A artista japonesa que transformou pontos, cores e repetição em uma linguagem própria deixa um legado que ultrapassa os museus e permanece vivo na moda — inclusive no jeanswear
Há artistas que criam obras. E há artistas que criam universos.
Yayoi Kusama pertence à segunda categoria.
A artista japonesa, que morreu em 14 de agosto de 2026, em Tóquio, aos 97 anos, construiu ao longo de mais de sete décadas uma linguagem visual impossível de confundir. Pontos, redes, flores, abóboras, espelhos, cores vibrantes e repetições aparentemente intermináveis se transformaram em sua assinatura — mas também em uma maneira muito particular de enxergar e traduzir o mundo. Seu estúdio informou que Kusama continuou pintando até pouco antes de sua morte.

A artista Japonesa Yayoi Kusama
Nascida em Matsumoto, no Japão, em 1929, Kusama começou a desenhar ainda criança. A arte seria, para ela, muito mais do que uma profissão: seria uma forma de transformar percepções, sentimentos e experiências em algo que pudesse ser compartilhado com o mundo.
Foi assim que nasceram algumas de suas séries mais conhecidas, como Infinity Nets, iniciada no final dos anos 1950, formada por pequenas estruturas repetidas que parecem continuar para além dos limites da tela. Vieram depois os famosos pontos, as instalações espelhadas, as esculturas e as experiências imersivas nas quais o visitante deixa de ser apenas espectador e passa a fazer parte da obra.
Na exposição Yayoi Kusama: Obsessão Infinita, realizada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em 2014, cerca de 100 trabalhos apresentaram ao público brasileiro diferentes momentos dessa trajetória, incluindo pinturas, esculturas, vídeos e instalações como Dots Obsession.
Foi uma dessas experiências que ficou guardada em nossa memória.
Em 2014, tivemos o privilégio de entrar naquele universo em São Paulo. Mais do que observar obras, era como atravessar uma porta para dentro da mente e da imaginação de Kusama: os pontos pareciam não terminar, os espelhos multiplicavam o espaço e as cores provocavam uma sensação difícil de explicar apenas com palavras.
Anos depois, em 2023, outra experiência aproximou ainda mais esse universo da moda.
Em Nova York, Iolanda Wutzl, CEO e cofundadora do Guia JeansWear, esteve diante das impactantes vitrines da Louis Vuitton criadas para a segunda grande colaboração da maison com Kusama. A primeira parceria havia acontecido em 2012; uma década depois, a artista e a marca voltaram a se encontrar em uma colaboração de escala monumental.
Quando a arte atravessou a porta do museu
A relação de Kusama com a moda é um capítulo fascinante de sua trajetória.
Em 2023, seu repertório visual tomou conta de lojas, vitrines e produtos da Louis Vuitton. Pontos, abóboras, flores, espelhos e outros elementos de seu imaginário foram traduzidos para diferentes superfícies e técnicas.
E o denim também recebeu esse olhar.
A coleção explorou o jeans como superfície artística, utilizando recursos como laser, além de estampas e intervenções inspiradas nos pontos e nas abóboras de Kusama. Peças de denim passaram a carregar não apenas uma informação de moda, mas uma narrativa visual reconhecível.
É justamente aí que a história de Kusama encontra o jeanswear de uma maneira especialmente interessante.
Porque Kusama viu o denim , essencialmente, uma tela.
Uma tela que pode receber laser, lavanderia, estampa, bordado, aplicação, pigmento, desgaste, sobreposição e inúmeras outras interpretações. É uma superfície que permite transformar uma peça cotidiana em objeto de expressão.
Kusama mostrou isso de uma maneira extraordinária: não existe limite para aquilo que uma superfície pode contar quando existe uma ideia por trás dela.
Uma artista que transformou repetição em identidade
Talvez uma das maiores lições de Kusama para a moda esteja justamente na repetição.
O ponto que se repete deixa de ser apenas um ponto. Torna-se linguagem.
A cor que retorna cria identidade. A forma repetida cria reconhecimento. A insistência sobre uma mesma ideia constrói uma assinatura.
Foi assim que Kusama conseguiu algo raro: transformar elementos extremamente simples em um universo visual reconhecido em praticamente qualquer lugar do mundo.
Sua obra atravessou galerias, museus, ruas, vitrines e produtos. E, ao fazer isso, mostrou que arte e moda não precisam viver em territórios separados.
Podem conversar. Podem se contaminar. Podem criar novas possibilidades.
Um legado que continua inspirando o jeanswear
Para nós, que acompanhamos há tantos anos a cadeia do jeans, talvez essa seja uma das partes mais bonitas do legado de Yayoi Kusama.
Ela faz os estilistas lembrar que o jeans não precisa ser apenas azul, básico, comercial ou funcional.
Ele pode ser tela.
Pode ser desenho.
Pode ser cor.
Pode ser tecnologia.
Pode ser arte.
Pode carregar uma história.
Ao olhar para sua trajetória, percebemos que os famosos pontos de Kusama não são apenas uma tendência estética. São a expressão de uma artista que passou a vida inteira insistindo naquilo em que acreditava, criando até transformar uma visão particular em uma linguagem universal.
E talvez seja por isso que sua obra nos acompanhará sempre de forma atual..
Porque o infinito de Kusama nunca esteve apenas nos espelhos ou na repetição dos pontos. Estava na possibilidade de imaginar sempre mais uma forma, mais uma cor, mais uma superfície, mais uma maneira de criar.
Yayoi Kusama partiu, mas seu universo permanece.
Nos museus. Nas ruas. Nas vitrines. Na moda. No denim.
E, sobretudo, na imaginação de todos aqueles que aprenderam com ela que criatividade não precisa ter começo, nem fim.
Redação: Marlene Fernandes – Fotos Redação e Equipe Guia JeansWear

























