Vicunha Têxtil e ECOERA se unem no projeto Pegada Hídrica

Já parou para pensar quantos litros de água são necessários para produzir uma única calça jeans? Pois esta pergunta foi o ponto de partida do projeto Pegada Hídrica, realizado pela ECOERA, plataforma de Chiara Gadaleta que há 11 anos realiza a ponte entre sustentabilidade e os setores de moda, design e beleza, com parceria da Vicunha Têxtil. A iniciativa foi apresentada no último dia 10 de maio, na sede da ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil).

Esse estudo, inédito no Brasil, foi realizado a partir da metodologia global Water Footprint Network (desde o plantio do algodão até a lavagem pelo consumidor final) e revelou que o consumo médio é de 5.196 litros de água por calça jeans no Brasil.

“Escolhemos a calça jeans porque é uma peça icônica, querida pela maioria dos brasileiros, e ela é só um dos meios para contar essa história. Estamos no início ainda, temos muito a realizar”, afirma a Chiara. “Em se falando de sustentabilidade, temos que olhar para a cadeia como um todo”, completou.

O Pegada Hídrica tem como objetivo diminuir o impacto ambiental da indústria da moda e promover a transparência no setor, unindo os principais players em prol da criação de indicadores brasileiros na gestão sustentável da água.

A ação possibilita ainda a criação de metas de redução do consumo de água e formas de compensação por meio de projetos socioambientais como recuperação do solo, conservação dos recursos hídricos, estoque de carbono e criação de corredores para a biodiversidade ao longo de toda a cadeia produtiva do jeanswear. “Esse é o primeiro estudo que responde a nossa pergunta e ele será reavaliado a cada ano”, comentou Chiara.

Para Marcel Imaizumi, diretor executivo de operações, supply chain e novos negócios da Vicunha, é importante levar essa mensagem de como nossa cadeia pode fazer algo diferente. “Quando temos a informação começamos a trazer outros questionamentos e desdobramentos”, disse.

O cálculo foi baseado em três indicadores que somados, conferem a Pegada Hídrica total: a Pegada Verde, que envolve o volume da água da chuva utilizada pelas plantas nos processos agrícolas da cadeia produtiva; a Pegada Azul, relativa ao consumo que vem das fontes de água doce, das superfícies subterrâneas e que não são devolvidos para as mesmas fontes de captação; e, por fim, a Pegada Cinza, referente ao volume de água necessário para a natureza assimilar o efluente devolvido ao meio ambiente.

De acordo com o levantamento, o volume total consumido por uma calça jeans corresponde a 41% água verde, 11% água azul e 48% água cinza. Separado por etapas, considera-se ainda o seguinte gasto em cada elo da cadeia: 4.247 litros no plantio, 127 litros na tecelagem, 362 litros nas fases de lavanderia e confecção e 460 litros nas lavagens caseiras realizadas pelo consumidor final.

“O número da água verde é um dos mais expressivos em cálculos que incluem processo agrícola. No plantio, por exemplo, quando analisado individualmente, observa-se que a Pegada Verde corresponde a 50% do gasto hídrico, uma vez que 92% da água utilizada na cultura do algodão brasileiro é proveniente da chuva, não representando impacto ambiental neste consumo”, explica Claudio Bicudo, CEO da H₂O Company.

Ainda segundo o CEO,  a crise hídrica vem acontecendo em lugares onde antes não existia, por isso é importante levantar esses dados, pois temos uma falsa sensação de abundância de água, que na verdade, se concentra na Amazônia. “Precisamos desenvolver estratégias e soluções para lidar com essa escassez de água”, apontou.

É importante observar que a Pegada Cinza em lavanderia varia bastante, dependendo da região. No Sudeste temos 0%, enquanto no Nordeste o impacto é maior. Temos como exemplo, a capital do jeans, Toritama, no agreste do Pernambuco, onde são necessárias medidas urgentes no tratamento dos efluentes. Há ainda lavanderias que priorizam os processos a laser ou com ozônio, reduzindo o consumo de água.

“Instalada no Nordeste, uma região de extrema escassez de recursos hídricos, a Vicunha sempre teve uma grande preocupação com o uso responsável da água. Com este projeto, temos uma ferramenta específica de gestão contínua, com acompanhamentos das ações, definição de metas de aumento de eficiência hídrica e avaliação de resultados”, conta Marcel Imaizumi.

Helder dos Santos Cortez, diretor de Negócios do Interior da CAGECE (Companhia de água e esgoto do Ceará), afirmou que mesmo em épocas de chuvas no Ceará é primordial se organizar com diferentes ações para prevenir a falta de água. E com esse intuito a Vicunha firmou uma parceria com a CAGECE para realizar o reuso dos efluentes industriais de sua fábrica, localizada no Estado. A ideia é criar um rio artificial para escoar a água tratada que posteriormente irá desembocar no mar.

Marcel Imaizumi, da Vicunha, acredita que esse movimento só é possível graças a mobilização do setor público em fornecer a água que é capaz de diluir o resíduo do processo de reuso de efluente. “Nós estamos finalizando a primeira sociedade de uma empresa privada com uma empresa de água para fazer reuso de efluentes industriais. Muitos fazem reusos dentro das companhias, mas eles são sempre com um olhar interno, pegar água da chuva ou recircular. Não é isso que estou falando, esses processos fazemos há muitos anos”, afirmou.

A moda pela água

Essa nova plataforma, idealizada pelo Movimento ECOERA, foi criada para discutir o uso responsável dos recursos hídricos, onde as empresas, ONGS e consumidores poderão ser os guardiões da água, buscando soluções para sua escassez. É um espaço de inovação, conhecimento e transparência para compartilhar iniciativas referentes ao consumo consciente de água.

“A moda é um repórter do seu tempo e hoje existe a necessidade de se falar sobre o uso responsável da água e de que forma isso afeta toda a indústria”, afirma Chiara Gadaleta. Até o momento, o projeto já conta com gigantes do mercado como: Vicunha Têxtil, Marisa, FARM e Damyller.

“A Moda pela Água” terá três fases. Na primeira etapa que se inicia no mês de maio, a partir do lançamento dos dados da “Pegada Hídrica Vicunha”, cada marca terá uma página dentro da plataforma, onde serão publicadas suas condutas em prol da causa, a gestão do recurso hídrico em sua cadeia de valor e, principalmente, de que forma cada empresa se dispõe a fazer parte da mudança no cenário atual; todo o conteúdo passará por curadoria do ECOERA.

Os consumidores finais também poderão participar da causa por meio de um manifesto, onde cada indivíduo se torna um agente responsável pela mudança. Por meio de newsletter e reports, os consumidores cadastrados na plataforma terão acesso às informações em torno do tema e poderão participar com questionamentos, ideias e até críticas e denúncias às empresas do setor. A missão do projeto é criar um espaço de interação entre o público, de forma que todos se tornem Guardiões da Água.

Além disso, serão promovidos encontros presenciais, palestras com especialistas e rodas de conversas entre consumidores e empresas ao longo do ano a fim de se discutir metas e planos para a redução de água. A intenção é que em 2020, mais precisamente no dia 22 de março, Dia Mundial da Água, se inicie a segunda etapa, que engloba o primeiro summit sobre o tema no mercado de moda. Todos resultados de um ano de trocas e pesquisas serão apresentados.

Agentes do terceiro setor, empresas e consumidores finais irão participar de mesas redondas, debates e painéis sobre os próximos passos em relação ao uso responsável em toda a cadeia para já criar metodologias de redução do uso de água.

Já na fase três, a ideia é que a discussão e mobilização em torno do tema se torne de interesse público para gerar assim medidas administrativas do governo para a crise hídrica no setor.

Saiba mais acessando @pegadahidrica, @vicunhatextil, e @amodapelaagua, no Instagram.

Fonte: Vanessa de Castro | Fotos: Reprodução