Staroup: O legado de um ícone do jeans brasileiro

Por décadas, a Staroup foi sinônimo de juventude, ousadia e inovação no cenário da moda nacional. Fundada em 1956 pelo húngaro Johann Gordon, no bairro do Brás, em São Paulo, a marca começou pequena — com apenas 19 máquinas e 40 funcionários — produzindo calças de brim sob o nome Farwest. O que parecia ser apenas mais uma confecção na efervescente indústria têxtil paulistana logo se tornaria um dos maiores fenômenos do jeanswear brasileiro.


Na esteira do sucesso da Jovem Guarda, nos anos 1960, a Staroup lançou calças batizadas com nomes como “Calhambeque” e “Tremendão”, em homenagem a sucessos de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Foi o início de uma relação estreita entre moda e cultura pop, que marcaria a identidade da marca ao longo das décadas.

Dos holofotes ao coração do Brasil

Nos anos 1970, a empresa transferiu sua sede para Botucatu (SP) e consolidou sua presença como uma das marcas mais populares do país. As campanhas publicitárias da época, muitas vezes premiadas — inclusive no Festival de Cannes —, transformaram a Staroup em um símbolo de juventude e atitude. A marca também foi pioneira em ações de marketing de grande impacto: patrocinou a Fórmula 1 e marcou presença em momentos históricos da televisão brasileira, como a abertura da novela Dancin’ Days.

O jeans Staroup tornou-se um ícone. Vestir a marca era sinal de estilo e pertencimento a uma geração que buscava liberdade de expressão através da moda.

O declínio e a tentativa de renascimento

A trajetória de sucesso, no entanto, começou a enfrentar dificuldades nos anos 1990. A concorrência crescente de marcas nacionais emergentes e a chegada massiva de produtos asiáticos ao mercado brasileiro colocaram a Staroup em uma posição delicada. A perda de competitividade e o enfraquecimento da presença da marca levaram à sua falência em 2012, encerrando um importante capítulo da indústria da moda no país.

Três anos depois, em 2015, uma nova tentativa de recomeço surgiu. A Racheltex Confecções, de Capivari (SP), adquiriu os direitos da marca e iniciou o processo de relançamento da Staroup com uma proposta mais contemporânea. Sob a direção criativa de Natália Nicoletti, formada pelo Istituto Europeo di Design, a grife apostou em peças versáteis, confortáveis e com uma nova identidade visual, voltada para um público jovem e conectado. A reestreia incluiu até uma loja conceito no Bom Retiro, tradicional polo da moda em São Paulo.

O Guia JeansWear acompanhou de perto esse momento, visitando a sede da Racheltex e também o lançamento da loja no Bom Retiro, registrando o esforço da empresa em manter viva a essência da Staroup, agora adaptada aos novos tempos.

Um símbolo da memória da moda brasileira

Mais recentemente, em 2025, a antiga sede da marca em Botucatu foi colocada em leilão judicial por R$ 42 milhões. O imóvel — com 286 mil metros quadrados de terreno e mais de 6,8 mil metros quadrados de área construída — representa mais do que uma estrutura industrial: é um marco na história da moda brasileira, onde foram costurados sonhos, estilos e gerações inteiras.

A jornada da Staroup deixa um legado que vai além das tendências. É uma história sobre visão empreendedora, conexão com a cultura, reinvenção e os desafios de manter-se relevante em um mercado cada vez mais competitivo. Seu impacto permanece como referência para marcas que buscam não apenas vender produtos, mas criar identidade e memória.

Em um momento em que a moda busca reencontrar seus valores e equilibrar tradição e inovação, a história da Staroup ressurge como um lembrete poderoso: marcas icônicas não desaparecem — elas se transformam, permanecendo vivas na lembrança e na inspiração de quem entende o verdadeiro valor de vestir uma história.

Fonte: Ana Gimonski | Foto: Divulgação