‘Feito no Brasil’ ganha força como estratégia ESG na moda

Produção local, algodão certificado e rastreabilidade fortalecem a competitividade da cadeia têxtil brasileira diante das novas exigências globais de sustentabilidade

A valorização da produção nacional deixou de ser apenas uma questão de identidade para se consolidar como uma estratégia de sustentabilidade na indústria da moda. Ao priorizar fornecedores locais, marcas reduzem emissões associadas à logística, ampliam a transparência da cadeia produtiva e fortalecem a capacidade de comprovar a origem responsável de matérias-primas — uma demanda cada vez mais presente entre varejistas, consumidores e investidores atentos aos critérios ESG.

O movimento acompanha a evolução da própria indústria têxtil brasileira. Dados do Observatório Nacional da Indústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), mostram que a produção têxtil nacional cresceu 18% entre 2000 e 2024, enquanto as emissões diretas de dióxido de carbono recuaram mais de 70% no mesmo período. Atualmente, o setor responde por menos de 1% das emissões totais da indústria brasileira.

Nesse cenário, a rastreabilidade e a certificação das matérias-primas ganham relevância estratégica. Um exemplo é a Incofios, indústria catarinense localizada em Indaial (SC), especializada na produção de fios 100% algodão. A empresa trabalha com algodão certificado pelos programas Better Cotton (BCI) e SouABR (Algodão Brasileiro Responsável), além de oferecer rastreabilidade por QR Code, permitindo o acompanhamento da origem dos materiais ao longo da cadeia.

A adoção de fornecedores nacionais certificados também contribui para encurtar cadeias logísticas e reduzir impactos relacionados ao transporte, fatores que vêm sendo incorporados aos indicadores de sustentabilidade utilizados pelo mercado.

“Quando uma marca escolhe um fornecedor nacional certificado e rastreável, ela não está apenas comprando fio, mas construindo uma cadeia capaz de comprovar a origem de cada etapa do produto”, afirma Edson Augusto Schlogl, diretor-geral da Incofios. “Cada vez mais, nossos clientes precisam apresentar essa origem responsável a compradores e investidores, e é justamente essa transparência que conseguimos entregar.”

Rastreabilidade deixa de ser diferencial

A exigência por comprovação de origem já faz parte da rotina da cadeia da moda brasileira. Um dos principais exemplos é o Programa ABVTEX, que condiciona o fornecimento às grandes varejistas à aprovação em auditorias de conformidade socioambiental. As avaliações abrangem critérios como condições de trabalho, combate ao trabalho análogo à escravidão e monitoramento da cadeia de subcontratação.

Na prática, a rastreabilidade deixou de ser um atributo adicional para se tornar requisito de acesso aos principais canais de comercialização do país.

A pressão também vem dos mercados internacionais. A União Europeia inicia, a partir de 2026, a implementação gradual do Passaporte Digital de Produto, previsto no Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis. O setor têxtil está entre os primeiros segmentos impactados pela medida.

A nova regulamentação exigirá que produtos comercializados no bloco disponibilizem, por meio de uma identidade digital acessível por QR Code, informações relacionadas à composição, origem das fibras, pegada ambiental e potencial de reciclagem — incluindo itens produzidos fora da Europa.

Diante desse contexto, o fortalecimento da cadeia produtiva nacional, aliado à certificação e à rastreabilidade, transforma o “feito no Brasil” em um ativo competitivo para marcas que buscam atender às novas demandas globais de sustentabilidade e transparência.

Fonte: Redação Foto: Divulgação