Menos algodão, menos roupa

O especialista em denim e antigo diretor criativo da marca britânica All Saints, Richard Atkins, face à recente escalada dos preços do algodão, condena o fim da roupa barata. Para ele, os empresários com o modelo de negócio com base nos custos baixos de produção terão que sofrer alterações e dar uma pausa nas expansões, afinal, as roupas de preços menores parecem estar com os dias contados.

Os trabalhadores de cidades chinesas como Xintang já não se sentem felizes ao trabalhar longas horas por salários miseráveis, o que levará que as marcas de vestuário que aproveitavam deste tipo de situação, tenham que repensar em novas estratégias. “Estas indústrias devem mesmo ficar preocupadas, pois o fenômeno da roupa barata está morto. Durante décadas quiseram mais e pagaram menos, assentaram este sistema na China e agora vão sofrer com as alterações socioeconômicas do país mais populoso do mundo”, afirma Atkins.

Trabalhadores que anteriormente ficavam satisfeitos com um salário de 40 euros por mês, querem agora cerca de 10 a 15 vezes esse valor. Além disso, estão migrando para o interior da Chinapara trabalhar em obras de construção e públicas, em quais podem ganhar a mesma quantia, mas ainda estar junto da família e usufruir de um custo de vida menor.

Já existem fábricas que encerram seus trabalhos por falta de mão-de-obra e muitos empresários queixam-se que as novas leis do trabalho protegem demasiadamente os operários, e que o governo não auxilia o desenvolvimento da indústria.


O aumento das matérias-primas é outro fator que está pressionando fortemente os custos de produção de vestuário. O preço do algodão atingiu valores nunca vistos antes, fazendo com que a produção de artigos como os jeans tenha ficado muito mais cara. As más condições climáticas nos principais países produtores, as restrições impostas pela Índia e o aumento da procura transformaram esta matéria-prima barata em um bem escasso e quase intolerável.

“Em julho do ano passado, uma onça de algodão custava 70 cents. Na semana passada o valor era três vezes superior. Tentei colocar uma encomenda junto de um fabricante de denim para um milhão de jardas e disseram que não a podiam aceitar porque o algodão já valia mais que o tecido acabado”, exemplifica o especialista britânico.


Alguns designers já começaram a acrescentar poliéster aos seus jeans, a fim de utilizarem menos algodão e, assim, baixarem os custos.

PORTUGAL TÊXTIL | FOTO: REPRODUÇÃO