Ronaldo Silvestre relembra sua trajetória em entrevista exclusiva

O mundo da moda entrou muito cedo na vida de Ronaldo Silvestre, pois sua mãe costurava para ajudar no orçamento familiar. Prosseguiu envolvido com o mundo da moda e com o segmento jeanswear, onde desde a faculdade trabalhava com o artigo. Trilhando um caminho de sucesso com uma moda autoral seguindo os conceitos do slowfashion e da sustentabilidade, também escolheu criar e colaborar em diferentes projetos sociais. Confira mais sobre o trabalho do designer nessa entrevista exclusiva para o Guia JeansWear.

Guia JeansWear: Como começou sua carreira na moda?
Ronaldo Silvestre: Sou Designer, formado pela Universidade Estadual de Londrina, especialista em Artes Visuais pelo SENAC e natural de ITABIRA (MG). Meu envolvimento com a moda começou na infância. Minha mãe ajudava no orçamento da família costurando e desde pequeno eu costumava reaproveitar retalhos de tecidos para fazer brinquedos. Através do design aprendi a olhar tudo como um projeto e não somente como uma peça de roupa específica. Atualmente eu assino coleções para minha marca homônima, apresentadas no DFB, seguindo os princípios do Slow Fashion.

Presto ainda consultoria em desenvolvimento de coleção, tendências de mercado, tendências de materiais e aviamentos, planejamento e gestão de produção. Sou presidente do Instituto Tecendo Itabira, projeto social que visa a melhoria da qualidade de vida de mulheres carentes e a qualificação de mão de obra local, com o objetivo de criar e desenvolver a identidade do artesanato na cidade.
Fui pioneiro no desenvolvimento e qualificação de projetos sociais em comunidades carentes: elaborando desde a linha de produção, o direcionamento e a viabilidade dos produtos, criando coleções de roupas e acessórios para cooperativas como a Justa Trama, Unisol Brasil, Cooperfashion, Futurarte, A Cara do Sertão, além do Instituto Tecendo Itabira.

Já recebi diversos prêmios como o ECOERA 2017/2018 – Categoria Gênero – Empoderamento Econômico Feminino e fiquei em 1º Lugar na 7ª Edição Ready To Go – Minas Trend – 2016, dentre outros.

GJW: Como você define seu trabalho?
RS: Um trabalho autoral e atemporal. Nele temos sempre a preocupação em envolver questões atuais vivenciadas pela sociedade como: o eco design, a economia criativa e a preocupação sócio-econômico-ambiental no processo de criação. Em todas as coleções, buscamos aprimorar os nossos estudos e padrões de modelagem e alfaiataria, trabalhando o redesign na desconstrução de tecidos e formas. O produto que eu desenvolvo deixou de ser fashion e alternativo para se tornar um produto mais contemporâneo, capaz de conversar com o guarda roupa de nossas clientes por décadas.

GJW: Já participou de vários desfiles e eventos como o Dragão Fashion, Casa de Criadores e Minas Trend. Nos conte sobre cada um deles e seus diferenciais?
RS: A cada evento é um novo desafio de criar uma coleção que converse com o público e clientes daquela região. O Dragão Fashion nos permite criar sem barreiras valorizando os nossos ideais de transformação social através da indústria da moda, trabalhando o artesanal aliado aos conceitos e valores da moda autoral brasileira. O maior evento de moda autoral no Brasil em que, a cada nova edição, aprimoramos as nossas técnicas de alfaiataria e resgatamos riquezas e artesanato locais, ajudando na construção da identidade do meu trabalho.

Participar em algumas edições da Casa de Criadores foi um momento no qual eu precisava entender qual era o meu foco e descobrir qual o meu papel no mundo. Levar para as passarelas de São Paulo uma coleção criada e produzida por mulheres no interior de Minas Gerais, utilizando tecidos da Horizonte Têxtil e garrafas PET para produzir flores como acessórios de cabelos e dos sapatos. Nem todos os formadores de opinião entenderam o nosso trabalho ou talvez estávamos pensando fora da caixa e um pouco a frente daquele tempo.

Mesmo produzindo em Minas Gerais tivemos algumas dificuldades em participar do Minas Trend. Somente após conquistarmos o 1º lugar no Concurso Ready To Go do Sindivest/MG surgiu a possibilidade de ter um showroom de vendas e desfilar nas passarelas mineiras. Um grande evento de moda com grandes possibilidades comerciais e de abertura de mercado para comercialização das nossas criações.

GJW: Quais as medidas que você enxerga na moda para andar lado a lado com a sustentabilidade?
RS: No meu ponto de vista, em todos os processos de produção de moda, com a chegada da indústria 4.0, devemos olhar um pouco além. Temos que resolver questões como os resíduos sólidos e a logística reversa em todos os processos. Tantos os equipamentos descartados como os resíduos precisam ter um bom direcionamento para a fase pós uso.

O nosso trabalho de transformação social através da indústria da moda aliado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável / ONU 2030, tem a função de propor a humanização nos processos de descartes, os resíduos têxteis que não servem para uma empresa serão a matéria-prima para a qualificação profissional de mulheres e para a produção de novos produtos em linhas diferentes.

GJW: Fale sobre a parceria com a Capricórnio?
RS: A Capricórnio Têxtil é uma grande apoiadora do nosso trabalho em nossas coleções e com o Instituto Tecendo Itabira. A empresa acredita e valoriza as nossas ações e projetos de desenvolvimento e qualificação de mulheres em comunidades carentes no interior de Minas Gerais.

GJW: Qual seu envolvimento com o denim?
RS: O denim está presente em meu trabalho desde a faculdade, em todos os experimentos e pesquisas. Como minha formação foi na UEL em Londrina, uma cidade com grandes facções, os resíduos de denim sempre foram uma matéria-prima abundante. Aprendemos a melhor maneira de trabalhar com os diferentes padrões, pesos, processos de lavagens e encolhimentos. Poeticamente entendemos qual a essência e a alma do denim.

GJW: Conte-nos sobre o seu trabalho para o Instituto Tecendo Itabira?
RS: Sou fundador do projeto. Trabalhei com consultoria para cooperativas e grupos sociais durante muitos anos. O grande desafio é treinar e qualificar uma equipe para trabalhar e desenvolver um produto de moda de qualidade, mesmo estando longe dos grandes centros. Trabalhamos um processo de lapidação do ser humano: ensinamos as técnicas e a forma de produção, mas principalmente trabalhando o mercado justo, em que todos os rendimentos são divididos de forma igualitária para todas as pessoas que trabalharam na produção. Hoje, se você me perguntar “o que é moda?”, eu lhe respondo que moda é um agente de transformação social e principalmente de valorização e resgate dos valores e saberes humanos.

O Instituto Tecendo Itabira é uma organização não governamental, sem fins lucrativos e fundada em 2009. Funciona como centro de convergência para o desenvolvimento social e referência cultural dos moradores de Itabira, terra natal do poeta Carlos Drummond de Andrade, cidade mineira localizada a pouco mais de 110km da Capital.

Com a missão de criar, qualificar e transferir tecnologias sociais orientadas ao desenvolvimento humano, atua no território por meio do fortalecimento da economia criativa, das redes sociais e educativas, da autonomia produtiva, do protagonismo cultural das comunidades, da valorização dos recursos naturais e da biodiversidade.

GJW: Você também realizou uma parceria com a Horizonte Têxtil?
RS: A Horizonte Têxtil foi a primeira tecelagem a apoiar o nosso trabalho, infelizmente ela encerrou suas atividades em 2016. Temos um acervo de tecidos estampados e a cada novidade, lançando com edição limitada, fazemos referência a Horizonte e a importância da tecelagem em toda nossa trajetória.

GJW: Quais os próximos projetos?
RS: Vamos participar do MICBR 2018 http://micbr.cultura.gov.br/pt/

“O Ministério da Cultura (MinC) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) promovem, entre os dias 5 e 11 de novembro, em São Paulo, a primeira edição do Mercado das Indústrias Criativas do Brasil, o MicBR, megaevento de negócios que vai reunir milhares de empreendedores dos setores cultural e criativo do Brasil e de outros países. O objetivo é impulsionar a internacionalização da produção cultural brasileira e o intercâmbio entre os países, em especial da América do Sul. O MicBR reunirá dez setores: artes cênicas (circo, dança e teatro), audiovisual, animação e jogos eletrônicos, design, música, museus e patrimônio, artes visuais, moda, editorial e gastronomia. ”

E também do BRASIL ECO FASHION WEEK – novembro 2018 https://www.befw.com.br/

GJW: Como foi quando estabeleceu sua marca “Ronaldo Silvestre”, qual o processo de planejamento da marca?
RS: Tudo aconteceu de maneira natural. Desde o meu processo de construção, o amadurecimento na maneira de pensar e em toda a e estruturação de uma coleção até aos desafios do design. Como já relatei, o fato de vivenciar a moda desde a infância, ao lado da minha e aproveitar os retalhos dos tecidos para fazer nossos brinquedos, trouxe um olhar diferenciado para a roupa, não só como uma peça, mas de maneira mais abrangente: cada roupa vista como um projeto.

GJW: Como você descreve suas criações?
RS: No decorrer da transformação da moda criativa brasileira e do mundo, mantendo-nos atentos aos movimentos da moda, começamos a pensar e a realizar a moda com um diferencial sustentável. O tema foi até mesmo o meu trabalho de conclusão da universidade, trabalhei as fases de uso das roupas, além de usar peças que se transformavam em bolsas e objetos de design. Desde então minhas criações envolvem a responsabilidade social e sustentável, eu sempre trabalho pensando o ecodesign.

GJW: A ideia de criar uma cooperativa com mulheres artesãs, surgiu a partir da sua percepção de que discutir a questão da sustentabilidade social era algo necessário na indústria da moda, ou era um desejo/necessidade pessoal?
RS: Eu acredito que todos nós temos um papel no mundo. Como cresci vendo minha mãe costurar e transformar trabalho em renda familiar, então sempre acreditei e trabalhei a moda como um processo de construção e de mudança social. Acredito que o meu papel no mundo seja trabalhar a moda como agente articulador de mudanças sociais. E é o que está sendo desenvolvido dentro de grandes marcas internacionais, como a Gucci, Stella McCartney entre muitas outras.

GJW: O fato de todas as artesãs serem mulheres, tem algo a ver com a questão da conscientização da valorização das mulheres no mercado de trabalho?
RS: Em todos os projetos que desenvolvemos nunca direcionamos somente para o público feminino, deixamos aberto para as pessoas que tem um interesse pelo trabalho no mercado de moda. Em minha trajetória já desenvolvi projetos em grupos que tinham mulheres e homens trabalhando em conjunto, isto vai muito de região para a região. Itabira é uma cidade de mineração, então o público masculino sempre foi direcionado para a área de mineração.

Fonte: Vanessa de Castro | Fotos: Divulgação