Moda circular: jeans usado x jeans novo

Em um futuro muito próximo, o valor imaterial não estará mais tão ligado ao novo e as marcas de moda, provavelmente, terão que concorrer com seus próprios modelos de segunda mão. Uma calça jeans, em sua réplica usada, seria sua maior adversária comercial. Tal cenário está longe de parecer ficção e é bem mais possível do que se imagina, de acordo com relatórios divulgados recentemente pela GlobalData, empresa especializada em análise de varejo.

Segundo a companhia, o mercado de compra e venda de roupas usadas promete crescer e, em alguns anos, se sobrepor como escolha de moda mais relevante em contrapartida aos grandes varejistas e fabricantes.

A afirmação veio acompanhada pelo expressivo quadro comparativo, revelando que o mercado de vestuário americano de segunda mão representou em valores apenas 31,4% menos do que fast-fashion no ano de 2018, contabilizado em U$ 35 bilhões. Um número que tende a inverter-se até 2028, com uma diferença de U$ 20 bilhões a mais para as roupas usadas.

No Brasil, esta tendência internacional é bastante tangível por conta do aumento dos brechós modernos com visual de boutique, elevando as receitas desse tipo de negócio. Temos, por exemplo, o Vintage Boutique Brechó, que permite que um consumidor adquira a R$ 400,00 uma peça de marca que não custaria menos do que R$ 5.000 se fosse nova. Já no sul, há o famoso Me Gusta Brechó, que trabalha com a metodologia dos negócios em consignação e zela pelo seu status pela curadoria e cuidado no reconhecimento de falsificações.

Quando o assunto adentra o mercado jeanswear, a reflexão se torna ainda maior. Seria essa tendência de mercado uma instabilidade, ou uma oportunidade? Em um segmento aonde o upcycle vem influenciando ciclicamente a estética das coleções, os fabricantes podem enxergar nessa reviravolta um problema ou uma solução.

Todo bom brechó que se preze tem uma área dedicada exclusivamente ao denim. Os brechós podem realizar concorrência com as marcas, mas tornam-se também fornecedores para os fabricantes que adotam a prática no seu próprio DNA. Vide a trajetória de grifes eco-friendly como Think Blue e MIG Jeans.

As marcam também podem vislumbrar este novo cenário como inspiração para a gestão circular dos seus próprios negócios. Portanto, temos como exemplo as marcas que recolhem seus próprios modelos usados para aproveitá-los como matéria-prima para novas criações.

Ilustrando tais práticas no mercado internacional, é possível identificar a estratégia de arrendamento “lease a jeans”, usada pela MUD Jeans desde 2013. A logística permite que a marca aceite pequenas encomendas e nunca precise recorrer às liquidações ao longo das suas 260 lojas distribuídas em 27 países.

Ou ainda a gaúcha 3Jeans, empresa pequena já concebida em formato de negócios circular, onde além do sistema de venda a loja virtual, também disponibiliza canais de re-compra do próprio modelo usado para upcycling. Uma mesma peça pode arrecadar receita em até três vidas diferentes.

Todo cenário de mudança traz também uma oportunidade de evolução. Se as roupas usadas no futuro vão competir com as novas, as grifes que já estão se antecipando e fechando seus ciclos produtivos no sentido de acompanhar suas produções até o fim – incluindo a etapa do desuso – de acordo com esse cenário, não estão praticando apenas a sustentabilidade no agora. Com este quadro, estão garantindo sua fatia de mercado para o amanhã.

Em um cenário onde o jeans encontra em sua réplica usada, seu maior concorrente, o que sua marca faria?

Fonte: Vivian David | Foto: Reprodução