Na estreia de Jonathan Anderson na Dior, o jeans provou que pode, sim, ocupar lugar de destaque em uma passarela de alta-moda. O desfile da coleção masculina Verão 2026 (2027 no Brasil), apresentado na Paris Fashion Week foi marcado por um choque estético entre o luxo do século XVIII e o desgaste calculado de tecidos populares. A estética “posh” com um toque de decadência, como o próprio estilista definiu, ganhou força nas calças jeans de modelagens reta ou torcida, com lavagens que iam do baby blue ao estonado, chegando ao dark blue.
Anderson trouxe uma abordagem conceitual ao jeans, afastando-se da nostalgia óbvia que marcou a era Slimane na maison. Se antes o jeans representava uma ruptura juvenil, agora ele emerge como um elo entre passado e presente. Peças como coletes bordados do século XVIII surgiram combinadas a jeans brancos e tênis, enquanto tailcoats aristocráticos eram usados com shorts e denim desbotado, numa espécie de “cosplay de elite” em pleno século XXI.
O jeans aqui não é coadjuvante; é peça-chave para entender a proposta de Anderson de “reconfigurar” a herança da Dior sem simplesmente reeditá-la. A informalidade da calça jeans contrastava com o rigor dos blazers alfaiatados e dos tecidos históricos, reforçando o discurso de classe embutido no styling.
A ambientação do desfile, inspirada na Gemäldegalerie de Berlim e com obras emprestadas do Louvre, também dialogou com essa tensão entre erudição e cotidiano. Anderson usou o jeans como símbolo de uma beleza cotidiana, banal e ao mesmo tempo potente. É o ordinário elevado à categoria de arte.
Ao final, o aplauso de pé da plateia, repleta de estrelas como Rihanna, Pharrell Williams e Robert Pattinson, confirmou que Jonathan Anderson não só compreende o DNA da Dior, como sabe reescrevê-lo com ironia, precisão e sofisticação. Em suas mãos, o jeans ganhou status de artefato cultural, provando que, na Dior, até o denim pode vestir um herdeiro imaginário do século XVIII.
Fonte: Ana Gimonski | Foto: Divulgação














