Riusley Figueiredo conta a sua trajetória no universo jeanswear

O universo da moda é repleto de encantos que nos prendem. Quando a paixão vem de berço, o sentimento é ainda mais avassalador. Foi dessa forma que começou a relação de amor do estilista Riusley Figueiredo, nosso entrevistado. Repleta de nostalgia e uma intensidade característica do próprio, a entrevista conta a trajetória desse profissional, que encontrou no jeans a sua fonte de inspiração diária. Confira:

Guia JeansWear: Como começou sua carreira na moda?
Riusley Figueiredo: Eu sou filho de costureira! Minha mãe contava de como era costurar para famílias, onde ela saia com uma máquina de mão e costurava por dia na casa das famílias. Fato que nasci nesse ambiente, brincava com os novelos de linha, fitas e tesouras…
Contudo, em 1992 fui trabalhar em uma confecção de jeans como auxiliar de costura e acabamento e…me apaixonei! Em 1996 já estava fazendo a minha primeira coleção!

GJ: Como iniciou sua paixão pelo denim?
Riusley Figueiredo: Me apaixonei pelo denim quando fui trabalhar de auxiliar e fazer acabamento e minhas mãos ficavam azuis, eu fiquei fascinado com aquilo (risos). Ali, eu queria descobrir o porquê que meus dedos ficarem azuis.

GJ: Qual sua trajetória neste universo azul?
Riusley Figueiredo: No universo azul eu experimentei de tudo! Comecei por partes de baixo como: calças, bermudas, shorts…como tinha uma grande cartela de clientes no tecido plano, comecei a colocar em coleções a alfaiataria de tecido plano em jeans, no início com uma certa dificuldade, uma vez que no denim antigamente não tinha muito tecido leve.

GJ: Quais as maiores dificuldades?
Riusley Figueiredo: Como citei na pergunta de cima, dificuldade antigamente era de investimento, afinal o denim se resumia em calça (risos); bem retas, resistentes e de um só tom escuro tipo carbono. As tecelagens não investiam tanto como hoje! Não tínhamos tanta ajuda e nem muito incentivo, até por que tudo era mais difícil chegar no quesito de informações. O que hoje é fácil e aberto pelas redes, e de certa forma é perfeito pra o cliente e não muito interessante pra quem pesquisa, afinal, estilista não é tão valorizado como antes. Antes ter um design era moeda de luxo! Hoje não se quer estilistas pois todos acham fácil “criar”, e todos querem se tornar um estilista sem querer de verdade colocar a mão na massa. As soluções que criei…eu usei o desenho a mão livre ao meu favor, trabalhar um croqui impecável, colorido, sombreado, pra fazer o cliente impactar com a apresentação. Depois criar os bordados a mão, colocando pontos diferentes e deixar cada peça com seu filigrana (a calça por mais básica tinha seu bordado criado e não um vetor); outra coisa foi conhecer de bases, pra poder indicar o tecido certo para o modelo específico!

GJ: Quais os principais aspectos do segmento denim atualmente?

Riusley Figueiredo: Uma pergunta incrível, que pode ser respondida da maneira que analisarmos o mercado de multi formas, isso nos quesitos: geral, industrial ou comportamental! Vemos varias vertentes. A maioria das pessoas que investem no Denim não é pra uma marca que irá se posicionar no mercado com um produto inovador, fato que ter inovação e diferença, numa base simples e universal não é qualquer um que pode fazer! Vejo que no geral a maioria das pessoas que querem fazer jeans, querem vender! Sobre indústrias, noto que é complicado também concorrer com marcas gringas que baixaram seus preços com maior qualidade pra atingir as classes, que dirá concorrer com China e suportar os impostos e nenhum incentivo como no Brasil! Comportamento, o cliente mudou, sabe o que quer, ou tens o produto ou ele vai buscar quem tem!

GJ: Para você, o Brasil compete de igual para igual com as grandes potências internacionais do denim?
Riusley Figueiredo: No quesito modelagem sim! Nossa modelagem é incrível! Há de convir que, em primeiro, não se vê no Brasil quando vamos escolher bases pra coleção. O confeccionista escolhe ou nos deixar escolher (estilista) uma base cara, duradoura incrível sem pensar em custos! A maioria das marcas internacionais, usam o melhor, a base mais cara, a lavanderia mais cara, a costura mais cara…. tudo mais caro! E vende caro!!! O confeccionista brasileiro quer gastar o mínimo, o jeans é o mais barato, porém tem que fazer milagre na lavanderia e ainda vender caro, um produto que na maioria das vezes não é valorizado na criação e sim na cópia! As marcas internacionais se preocupam em ter numerações e modelagens que vestem todas as tribos, estaturas e corpos! Pra que isso aconteça, o estudo de projeto de modelagem tem investimento e tempo.
A maioria das marcas brasileiras fecham venda e precisam movimentar rápido seu corte, sem muito estoque e com muita disputa de preço! Se vende mais por preço que por qualidade! Outra coisa que noto é: quando se trata do beneficiamento do jeans, as marcas gringas não economizam em processos, sendo esses definidos com base na qualidade e diferenciados a ponto de deixar essas qualidades ainda mais vistas! É a famosa troca! Tecido bom, poucas coisas a serem feitas…tecido médio, processo caro! Tecido barato o beneficiamento teria que ser o melhor!(risos). Poucas marcas entendem isso! Noto também que, no Brasil não tem ninguém se preocupando com produtos duráveis, onde poucas vezes preciso comprar (consumir) ou vou voltar para customizar, porque amo tanto a marca que não largo! Essa pegada sustentável das marcas internacionais só está acontecendo hoje porque já comprovaram na prática que incentivar e manter os seus clientes não passa apenas por simples vendas, mas sim por se fazer parte do comportamento deles! No dia a dia, no life Style! Note também pelas campanhas!! Uma campanha de moda gringa é um arsenal de investimento! No Brasil pouquíssimas marcas entendem isso! É uma modelo (não modelo); não se investe em foto, vitrine, equipe…

GJ: Quais as transformações necessárias para as mudanças do segmento?
Riusley Figueiredo: Noto que algumas coisas estão mudando! Com o fast fashion, entendemos que dá pra fazer rápido e com qualidade! É meio complicado mas dá! (risos). A maior mudança parte em primeiro do próprio governo vir com novas formas de incentivo pra toda a cadeia produtiva brasileira! Outra coisa importante é a própria indústria investir mais em seus colaboradores, desde estilo, produção e acabamento! Quando entenderem que o segmento é uma via que não tem crise, desde que seja feita com qualidade teremos e veremos melhores produtos! É interessante vermos os dados de crescimento das tecelagens e investimentos para isso. Em contra partida, vemos empresas de confecção fechando. Tem algo aí que não encaixa! Se cresce um, crescem todos, se esses todos entenderem que o universo de DENIM é um universo de várias mãos! Que sejamos conhecidos pelo o melhor produto, não o mais barato!

GJ: Como se diferenciar no mercado dentro do segmento jeanswear?
Riusley Figueiredo: Ser diferente! Criar, não copiar! Não é copiando pedacinhos de grandes marcas que teremos um produto diferente. Elas já lançaram e venderam! Entender que você pode tudo, TUDO, nessa base tão nobre, porém ela requer estudo! O Jeans é tão nobre que precisa ser estudado, não aceita qualquer coisa! Se bem que, com pouca coisa ele fica lindo! Conhecer das bases que as tecelagens lançam e dos processos que os Laundry Desing fazem, tornam esse produto imbatível! Outro grande diferencial são acabamentos, detalhes quase não percebidos, mas quando você toca a peça ou a vira do avesso e tá lá!!! Todos os detalhes…..
Invista em capital intelectual dentro de sua fábrica, seu produto tem que sair valorizado lá de dentro!
Invista em equipe de estilo! Deixando ser estilistas e não replicadores do que você (confeccionista) acha que vende!
Pague um pouco a mais pra seus costureiros e acabamentos, tenho certeza que poderá cobrar por mais qualidade. Teste os tecidos, assim você não terá surpresas depois que o corte chegar da lavanderia!
Crie seus bordados a mão, padronizar combinações de cores e metais!

GJ: Quais as suas maiores inspirações dentro desse universo?
Riusley Figueiredo: Tudo!!! Me inspiro em tudo nesse universo! Olhar flores, folhas, galhos, vitrais, cerâmicas, porcelanas e transformá-las em bordados ou lasers! Me inspiro nas peças de alfaiataria pra construir modelagens e recortes precisos. Nos corseletes onde tenho os melhores bojos e realço as mais belas cinturas! Nas chapelarias, onde posso investir em estrutura! Quem ama jeans, vê jeans em tudo!
O universo do jeans, também são pessoas. Olhe alguém com uma jaqueta, ele não quer deixar de usá-la! Verifique o comportamento e crie com direção certa! Pessoas querem produto! Tenha o produto.

GJ: Qual o futuro da moda?
Riusley Figueiredo: Uma pergunta interessante, onde cada dia mais se abre cursos na área!Moda passa (disse CHANNEL), e passa. Hoje é, amanhã não é mais! O futuro depende de onde queremos colocar! Ou se muda o jeito de criar, produzir, pensar, ou logo passa! Quando se investe em produto, a moda pode passar, porém o produto jamais deixará de ser vendido!

GJ: É possível produzir denim de qualidade, com preços competitivos?
Riusley Figueiredo: No Brasil, quase impossível! A galera tem feito milagre! Toda a cadeia precisaria estar unida pra que isso aconteça! Como ter preços competitivos se, no Brasil, não existe praticamente nada de apoio ao industriário e principalmente para o pequeno empreendedor? A grande massa dos confeccionistas são micro empresários ou informais!
O que podemos fazer sobre qualidade e preço é driblar na hora da criação, saber pedir, projetar coleção e produção e comprar com direcionamento de produto. LAVANDERIA???? E a nossa fada madrinha!!! (risos) O que seria de nós criadores, não fossem as lavadeiras?
É preciso investir nessa área com todas as forças! Uma grande tecelagem faz um belo produto. Porém, esse belo só é revelado com um perfeito beneficiamento!
Custo é perfeito! Benefício também! Por mais que as tecelagens invistam em bases com custo mais acessível, isso só irá ser demostrado em produto se o investimento em lavanderia for mais alto! É impossível tecido barato, lavanderia barata e produto perfeito! Não encaixa!!!

GJ: Sobre ser mediador do Denim Meeting Goiânia. Conte-nos um pouco como foi.
Riusley Figueiredo: Foi uma honra! Um grande presente! O evento não só veio pra mudar os polos em suas regiões específicas, mas para mudar o comportamento de toda cadeia brasileira em unir seus feitores como um todo, valorizar e qualificar esse produto Denim de maneira uniforme! É incrível um evento que tem como missão unir idealizadores e ideias para um bem comum! Onde outrora cada um competia por si só, que quer ideias e contatos que corra sozinho. O Denim Meeting coloca todos frente a frente com leveza, profissionalismo e resoluções! Incrível isso! Quanto mais se ensina, mais se aprende! Quanto mais se partilha, mais se agrega!
Unamo-nos por um só propósito!
Um jeans conhecido e usado no mundo!
O jeans se cria com várias mãos!
Vamos uni-las???

Fonte: Vanessa de Castro | Imagens: Riusley Figueiredo