Brasil quer conquistar mundo

Com uma economia em ascensão e uma forte indústria de moda, o Brasil quer dar o próximo passo e deixar de produzir apenas para os brasileiros. O segredo para tal, acreditam muitos especialistas, será reduzir custos, melhorar as infraestruturas e trabalhar na criatividade e originalidade das criações.

A Semana de Moda de São Paulo, que aconteceu no final do mês passado, trouxe um novo ímpeto à moda brasileira, dando ao Brasil a hipótese de celebrar o seu estatuto como o quinto maior produtor de têxteis e o quarto maior produtor de vestuário.

Mas o Brasil também quer ser um grande ator no palco da moda mundial, um avanço que tem escapado até agora. A Semana de Moda de São Paulo (SPFW), o principal evento na América Latina que ocorreu entre os dias 29 a 31 de outubro no Parque Villa Lobos – apresentou os designs alegres e coloridos para a coleção inverno 2013.


A moda brasileira continua mostrando uma forma mais leve e fresca de ver as coisas e isso tem algo a ver com o nosso DNA, considera Paulo Borges, diretor criativo da Semana de Moda.


Mas a organização dos desfiles reconhece que 95% das roupas feitas no Brasil são produzidas para o mercado interno e apenas 5% para exportação.


Segundo a ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, a indústria de moda do Brasil vendeu 63 mil milhões de dólares (49,22 mil milhões de euros) em produtos em 2011 – a maior parte roupa usada pelos próprios brasileiros. «O Brasil é um grande produtor e um grande consumidor de têxteis, mas não é ainda um grande ator no mercado mundial de vestuário», afirma Fernando Pimentel, diretor-superintendente da ABIT.

Especialistas de moda têm opiniões diferentes sobre o porquê que este País – à beira da grandeza militar e uma potência econômica emergente – vacila no mundo da costura.


Alguns culpam o que afirmam ser barreiras impostas pelo governo, incluindo elevados impostos sobre os produtores, para os impedir de vender mais para o estrangeiro. «Os bens internos produzidos sofrem da chamada “sobretaxa Brasil”», explica o produtor de vestuário Oskar Metsavah, dono de uma das cerca de 20 marcas que mostraram as suas criações na Semana de Moda.


A “sobretaxa” diz respeito a «impostos elevados, fraca infraestrutura de transportes» e leis laborais ultrapassadas que tornam difícil exportar bens brasileiros a um preço razoável, afirma.


Mas Metsavah afirma que os custos não são a única questão que trava o Brasil. «Por que é que tão poucas marcas brasileiras conseguem ser vendidas em lojas no exterior? Na minha opinião, é por causa da falta de originalidade e falta de qualidade da maioria delas», sustenta.


A sua empresa, a Osklen, é uma das poucas empresas brasileiras que conseguiu ter um pé nos mercados estrangeiro, com as suas roupas vendidas nos EUA, na Argentina e no Japão. Mas Metsavah considera que nem todos os designers perceberam como criar modelos com apelo internacional.


João Pimenta, um designer de vestuário masculino que esteve na Semana de Moda, acredita que parte do problema é a falta de vontade para inovar. «A moda brasileira ainda tem muito medo de experimentar», indica. «Penso que é a coisa mais importante a acontecer na indústria brasileira de moda, para nos permitir encontrar o nosso espaço no mundo».


A organização da Semana de Moda está se esforçando em ajudar a reposicionar a indústria de vestuário no Brasil para um grande lançamento no palco mundial da moda. Por um lado, alargaram o intervalo entre os desfiles de outono e primavera, oferecendo assim mais tempo aos designers e produtores para aperfeiçoarem as suas coleções.


O simples ajuste no calendário percorreu um longo caminho para ajudar a profissionalizar e a expandir uma indústria que é ainda “muito jovem”, considera Paulo Borges. “É uma questão de maturidade porque é uma indústria jovem que está descobrindo a sua personalidade”, acrescenta.


Mas Paulo Borges também admite que “a moda brasileira falhou em estabelecer-se como produto e marca no mercado mundial por causa dos custos elevados e problemas para conseguir financiamento”.


Há um consenso na indústria de que para levar as suas roupas a um mercado externo maior, o Brasil terá de reduzir as barreiras ao crédito, descer o custo excessivo da mão de obra e melhorar as suas limitações de infraestrutura.


Os bens internos produzidos são caros, o trabalho é caro e os impostos que os negócios têm de pagar são muito altos», aponta Fabienne Muzy, diretora de planejamento da Luminosidade, um grupo que organiza os principais eventos de moda no Brasil. “Se comparar um produto feito no Brasil com marcas internacionais como a Prada e a Chloe, vai ver que têm quase o mesmo preço”, assegura Muzy, que nasceu na França. “Qual é que vai comprar?”, questiona de forma retórica. “A escolha é evidente: Prada”.


Responsáveis da indústria já pediram ao governo de Dilma Rousseff para reduzir os impostos. “Há criatividade, há qualidade”, afirma. “O problema é o preço”, conclui.

REDAÇÃO | FONTE: AFP | FOTO: REPRODUÇÃO