O detalhe que falta para transformar o jeans em produto vegano

O jeans é um artigo de moda vegano? Existem controvérsias. Enquanto a resistência e a durabilidade atribuída ao algodão que compõe o denim, é reconhecidamente um material assim classificável como “animal-friendly”; a etiqueta traseira que proclama a origem da peça, geralmente não é. Isso porque é confeccionada a partir de couro – de vaca – para ser mais específico. E enquanto muitas marcas tem se esforçado em tornar o algodão orgânico, criar modos de produção louváveis, entre outros caminhos, para tornar o jeans cada vez ético; esse pequeno e tão pontual detalhe permanece, na maioria das situações, alheio à todo esse contexto.

Com a inclusão de muitas grifes nos caminhos da origem orgânica, muitas coleções estão beirando uma definição “quase” vegana, transformando o acessório no pivô da próxima transformação da indústria denim. Sinalizando o início dessa movimentação, esta semana a PETA (People for the Ethical Treatment for Animals), fez um alerta justamente para uma das marcas mais formadoras de opinião do nosso segmento: a Levis. O grupo convocou através de declaração à icônica grife, a abandonar completamente todos os derivados do couro de suas coleções. Um chamado, que se atendido, promete influenciar uma fatia considerável da pirâmide dos lançamentos no segmento denim como um todo.

Na advertência, a PETA convoca a Levi’s a reconhecer que se a companhia é verdadeiramente engajada com o avanço das práticas sustentáveis, deve mudar sua etiqueta para um material vegano. De acordo com o grupo, a alteração representa um passo fácil de ser dado pela companhia, e efetivo para a evolução das suas metas de sustentabilidade e transparência.

A etiqueta de couro (reclama PETA) gera impacto ambiental três vezes maior, em contrapartida com a opção vegana, que é tipicamente feita de materiais sintéticos como policloreto de vinil ou poliuretano.

De fato, a lista dos materiais mais sustentáveis, coloca o couro de vaca no topo dos materiais com maior impacto para descarte nos rios e nascentes. Segundo a classificação da NBR 10.004/04 da Associação Brasileira de Normas Técnicas, o cromo, um dos principais resíduos descartados pela curtição do couro, é um resíduo perigoso da classe 1, com grau de risco à saúde pública e ao meio-ambiente por possuir características de inflamabilidade, corrosividade, reatividade e toxicidade.

Versões biodegradáveis em estágios de viabilização já existem no mercado. Entre elas o Piñatex, material que simula o couro, feito a partir de resíduos de abacaxi. Também a Mylo, um couro falso obtido a partir da cultura de cogumelos. Recentemente, em Nova Jersey, surgiu uma nova opção vegana, baseada nas proteínas de colágeno que sobram dos testes de DNA. No mercado existe ainda o Vegea, um couro fabricando a partir das sobras de cascas e sementes de uva, da indústria vinícola. Também a já conhecida opção da cortiça, com tem o visual rústico e um belo tom natural a seu favor, feita a partir da casca do sobreiro das florestas de carvalhos, que cresce novamente, logo pode ser repetidamente colhida.

Alguns fabricantes de couro sintético também estão refinando seus produtos de poliuretano para reduzir a quantidade de petróleo necessária para produzi-los. Importante ficar de olho na composição, e nas movimentações de mercado, que tendem a voltar as atenções para o patch traseiro, que embora pareça um pormenor, leva a importante tarefa de comunicar a logomarca, validando seu discurso de valor imaterial e conduta ambiental como um todo.

Retomando a convocação feita pela PETA à marca Levis, a mesma declarou que apenas 10% dos materiais usados nas suas coleções não são de algodão, e que dentro deste percentual, o couro corresponde a uma fração ainda menor.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução