Malwee lança o projeto DES.A.FIO com foco na moda circular

Malwee lançou na semana passada, o movimento DES.A.FIO com o primeiro moletom feito a partir do “Fio do Futuro”, produzido com roupas usadas que seriam descartadas.

Para isto, a empresa recolheu peças sem condições de uso em algumas lojas pelo Brasil e do Repassa, maior brechó online do país e um de seus parceiros de circularidade. Elas foram encaminhadas para o Grupo EuroFios, especializado na reciclagem e produção de fios sustentáveis (parceiro da marca em projetos fabris inovadores e sustentáveis há mais de 10 anos), que fez todo o processo de desfibragem e fiação, e criou o fio inovador junto com a Malwee.

A matéria-prima de moda inédita no mercado brasileiro foi fabricada com 70% de resíduo têxtil pós consumo e 30% de uma fibra complementar usada para fortalecer a estrutura e qualidade; e compõe o moletom, que emite 44% menos CO2 e consome menos 30% de água na sua produção.

O produto, numerado e que não será vendido em loja, foi distribuído ontem, Dia Mundial da Reciclagem, na Avenida Paulista, em São Paulo, numa ação onde os moletons foram distribuídos às pessoas que doaram cinco peças de roupas usadas.

O local contou ainda com uma instalação de arte, produzida em colaboração com a artista plástica Carol Almeida com intuito de provocar a reflexão sobre a forma de descarte das peças que não podem mais ser usadas.

Malwee também criou 65 pontos de coleta de roupas usadas em suas lojas e multimarcas espalhadas pelo Brasil. Todas as doações que estiverem em boas condições serão enviadas à Cruz Vermelha São Paulo, instituição que atua há 110 anos na ajuda aos mais vulneráveis; e as que não puderem mais ser usadas serão destinadas à reciclagem para a produção de novas roupas.

“Para nós, a criação do ‘fio do futuro’ é mais uma iniciativa que reforça a nossa legitimidade em inovação em prol da sustentabilidade na indústria e na cadeia da moda. A partir dessa matéria-prima, a Malwee passa a transformar roupas usadas que seriam descartadas e virariam lixo têxtil em roupas novas, com a qualidade já conhecida da marca”, afirma Taíse Beduschi, gerente de ESG do Grupo Malwee.

“Esse tipo de orientação para a moda circular tem impacto direto no uso de recursos materiais e está em linha com o nosso plano ESG 2030, em que firmamos o compromisso público de ter 100% dos nossos produtos fabricados com matérias primas e/ou processos com menor impacto ambiental dentro dos próximos 10 anos”, completou.

“O lançamento de um moletom, um ícone para a marca, feito com produtos usados que se tornariam lixo, é um marco na nossa história e reforça o compromisso e o pioneirismo da Malwee em buscar alternativas por uma moda cada vez mais sustentável. Essa peça é um símbolo da nossa vontade de que a consciência coletiva sobre a importância da reciclagem de roupas aconteça”, observa Guilherme Moreno, gerente de marketing da Malwee.

Conversamos com Guilherme Moreno para conhecer um pouco mais sobre esse projeto, além do foco sustentável da marca que abrange todos os seus produtos, inclusive as peças jeanswear. Confira:

Guia JeansWear: Conte como iniciou o movimento DES.A.FIO.

Guilherme Moreno: Esse projeto nasceu de um desejo que a gente tinha de transformar o jeito de fazer moda. A moda e sua produção é linear, a matéria-prima acaba no descarte e olha quanto descartamos ao longo do tempo. E, por isso, a gente se provocou a pensar: “montamos a nossa própria malha, por que não tentar fazer uma malha com fio a partir de pós-consumo?”. Então, o movimento DES.A.FIO nasceu assim.

Tínhamos vários desafios porque isso não é cultural, as pessoas não reciclam roupas, elas reciclam latinhas, vidro, plástico….e para nós, o final da roupa é montar uma sacolinha para doação. Só que não sabemos, que no final, essa doação é descarte também.

Um parceiro bem importante para nós nesse projeto é a Cruz Vermelha. Descobrimos, por exemplo, que eles recebem doação o ano inteiro e, que costumam descartar 7 toneladas de roupa no final do ano que vão para o aterro, normalmente, porque não existe necessidade suficiente para cobrir essa doação e as pessoas doam qualquer coisa – às vezes é campanha de agasalho e no meio tem underwear, às vezes é para criança e chegam roupas de adulto e aí no final do ano, a Cruz Vermelha vai ficando com esse saldo e descarta para aterro.

Por isso, nos aproximamos deles justamente com esse objetivo – de pegar esse descarte e levar para reciclagem, mas começamos com um parceiro que temos, o Repassa, maior brechó online do Brasil. E eles também tinham esse mesmo problema – as peças revendidas e as sobras, parte doada e parte não ia pra lugar nenhum.

Começamos testando 8 mil peças, desfibramos com o Grupo EuroFios,, de algodão desfibrado, pré-consumo. Eles compram da gente e nos vende de volta o fio.

Desde o começo dos anos 2000 já temos esse projeto de reciclar resíduo e também comprar fio de pets reciclados, então o poliéster da Malwee, quase em sua totalidade, é reciclado hoje. O desafio não era criar só um produto, mas sim um produto que ficasse íntegro, não entortasse, durasse, tanto quanto um moletom da Malwee dura. E chegamos na composição atual que é 40% dessa fibra toda reciclada, misturada com 30% de poliéster reciclado e 30% de algodão desfibrado pré-consumo.

Foram produzidos 1500 moletons, numerados, e decidimos não vender. É a primeira vez que a Malwee faz produtos para não vender. Realizamos uma grande ação no dia 17 de maio, dia da reciclagem, na Av. Paulista, onde qualquer pessoa que chegasse com cinco peças de roupa, levava o moletom, isso para que a gente comece a estimular, a levantar o assunto de que é possível reciclar a moda, é possível transformar a roupa usada em novas roupas.

A nossa intenção é distribuir esse fio em outros produtos, compor outras peças da coleção para que sejam vendidas.

Colocamos também os pontos de coleta de roupas usadas distribuídos pelo Brasil para possibilitar que todos participem do processo. Porque não adianta eu te oferecer um fio reciclado se eu não te estimulo a reciclar. Então o convite é que qualquer pessoa possa descartar corretamente seus produtos, esse descarte sempre vai passar pela Cruz Vermelha, parte para eles, parte para a Malwee doar. A gente quer mostrar que esse caminho é possível, da moda circular.

GJ: Em relação à linha jeanswear, como trabalham na preservação do meio ambiente?

GM: O jeans virou um grande ícone da Malwee, principalmente, desde que a gente instalou o LAB Malwee Jeans, em Santa Catarina. Nosso laboratório de inovação possibilitou essa troca do jeito convencional de fazer o jeans com permanganato, processos manuais, muita lavanderia, muita água, por um processo limpo com nebulização, finalização com ozônio e laser.

Então é uma grande inovação que levou a gente a tirar o jeans desse cenário de uma calça que precisava de 100 litros de água para ser finalizada para uma calça com 300ml, que é o que a gente está conseguindo fazer hoje.

Utilizamos ainda corantes naturais, ora compramos de fornecedores, ora produzimos na própria fábrica. No ano passado lançamos uma coleção chamada AMORA, toda tingida de amora vermelha (que ficou num tom rosa) ou verde, na sarja cru e, que foi super bem aceita. Este ano já temos programado mais dois lançamentos com tingimento natural. Vamos produzir tingimentos com urucum, anil, cúrcuma, com novas possibilidades de cores.

GJ: E o consumidor entendeu, que talvez tenha que pagar um pouco mais por uma peça mais sustentável?

GM: É um processo de construção mesmo. Não nascemos com esse mindset, principalmente as gerações mais velhas. A gente não reciclava lixo, usava cotonete, canudo de plástico…então na moda, esse processo é contínuo, as pessoas estão se acostumando a ouvir que a moda também tem impacto no meio ambiente e a gente precisa se educar para consumir de um jeito diferente.

Hoje uma grande premissa que a Malwee tem é não colocar nas suas linhas, produtos que saiam de suas faixas de preços, que a empresa já pratica, porque a gente acredita que a moda mais sustentável tem que ser para todos. Então nosso processo evolutivo e nosso desenvolvimento é todo baseado em algo que vai ficar no final com preço de Malwee, com preços que nossos consumidores já estão acostumados a consumir.

Então, na maioria das vezes, eles acabam comprando sem saber que o produto é mais sustentável e recebem essa informação ou no próprio produto ou na comunicação. A gente comunica tanto em tags especiais quanto nas redes sociais. É um processo de cultura, de mudança, temos que respeitar isso, e se encaixar dentro do contexto das pessoas. Porque qualquer coisa que é forçada é mal recebida.

GJ: A Malwee mantém a liderança em relação ao relatório sobre o Índice de Transparência da Moda (o ITM revela em que nível grandes marcas e varejistas estão divulgando publicamente dados sobre suas políticas, práticas e impactos sociais e ambientais ao longo de toda a cadeia de valor). Como vocês trabalham para manter essa liderança?

GM: Nós não nos preocupamos tanto com a liderança do Índice como com o propósito. Essa liderança para a Malwee foi muito natural, já tínhamos a prática de divulgar fornecedores, processos, selos, então para nós é muito mais entender como podemos evoluir para cada vez oferecer mais transparência. Ele mede a transparência da cadeia, ele não mede se a marca é mais sustentável ou menos sustentável, mas sim o quanto de informação a gente coloca no mercado e o quanto essa informação é fácil de ser pesquisada, e se depender da gente, queremos ser cada dia mais transparentes.

Um projeto como esse, por exemplo, queremos que todos vejam, saibam como fizemos, porque não vai funcionar só reciclarmos roupa, somos um grão de areia  no universo da moda, precisamos estimular, incentivar e puxar a corda dos assuntos e o Índice, é um grande exemplo, de como isso pode ser feito.

Fonte: Vanessa de Castro | Fotos: Reprodução e Equipe Guia JeansWear