Moda circular está mudando manufatura e aplicação dos aviamentos

Novas formas de tingir o fio, novos percentuais na composição, novas formas de pensar a produção. Quem diria que o mercado da moda, tão ligado ao visual, se voltaria tanto o valor invisível dos caminhos que precedem a estética. Mas, até aqui, temos falado muito de tecidos e lavagens. No entanto, o esforço e a criatividade em prol de uma moda circular também está ganhando força naqueles detalhes que fazem toda a diferença no jeans: os aviamentos.

A fornecedora de fechos YKK, por exemplo, recentemente incluiu materiais sustentáveis em seu mix. A variedade de produtos incluiu o Natulon, um material feito a partir da reciclagem de garrafas pet como base para a limpeza do zíper, o qual também é manufaturado com menos energia, e inclui misturas com tencel e algodão orgânico.

Além da reciclagem nos próprios produtos a companhia tem pensado também em facilitar o reaproveitamento das roupas pós-uso, lançando aviamentos que se caracterizam por uma remoção mais simples. Uma das opções recentemente incluídas no seu mix, são os botões com aderência de parafuso que podem ser facilmente retirados do tecido durante o processo de reciclagem. Um forte indício de que a técnica upcycling será mantida como um ideal na industria forçando inclusive novos modos de pensar para os metais do jeans.

Materiais reciclados também estão em foco nas empresas que produzem etiquetas para o jeans. Turteks Etiket, por exemplo, lançou uma gama de etiquetas ecológicas para a vista traseira do jeans tingida com pigmentos à base de água procedentes do descarte da sua própria produção em Jacron (papel com visual de couro), além de versões que usam o próprio couro reciclado e juta como base para o patche.

Contudo, a ousadia maior talvez tenha vindo da fornecedora de aviamentos Medike Landes, que  além de apresentar uma lista de materiais sustentáveis e alternativos como cortiça, couro reciclado, Jacron, e  couro falso trouxe a tona um mix feito de resíduos de frutas descartadas.

O mais recente é o Apple Skin, que aproveita tanto a polpa quanto a casca da maçã para manufatura de uma variedade de etiqueta 100% vegana. A transformação do material, de acordo com a companhia, usa o resíduo mecanicamente transformado em um pó, que é misturado com pigmentos coloridos e depois aplicado a materiais de sustentação como poliéster, algodão ou viscose. Além deste diferencial, o artigo tem o percentual de gás emitido reduzido em até 25%, e pode ser gravado com diferentes texturas granuladas e produzido em espessuras variadas.

Concomitante a este lançamento, o material Piñatex,também da Medike Landes, tem ganho notoriedade por aproveitar o abacaxi rejeitado dos fazendeiros das Filipinas. A transformação do material, envolve o processamento para extração das fibras da fruta e criação de um substrato não tecido, que é combinado a 10% de um polímero termoplástico biodegradável de couro artificial, incluindo na composição com o objetivo de proteger o material durante a lavagem doméstica, resultando em um material 90% compostável.

O Brasil também tem suas misturas com frutas: recentemente divulgamos o mix da Soeiro com milho incluído nos materiais. Em termos de redução de substâncias perigosas, temos a Eberle que tem sinalizado em seu mix a linha livre de metais pesados.

O próximo passo é pensar também na longevidade dos materiais, remoção e trajetória pós-retirada do tecido destes aviamentos. Coleta e reaproveitamento de botões, nova vida para fechos, disso ainda não se tem noticia na cadeia. Porém, somos otimistas, em pensar que as próximas estações haverão de mostrar qual será este caminho.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução