Mercado de roupas usadas apresenta índices em ascensão

O mercado de revendas está em fase de evolução. E por revendas, entende-se o comércio de compra e venda de roupas usadas com qualidade e curadoria superior. Dos grandes varejistas aos pequenos revendedores, dos novos investidores às grandes companhias de acionistas: todos parecem estar discutindo sobre esse tópico. É o que indica a pesquisa ThredUP, que analisa dados e informações coletadas pela empresa de análise de dados GlobalData, baseada em uma amostra de 2 mil mulheres de 18 anos em janeiro de 2019.

Como todas as movimentações importantes e disrupções de categorias, a pesquisa sinaliza que a adoção da maioria tende a acontecer ao longo do tempo. As mudanças que estão por vir no mercado de roupas de segunda mão, encontram-se apenas em sua fase inicial.

A moda circular e o comércio de roupas usadas deverá dobrar o seu faturamento em apenas cinco anos, ultrapassando a fatia reservada ao varejo de roupas novas. Somente nos últimos quatro anos, esse mercado, em específico cresceu 21 vezes mais rápido do que o convencional. Nos sites que comercializam roupas usadas, como ThredUp, que revende de Gap a Gucci, The Real Real, com foco em designers e moda e luxo, ou Poshmark, com foco no comércio social, novatos na prática, com perfis comuns, são recebidos aos batalhões.

Não por acaso, as gerações mais novas estão liderando esse movimento, com os Millenials e Gen Z adotando a prática de comprar de segunda mão 2,5 vezes mais rápido do que as gerações mais velhas.

Muito embora todas as faixas etárias estejam migrando para esse novo hábito, são os consumidores mais novos que apresentam maior desprendimento em adotar tal prática. Enquanto 20% dos consumidores da Gen X (38 a 55 anos) mantém o hábito de comprar roupas usadas, nos Millenials (25 a 37 anos) esse percentual é de 33%. Já no perfil Gen Z, o índice é de apenas 16%.

Porém, é no crescimento sinalizado pelos últimos anos que a mudança dessas práticas de consumo melhor se desenham. Na Gen X, a prática de comprar roupas usadas aumentou em 18% de 2017 para 2019, enquanto entre os Millenials e a Gen Z o mesmo hábito ascendeu em 37% e 46%, respectivamente.

Vale destacar que as inovações tecnológicas têm impulsionado o novo hábito. Entre elas, ferramentas que facilitam a venda em casa, atraindo milhões de participantes para o mercado das revendas pela primeira vez. Além disso, há também o uso de algoritmos sofisticados, capazes de atribuir valores em escala, baseados em históricos de pontuações que determinam o que funciona e o que não funciona na rede.

A automação massiva de volumes, descrições e fotografias também tem contribuído para tornar mais ágil o comércio de roupas usadas. E, por fim, temos a variável dos dispositivos móveis e aplicativos tornando a compra de roupas de segunda mão mais fácil do que a aquisição de modelos novos.

O cliente de roupas de segunda mão não é mais um cliente qualquer, mas sim o de todos os mercados. Em 2016, a fatia de consumidores com 18 anos aberto a comprar peças de segunda mão era de 45%. O percentual aumentou para 52% em 2017 e alcançou 64% no ano passado.

Com isto, é possível deduzir que: se as pessoas conseguem achar um produto de alta qualidade por muito menos,  seja ele parte do consumo de massa ou de luxo, elas devem escolher o usado. A linha divisória entre os produtos novos e de segunda mão está se tornando cada vez mais difusa, anunciando que uma poderosa transformação no varejo está para se revelar.

Duas grandes demandas do Instagram impulsionam estas mudanças: a necessidade de ser visto constantemente com novos estilos, imposta pelas redes sociais, e o bom tom do consumo consciente, ligado ao ideal de sustentabilidade. A última delas, de acordo com a pesquisa da Global Data, deixa de ser excentricidade para se tornar prioridade. De 2013 para 2018, o número de consumidores que realizava uma compra influenciado pela ética e fator eco-friendly aumentou de 57 para 72% .

Neste novo cenário, onde as roupas vão girar mais e criar mais receitas, as revendas vão potencializar a rotatividade do vestuário em detrimento do acúmulo e do estoque. O closet do consumidor já se mostra alterado por tais previsões, tornando-se cada vez mais enxuto em termos de quantidade, partindo de uma média de 164 itens em 2017 para 136 em 2019. O hábito tende a resolver o problema do desperdício e tende a estimular uma espécie de paraíso para os caçadores de barganhas.

Na moda, as mudanças dos modelos no closet do consumidor serão movidas pelo desejo por sustentabilidade, variedade e acessibilidade nos custos. O que desenha um cenário onde 51% dos consumidores demonstra intenção de investir suas compras em roupas de segunda mão. Sendo assim, o consumidor já compra uma roupa com um olhar pensando na revenda e inclui na balança custo-beneficio a projeção de um ganho futuro com a transferência da propriedade da roupa adquirida.

Da mesma forma, os criadores já estão concebendo as roupas pensando em uma rentabilidade circular da mesma – do material mais durável ao estilo atemporal. As marcas com maior valor agregado tendem a representar bons investimentos para o consumidor, com retorno de ganhos por revenda garantidos não apenas pela marca, mas pelo visual e pela longevidade do estilo da mesma. Uma espécie de ranking de peças que não depreciam seu valor agregado com o uso começa a se esboçar. Nomes como Frye, Kate Spade, Burberry, Anthropologie, Patagonia, Lululemon, Hunter e Rag&Bone constam entre os dez mais cotados do mercado “gringo”.

De todo esse cenário, prevê-se que o setor de vestuário precisa encontrar caminhos para aderir, adquirir e partilhar ganhos com o negócio das revendas, pois a adoção do consumidor tende a continuar e crescer. O consumidor do futuro irá buscar formas de reciclar e reduzir seu consumo, sem perder qualidade e variedade, além de ser movido pelo valor agregado do mercado de segunda mão.

A grande oportunidade está em partilhar os ganhos deste mercado, apoiando e viabilizando a circularidade que, além de representar uma solução para a geração de descartes, também responde à uma demanda real e assertiva que urge, de um mercado em visível fase de transformação.

Fonte: Vivian David | Foto: Reprodução