À medida que a Copa do Mundo coloca a cultura do futebol sob os holofotes, sua influência vai muito além do campo e se estende ao modo como as pessoas se vestem no dia a dia. E é impossível não falar do denim da Adidas Originals e da Copa do Mundo da moda que acontece fora do campo.
Enquanto milhões de pessoas acompanham a Copa do Mundo analisando esquemas táticos, escalações e estatísticas, uma outra disputa acontece silenciosamente fora dos estádios. E, para quem trabalha com moda, cultura e comportamento, ela costuma ser bem interessante.
Essa disputa está nas peças que transformam a paixão pelo esporte em linguagem cultural. Porque, vamos lá, pensa comigo: as camisas oficiais vão vender de qualquer maneira. Sempre venderam. São quase uma obrigação emocional do torcedor. Mas a história mais interessante está acontecendo ao redor delas. Nas jaquetas. Nos tênis. Nas cápsulas de streetwear. Nas peças que carregam a linguagem do futebol sem parecer que foram compradas cinco minutos antes do jogo começar.
É exatamente aí que a Adidas Originals parece ter entendido algo importante sobre o comportamento contemporâneo: o futebol deixou de ser apenas um esporte e se tornou uma estética. Mas, antes de nos aprofundarmos na marca das três listras, vamos dar uma olhada geral para o que está acontecendo nesta Copa do Mundo.
O golaço da moda na Copa (e sem precisar do VAR)
Nike convocou a Palace para a Inglaterra. Jacquemus entrou em campo pela França. Pata representou a Holanda. Nocta apareceu pelo Canadá. Levi’s apostou em cápsulas de denim ligadas às seleções. Até a Balenciaga criou sua própria interpretação do universo futebolístico.
Mas, na minha opinião, existe algo particularmente inteligente no caminho escolhido pela Adidas. Ela percebeu que talvez o material mais interessante para traduzir a cultura do futebol em 2026 não seja o poliéster ou a poliamida. E ela sabe que não vale competir com as jerseys. Mas o denim… ah, ela apostou forte no denim, e ganhou sua estrela.
Parece contraditório à primeira vista, eu sei. Mas vamos para a análise.
O denim entrou em campo
O jeans nunca foi um tecido tradicionalmente associado ao esporte. Sua origem veio do trabalho, não do mundo esportivo. As calças atendiam mineiros, operários e trabalhadores ferroviários por suas três principais características: resistência, durabilidade e proteção contra desgaste. Ou seja, exatamente o oposto do que o esporte buscava: leveza, mobilidade e conforto.
Mas talvez seja justamente esse o pulo do gato: o denim reduz o drama da roupa de torcedor. Uma camisa oficial normalmente tem data de validade emocional. Ela pertence ao momento. Agora, uma jaqueta jeans, com uma modelagem diferenciada, funciona de outra forma. Ela sobrevive ao calendário. Pode ser usada durante a Copa. E em setembro. Em dezembro. E provavelmente por vários anos.
Falo de pertencimento sem uniforme.
Eu não tenho inveja do Messi, mas da jaqueta…
A jaqueta denim da Argentina criada em colaboração da Adidas com o artista Agus Zeta é simplesmente (suspiros) o suprassumo das colabs da Copa. Juro, tem gente que tem inveja da Argentina por conta do Messi. Eu tenho inveja é disso!
A peça traduz seus códigos visuais com uma linguagem contemporânea inspirada no workwear japonês. O azul índigo, a construção utilitária e os detalhes artesanais reinterpretam a herança do futebol por uma lente mais urbana e atemporal. Os detalhes artesanais substituem o excesso de branding. O resultado não parece merchandising. Parece moda.
A ousadinha americana de 1994
A Adidas também reviveu uma das peças mais improváveis da história do futebol: a lendária camiseta jeans da seleção americana de 1994.
Insight histórico: durante décadas, ela foi vista quase como uma curiosidade estética. Uma peça tão absurda que acabou se tornando icônica. Agora ela retorna acompanhada por uma coleção completa de lifestyle, incluindo jaquetas, shorts, bonés e tênis Samba com acabamento denim.
O curioso é que, em 1994, aquela camisa parecia um experimento.
Em 2026, ela é um statement. Porque o consumidor atual não está necessariamente só procurando demonstrar que torce para uma seleção. Ele quer demonstrar que pertence a uma cultura.
É a mesma lógica que aparece na colaboração entre Adidas Originals e Willy Chavarria para a seleção mexicana. A coleção não fala apenas sobre futebol. Fala sobre identidade, herança cultural, comunidade e orgulho coletivo. Os uniformes oversized, os tracksuits amplos e as silhuetas características de Chavarria transformam o esporte em uma conversa maior sobre quem somos e como escolhemos nos expressar.
Entre moda e futebol, um convite para pertencer
No fundo, essa pode ser a grande lição da Adidas nesta Copa. O produto não é uma camiseta. O produto é a possibilidade de pertencer a uma narrativa cultural.
Em um momento em que a sociedade está distante e intolerante, a Copa do Mundo é um momento de união, e o denim surge como um território particularmente poderoso. Carrega autenticidade. Carrega permanência. Carrega pertencimento.
Talvez seja exatamente isso que o futebol procure quando sai do estádio e entra na moda. Porque a Copa do Mundo dura algumas semanas, mas a memória de um item conquistado e que viveu um momento memorável é eterna.
Observando o que a Adidas Originals vem fazendo com o denim, fica fácil pensar que a marca entendeu uma mudança importante do nosso tempo. As pessoas não querem mais apenas vestir um evento. Elas querem vestir uma cultura.
Penso que os jeans da Adidas são exatamente aquele tipo de coisa que os discípulos das “três listras” não sabiam que precisavam. Até agora.
Por Karin Hellen Froehlich
Essencialista em Marketing de Moda B2B & Comportamento Social




















