Veganismo ganha peso no mercado

Mais do que apenas uma questão de alimentação, o veganismo já permeia a vida dos consumidores ocidentais. Dos interiores à moda “cruelty-free”, são cada vez mais aqueles que procuram um estilo de vida sem produtos de origem animal e numerosos negócios vêm respondendo à procura.

O veganismo tornou-se mainstream e longe de uma novidade confinada apenas ao prato dos consumidores. Segundo o WGSN, que cita dados de 2017 da GlobalData, nos EUA, o número de veganos subiu cerca de 600%, de 4 milhões em 2014 para 19,6 milhões. No Reino Unido, o número de veganos quadruplicou para 600 mil entre 2014 e 2018, de acordo com a The Vegan Society.

Esta mudança também altera os comportamentos de não-veganos, de acordo com dados de 2019 da Kantar, com 92% das refeições feitas à base de plantas a serem consumidas por não-veganos.

Com a influência do veganismo crescendo, as expectativas tendem a aumentar, à medida que os consumidores esperam mais opções em produtos de origem animal em todas as áreas de sua vida, das viagens ao design de interiores, sem falar da moda.

Interiores sem mácula

Em janeiro de 2019, o Hilton London Bankside lançou a primeira suite vegan, com almofadas feitas com trigo sarraceno orgânico e mobiliário feito com Piñatex – uma alternativa ao couro feita com fibra de folha de ananás. “O veganismo não é apenas uma tendência ao jantar – tornou-se uma escolha de estilo de vida para muitos. Queremos ser o primeiro hotel a ser capaz de oferecer aos que seguem um estilo de vida à base de plantas a possibilidade de terem uma experiência imersiva desde que entram no hotel”, justifica James B Clarke, diretor-geral do hotel, citado pelo WGSN.

O mesmo acontece na decoração de interiores, embora ainda de forma incipiente. A fundadora do Studio Can Can, Emily Turnball, afirma que o design de interiores vegan está ainda na infância no Reino Unido, mas está a mudar rapidamente. “Nos últimos anos, quando escrevia ‘vegan interior designer’ no Google, havia apenas duas senhoras nos EUA e eu no Reino Unido. Já não é o caso. O design de moda vegan mudou massivamente no último ano e penso que os interiores vão seguir-se rapidamente. Tem de ser, na verdade, já que uma loja que venda vestuário vegan, ou consciente em termos ambientais, ou comida deve, em si própria, ser um ambiente vegano”, sublinha.

As marcas e empresas de mobílias têm-se revelado atentas à tendência. A Chesterfields of England, uma empresa britânica de sofás, lançou no início do ano a primeira gama de sofás veganos. Os produtos foram feitos com pele falsa e enchimento sem recurso a artigos de origem animal, além de uma cola “vegan-friendly”.

“Recentemente, a nossa empresa estava a receber cada vez mais pedidos de informação de um sofá com o aspeto do clássico Chesterfields, mas feito sem couro”, explica o diretor comercial Callum Tombs. “Atualmente produzimos uma gama de sofás em veludo e lã, mas decidimos fazer uma gama com couro sintético amigo do ambiente para satisfazer a procura”, acrescenta. A empresa anunciou ainda que as novas gamas de sofás não vão usar produtos de origem animal.

O desafio tem sido colocado igualmente à indústria automóvel, já que muitos veículos usam peles no interior. Por conta disso, grandes produtores como a Tesla, a Skoda, a Volvo e a Ferrari lançaram automóveis com interiores “vegan-friendly”. Nesta área, na mais recente edição da iTechStyle Summit, a TMG Automotive e o CeNTI revelaram alguns pormenores do Confinseat, um projeto de desenvolvimento de pele artificial.

Um estilo para a vida

O veganismo está sendo incutido desde a infância e cada vez mais famílias vivem sob estes princípios. Há, por isso, escolas que assumem esta filosofia de vida, como a escola primária Muse, na Califórnia, ou o infantário Mokita Kindergarten, em Frankfurt, que será inaugurado em agosto.

Há igualmente um número crescente de revistas dedicadas ao tema, como a Vegan Kids Magazine, que junta histórias inspiradoras, receitas e artigos sobre saúde “para educar e inspirar uns aos outros na mensagem vegana”.

A ascensão do veganismo está igualmente a levar a um consumidor consciente em termos éticos, que quer trabalhar para empresas que pensam de forma semelhante e vice-versa. “À medida que mais pessoas se tornam veganas, os veganos têm mais probabilidade de apoiar um negócio com políticas éticas a toda a linha, em vez de um negócio não ético que apenas fornece escolhas veganas”, indica a The Vegan Society em declarações ao WGSN.

O motor da moda

No passado vistos como inferiores aos produtos de base animal, há cada vez mais pessoas em busca de alternativas “cruelty-free” e a evitar os pelos, couro, pele de crocodilo, penas e lã. Varejistas como a Asos anunciaram o fim de produtos de origem animal em sua demanda.

A indústria de alternativas veganas ao couro foi avaliada em 17,5 mil milhões de dólares em 2015 e deverá chegar aos 85 mil milhões de dólares em 2025, segundo estudo de 2019 da Grand View Research.

Inovações pioneiras estão a começar a surgir no mercado de massas em start-ups como a Piñatex, que criam substitutos de couro inovadores a partir de plantas. Marcas que tradicionalmente usaram couro nos produtos estão agora a lançar alternativas sem derivados animais. A Hugo Boss criou uma linha de calçado vegano feita a partir de “couro” de abacaxi e a Marks & Spencer seguiu o mesmo caminho, com a primeira gama de calçado vegano lançada em janeiro.

Em Portugal, marcas como a Nae Vegan Shoes têm como missão, desde a sua origem, criar calçados sem derivados animais. Cortiça e fibras de folha de abacaxi fazem parte dos materiais usados, juntamente com materiais reciclados, incluindo pneus, airbags e garrafas de plástico. Exemplos que deverão ter companhia em breve.

“A moda vegana deverá continuar a crescer em importância, por isso invistam em alternativas veganas”, aconselha o WGSN.

Fonte: Portugal Têxtil | Fotos: Reprodução