Um olhar mais atento para a embalagem das roupas

Imagine um mundinho fashion ideal, onde é possível comprar sem sentir culpa alguma, começando pela composição do produto que você adquiriu até a solução do descarte da embalagem. A moda mundial tem se esforçado para chegar nesse ideal: existem conquistas nas composições dos tecidos, nas soluções para o acabamento do jeans, no modo de fabricação, nos aviamentos e até no estilo. Mas vivemos a era da transparência, então precisamos contemplar todas as etapas da coerência exigidas pelos Millenialls: o que inclui também as embalagens.

No mercado atual, algumas marcas têm adotado embalagens de papel em substituição ao plástico.

Um exemplo bem-sucedido consta nos arquivos das marcas Reserva, e da infantil Timirim. Ambas, adotam em suas linhas embalagens especiais da fabricante de embalagens carioca Papel Semente. Atuante há 10 anos no mercado, a companhia fabrica embalagens de papel biodegradáveis, que podem ser picadas após o uso, e plantadas. Caixas de roupas, cartões e tags da companhia, podem se transformar em flores, ou hortaliças, se forem literalmente “plantados”. Uma experiência bem melhor, do que a culpa centenária produzida pelo plástico.

Nomes referenciais para a moda mundial, como a marca de jeans Everlane – cujo valor imaterial em muito se baseia na transparência, também optam pelas embalagens de papelão para realizar a comunicação com o consumidor.

Mas não há como negar que a experiência do plástico é irresistível e lúdica: a transparência sempre foi uma experiência atraente para os sentidos das pessoas, e ela construiu ao longo dos anos aquele apego aquele ao barulhinho da embalagem, que de forma mágica, nos apresenta um produto novinho e pronto para o consumo. De modo que temos um problema enorme em nossas mãos, a estima por um material indestrutível, que tem uma sobrevida poluente longa e centenária até conseguir se desintegrar na natureza. Some-se a essa questão a valorização do e-commerce, um mercado onde as embalagens das roupas tornaram-se ainda mais cruciais para a experiência de consumo.

Estimativas apontam que cerca de 8,3 bilhões de plástico virgem tenham sido produzidos mundialmente até agora. E cerca de 70% deste percentual, corresponde ao que foi simplesmente descartado em algum aterro sanitário. Uma narrativa, que não combina com os esforços atuais em sustentabilidade e moda circular.

Uma das alternativas existentes no mercado mundial, para proporcionar a mesma experiência das embalagens flexíveis transparentes em formato compostável, é desenvolvida pela fabricante TIPA. Fundada em 2010, a companhia declara que aplica uma solução semelhante à das sacolas de supermercado ecológicas. Porém, com a diferença do acréscimo de algumas resinas específicas no processo de reciclagem, para que o material resultante “quebre” menos. O resultado, de acordo com a companhia, é equivalente ao do plástico comum; porém, com uma vida poluente reduzida da casa das centenas de anos, para a das dezenas de meses.

Outra opção que tem chamado atenção no mercado é da startup mexicana Biofase. Fundada em 2012, é a primeira empresa do mercado a produzir plástico biodegradável a partir da semente do abacate. Um dos diferenciais mais convenientes para o mercado é a oferta do material pelo mesmo preço do plástico regular. O produto é mais voltado para formatos rígidos – como canudos e talheres – já que não é transparente; mas leva apenas 240 dias para se desintegrar. Um “número bonito” para agregar valor àqueles acessórios e penduricalhos caprichosos, como lacres, que as marcas que atentam para o valor imaterial costumam destacar.

Atentas a esse contexto, as feiras de tendências e tecidos mais direcionais do mundo da moda, tem incluído seções especiais em seu layout, contemplando justamente alternativas que permitam aos fabricantes incluir a etapa da embalagem dos seus produtos nos caminhos da sustentabilidade. Como exemplo, tivemos a recente edição da Munich Fabric Start, em Fevereiro, que incluiu no espaço Planet Rehab uma seção especial de Bioplásticos. Entre os destaques da área, constou o nome da empresa Tanja Maria Nitshe, que apresentou um bioplástico feito a partir do cultivo de plantas, apto ao corte a laser, e apropriado para misturas com outros materiais como papel reciclado e fibras de diversos tipos. Também a mais recente edição da Denim by Premiere Vision, que dedicou uma área às embalagens de bioplástico, no espaço SMART creation – ofertando soluções biodegradáveis ( e não recicladas) como uma tendência.

As soluções para o plástico existem: uma delas é a reciclagem, que funciona. Mas apresenta uma importante restrição: precisa ser concebida a partir de materiais confeccionados com um único tipo de polímero. Por isso muitas vezes, o reaproveitamento só funciona de fato, nas embalagens rígidas. E como dissemos, o mercado de plástico flexível é enorme, e é ele que geralmente envolve os produtos de moda. Resta agora aguardar por um envolvimento maior por parte da indústria da moda, pela inclusão das premissas de sustentabilidade também nessa importante etapa, tão definitiva para a experiência de compra do produto, e para a comunicação direta com o consumidor.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução