Termos como “ética” e “sustentabilidade” continuam deixando os consumidores confusos devido à falta de parâmetros e características para os definir e que, consequentemente, deixam os significados abertos a várias interpretações.
Em um relatório que envolveu centenas de consumidores australianos, os pesquisadores da Universidade de Melbourne descobriram que, embora a maioria dos entrevistados tenham afirmado se sentir “bem informados” no que diz respeito às questões gerais de ética na moda, também tiveram dificuldades para saber se o produto à venda era efetivamente ético ou sustentável.
“Muitos dos participantes no estudo se sentiram oprimidos ao tentar localizar e interpretar informações sobre onde, como e por quem as suas roupas são feitas”, afirma, num blog, Natalya Lusty, professora de estudos culturais da Universidade de Melbourne.
“Aqueles que desejam ser ‘consumidores conscientes‘ descobriram que precisam de se familiarizar com os sistemas de certificação, se manterem atualizados com guias de compras éticas e saber o que significa para os trabalhadores do setor de vestuário receber um salário mínimo ou serem membros do sindicato”, aponta.
Alguns participantes também asseguraram se sentirem “profundamente céticos” em relação ao marketing e ao greenwashing, mas tendem a confiar em etiquetas e marcas menores que garantem ser sustentáveis. Segundo Natalya Lusty, a crescente popularidade da moda vintage e em segunda-mão também instala a confusão entre os consumidores que optam por não comprar artigos novos.
“Reconhecer os desafios e as boas intenções dos consumidores é crucial se quisermos melhorar a ética do sistema global de moda”, considera Natalya Lusty. “Ao invés de simplesmente aumentar o número de certificações que as marcas devem aderir, a nossa análise sugere que aumentaríamos o conhecimento do consumidor naquelas que já existem e o que significam na prática”, destaca.
Pobreza, desigualdade e práticas de compra
A análise dos consumidores australianos surge a par de uma pesquisa publicada recentemente da Oxfam Australia. Em parceria com a Monash University, o estudo analisou as práticas de compra de 10 varejistas líderes de moda que têm produções no Bangladesh – Best & Less, Big W, Cotton On, H&M, Inditex, The Just Group, Kmart, Myer, Mosaic Brands (Noni B) e Target Australia, de acordo com Sourcing Journal.
Oito em cada 10 fábricas utilizadas no estudo revelaram que as marcas costumam recorrer a estratégias de negociação de alta pressão com vista a redução de preços. Já sete em cada 10 dizem sofrer de metas de produção abruptas e horas extras excessivas para que os trabalhadores consigam entregar as encomendas em prazos que ultrapassam as previsões.
Quatro em cada 10 fábricas afirmaram já ter aceitado pedidos com margens abaixo do custo para produzir vestuário com ética e segurança. Outras seis em cada 10 relataram aceitar outros pedidos a preços baixos quando os volumes de encomendas ficaram aquém da previsão da marca.
“A pesquisa demonstra que práticas de compra injustas estão pressionando as fábricas a adotar más condições de trabalho e a pagar salários inaceitavelmente baixos“, admite Lyn Morgain, CEO da Oxfam Australia.
“O estudo provou que essas práticas de compra inadequadas das marcas estão impossibilitando as fábricas de aumentar os salários, apesar de muitas das mesmas marcas assumirem compromissos públicos para garantir o pagamento de salários dignos. Ao invés disso, os salários estão a prender os trabalhadores, principalmente mulheres e as suas famílias, num ciclo de pobreza”, assevera.
Cumprir compromissos
Ainda que as pesquisas tenham sido feitas nos meses anteriores à pandemia, foram divulgadas depois do surto de Covid-19, durante o qual várias marcas cancelaram pedidos, atrasaram pagamentos ou tentarem obter descontos no vestuário já produzido.
“Quase da noite para o dia, centenas de milhares de trabalhadores do setor de vestuário ficaram sem salário durante a pandemia, o que os deixou em risco de pobreza extrema”, realça Lyn Morgain.
Nos últimos três anos, a Oxfam Australia ouviu grandes varejistas dizerem que querem garantir que os trabalhadores da indústria de vestuário ganhem um salário condignos, ou seja, o suficiente para cobrir bens essenciais como alimentação, alojamento, saúde, roupa, transporte e educação, deixando algum dinheiro para emergências.
“Mas este relatório mostra que, a menos que as marcas concordem em melhorar as más práticas de compra que estão reduzindo os salários, os compromissos de assegurar o pagamento de salários dignos correm o risco de se tornar meramente da boca para fora”, conclui a CEO.
Fonte: Portugal Têxtil | Fotos: Reprodução









