implica em sair correndo e comprando máquinas, mas não é isso – ela começa  com a reestruturação do que já existe no chão de fábrica”, completou.

Pela visão do expert, este seria o primeiro ponto a se resolver, seguido pelo cumprimento dos documentos obrigatórios e pela criação contínua de ferramentas internas fundamentadas no que se tem dentro da fábrica: energia, pessoas, e equipes. “Neste ponto o Brasil ainda não está preparado”, acredita Pizarro.

Exemplificando, cita a questão do ozônio: “Não é qualquer tipo de gás que se põe na máquina e no gerador pois para ser sustentável, o ozônio tem que ser neutralizado na máquina”, avisa. “Se situações semelhantes ocorressem aqui, na Europa, certamente todas as peças decorrentes de máquinas que não cumprem essa exigência estariam inutilizadas e os envolvidos punidos”.

De acordo com Manuel Pizarro, aplicar o ozônio sem critério pode levar o funcionário que trabalha e respira todo o aroma do ambiente deste erro, inevitavelmente, ao câncer. Um desfecho, que não corresponde ao conceito real de produção ecológica. Para que a sustentabilidade em seu sentido mais honesto de fato ocorra, o primeiro tópico a ser resolvido, segundo Pizarro, é o consumo de água.

“Nós (da Pizarro) não consumimos a água que usamos, ela é 100% reutilizada de forma cíclica”, afirmou Manuel, apontando como o resultado foi obtido através da criação contínua de caminhos e logísticas favoráveis e sustentáveis. “A lavanderia da Itália faliu porque o custo produtivo se tornou muito alto e eles não estavam preparados”, exemplificou.

Apontando uma das estratégias adotadas pela Pizarro que culminaram na redução desses custos, além da água, o expert citou a localização geográfica. “Nós estamos a duas horas e meia da Inditex, maior grupo de moda do mundo, e este foi o resultado de um trabalho de melhorias contínuas, feito ao longo dos anos”, compartilha.

“Hoje trabalhamos com praticamente todo o jeans da Inditex e,nas demais peças para parte superior do look, atendemos de tudo, desde marcas como Balenciaga, Gucci, Dolce & Gabanna até Diesel e Replay”, contou. “Temos também presença em Amsterdam, e nos próximos cinco anos queremos ter 30% das roupas sob a tutela do Pizarro Wiser, hoje sob o comando de Vasco Pizarro”.

Voltando-se ao cenário das lavanderias no Brasil, Manuel citou a tinturaria como um dos pontos mais problemáticos do setor em solo nacional, sendo o processo obrigatório para a existência e sobrevivência das mesmas. “Na Pizarro, estamos sempre complementando essa atividade.Hoje tingimos 14 toneladas por dia com 5 pessoas por turno”, disse o CEO, descrevendo os processos atualmente usados.

Manuel Pizarro conta que desde 1993 tudo é automatizado no setor de tingimentos da Pizarro e o trabalhador não tem contato com nenhuma substância, seja ela líquida, sólida ou química. “Ninguém pega em caneca, não tem contato com nada, pois sem essa automatização o valor acrescentado na peça seria tão alto, que comprometeria um mês todo de faturamento. Então, quando tingimos 300 camisas por vez, não existe diferença entre as peças”, explica. “Temos um ranking de praticamente zero de defeitos, e uma comunicação e senso de equipe muito melhor dessa forma”.

Mas, afinal, qual é de fato a responsabilidade e, por consequência, o valor das lavanderias para a indústria do jeans? Para Manuel, referência no setor, é mais do que 51% do negócio todo da cadeia. “Por mais que se faça um design e um id fantástico, se o resultado não chega na cor e no aspecto certo, a criação não alcança o sucesso”, alerta. “No Brasil, a lavandeira é o ‘primo pobre’ da indústria e não deveria ser assim. Deveria ser o contrário”, explica.

A inversão desse contexto, segundo o expert, é parte de uma mudança na própria cultura das marcas. “No Brasil, elas terão que montar suas próprias lavanderias para sobreviver”, explica. Já as lavanderias, terão que trabalhar e investir em sustentabilidade e no controle de suas equipes.

“É preciso ter em mente que, antes de investir em máquinas, é necessário investir nos recursos humanos e materiais que já existem e pensar no que se quer fazer, para então estruturar equipe e pessoas”, orienta.

No entanto, se a lavanderia tem muito chão pela frente, as tecelagens são um ponto positivo. “O argumento de que os tecidos não prestam não serve, pois o Brasil tem condições de fazer muitas coleções com tecelagens, temos o exemplo dos produtos da Capricórnio”, cita Pizarro.

O Brasil tem que valorizar o que tem, as boas empresas, bons funcionários, e entender que não adianta simplesmente jogar tudo numa máquina, como algumas empresas atuam, sem cuidado com a costura ou sem regular direito o ozônio, e depois colocar a culpa no tecido”, alerta. “Tem que ter critérios e um líder de equipe sensato, com jogo de cintura e valorizando todo o grupo”, aconselha.

Orientando os caminhos mais prósperos a se trilhar, destacou o valor da paixão pelo ofício, aliada à formação, profissionalismo e compromisso. “O Brasil tem muito a fazer, e a culpa desse contexto é da mentalidade de copiar, que precisa mudar […] Lavanderia não pode ser preço, tem que ser um valor“.

Fonte: Vivian David e Iolanda Wutzl | Fotos: Equipe Guia JeansWear