A Moda pela Água comemora primeiro ciclo em evento online

A plataforma A Moda pela Água, criada pela ECOERA e sob o comando de Chiara Gadaleta, promoveu o webinar “A moda do século XXI precisa falar sobre a água” na última semana. O evento comemora o fechamento do primeiro ciclo da plataforma e ao Dia Mundial da Água.

“O evento celebrou o Ciclo 1 das empresas ‘Guardiãs da Água’ e também trocamos experiências, saberes e soluções efetivas em prol de nossas águas”, afirma Chiara. Ao todo, trinta convidados de diferentes segmentos discutiram ainda sobre o papel da moda no cenário atual do mundo e como se unir para se fortalecer pós-pandemia do Covid-19.

“Fechamos o dia com a certeza de que estamos no caminho certo, seguindo do EU para o NÓS e espalhando boas práticas”, comenta Chiara.

A Moda pela Água conecta empresas (produtores de algodão, tecelagem, lavanderias, confecções e magazines), consumidores e ONGs na busca por soluções para o desperdício da água em um espaço de interação entre esses públicos. Todos se tornam “Guardiões da Água”.

Chiara iniciou as discussões apontando como a cadeia de moda é enorme e que há uma grande dificuldade de rastrear esse caminho. Por isto, é preciso se unir em prol do consumo consciente. “Todos nós somos responsáveis pela maneira como a gente consome”, disse Chiara.

Ela contou ainda que, no primeiro ciclo, usaram o jeans como protagonista. Em parceria com a Vicunha Têxtil, foi criada a Pegada Hídrica que calculou quantos litros de água são usadas na produção de uma calça jeans, desde o plantio do algodão até a lavagem em casa.

A conexão entre têxteis, magazines, confecções, produtores, lavanderias e consumidor final foi muito produtiva, principalmente, porque a cadeia de moda se contagia com boas práticas.

“Esse coletivo de empresas fomentou discussões e usou a criatividade a favor do meio ambiente e da comunidade. A Moda Pela Água criou, pela primeira vez na história da moda nacional, um canal de comunicação onde todos compartilham da mesma missão: repensar o uso do recurso hídrico em toda a cadeia”, afirma Chiara.

Atualmente fazem parte do grupo Guardiões da Água: Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Sou De Algodão, Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Damyller, Farm, Grupo Lunelli, H20 Company, Iniciativa Verde, Marisa e Vicunha.

A moda em meio ao Covid-19

Segundo Chiara, a pandemia traz uma mudança no comportamento do consumidor e de toda a cadeia de moda, com pensamento que sai do eu e caminha para o nós. “Agora isso ficou urgente. Sustentabilidade que parecia uma tendência agora é fato”, afirma Chiara.

Novas conexões vêm surgindo em épocas de isolamento. Com o distanciamento social, estaremos ainda mais conectamos virtualmente e é hora de espalhar informações corretas e relevantes.

Outra dica importante é se manter atento a Geração Z, que normalmente compra com propósito, com foco no “Be Yourself” e “Save The Planet”. Essa galera somente consome de marcas transparentes e que se importam com o seu consumidor e as pessoas.

Pacto Global e a agenda 2030

Diretor executivo do Pacto Global ONU Brasil, Carlo Pereira comentou sobre a importância da Agenda 2030. Para ele, o Brasil tem um tempo um pouco maior para reagir contra o Covid-19 e aprender com o que anda acontecendo pelo mundo. Além disso, a crise traz um sentido de solidariedade e coalisão no setor privado.

A Agenda 2030 vem pautada pela ODS, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (reunidos pela Nações Unidas do Brasil), e deve ser aplicada em todo o país. São eles: erradicação da pobreza, fome zero, boa saúde e bem-estar, educação de qualidade, igualdade de gênero, água limpa e energia acessível e limpa.

A lista continua com emprego digno e crescimento econômico, indústria, inovação e infraestrutura, redução das desigualdades, cidades e comunidade sustentáveis, consumo e produção responsáveis, combate às alterações climáticas, vida embaixo d’água, vida sobre a Terra, paz, justiça e instituições Fortes, e também parcerias em prol das metas.

Moda e Meio Ambiente

O painel “Moda e Meio Ambiente, Sustentabilidade, Seus Mitos, Possibilidades e Promessas” trouxe a participação de Silvana Heilmeister, da Harper´s Bazaar, Gustavo Silvestre, do Projeto Ponto Firme, o stylist Dudu Bertholini, Giovanna Nader, do Projeto Gaveta, e Jackson Araujo, jornalista e diretor criativo do Projeto Trama Afetiva, iniciativa criada pela Fundação Hermann Hering com foco na economia circular como forma de repensar a moda. Houve também a presença da professora Tita, que realiza um programa dentro da Universidade de São Paulo para o upcycling de resíduos têxteis, além da mediação da jornalista Andrea Vialli.

O stylist, estilista e comunicador Dudu Bertholini destacou que esse momento nos faz pensar como a moda pode se tornar em um agente transformador. “Tudo vai mudar, é um momento de repensar quem somos como marca, consumidores e ser humanos”, afirma Dudu. Ele destaca como válidas as iniciativas como upcycling, brechós, uso de peças vintage, troca ou aluguel de roupas, como opções que se fortalecem cada vez mais.

Giovanna Nader, criadora do projeto Gaveta, de troca de roupas, disse que a grande missão hoje é usar a moda para olhar todas as questões ambientais, um fio condutor para impactar as pessoas. “As marcas estão meio perdidas nesse momento, tem algumas, como a Patagonia que fechou o site porque disseram que não há clima para comprar”, comenta Giovanna.

Silvana Heilmeister da Harper´s Bazaar afirmou que o consumidor começa a ficar mais preocupado com a origem de suas roupas, mas ainda falta informação e transparência sobre elas. Para Silvana, as empresas podem sim enxergar diferentes oportunidades em épocas de crise.

Empresas Guardiãs da Moda

No painel “O setor unido em prol de uma causa” contou com a presença de alguns Guardiões da Moda como Lojas Marisa, Damyller, Abrapa, Abit, Vicunha Têxtil e YD Confecções.

Segundo Chiara, muitas empresas criaram um setor de sustentabilidade a partir da “Moda pela Água”. Além disso, aconteceram diferentes ações para chamar atenção do público final sobre o consumo consciente e responsabilidade social. A Marisa, por exemplo, vem trabalhando forte esses pontos em todos os elos da cadeia.

Já na Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) antes não havia uma conversa entre a cadeia, com fiação, tecelagem e consumidor. Atualmente, acontecem muitas iniciativas nas fazendas de algodão como a recuperação do meio ambiente e o comprometimento com os funcionários e comunidades do entorno. O compromisso é contribuir com a cadeia e levar informação da rastreabilidade de seu algodão.

Chiara acha importante comunicar o consumidor final acerca de todas as informações sobre a cadeia de valor para que ele possa fazer boas escolhas.

Andrea Fernandes Martins, gerente-geral de marketing e inteligência de mercado da Vicunha, afirmou que a têxtil emprestou sua tecnologia para a Pegada Hídrica no primeiro ciclo e que agora essa discussão sobre a água precisa chegar aos consumidores, ganhar outras proporções. “Precisamos ter uma agenda ao longo do ano para fazer com que o consumidor entenda todos os processos daquela peça”, afirmou.

A YD Confecções, private label com foco no denim, já trabalha a sustentabilidade há algum tempo com tecidos ecologicamente corretos, utilização de menor quantidade de água e produtos químicos em lavanderia, além de outras ações.

Damylla Damiani, consultora de estilo da Damyller, afirma que a marca cuida de todo o processo oferecendo um produto correto que causa menos impacto ao meio ambiente. “Participar deste projeto (A Moda pela Água) nos faz mostrar essas práticas e aprender com essas empresas”, comentou Damylla.

A consultora acredita que o consumidor ainda tem que ser ensinado no consumo de moda mais consciente, isto porque, muitas vezes, ele questiona o valor de um jeans, por exemplo, mas não sabe quais são os processos pelos quais ele passou, incluindo aí todas as condições ideais de trabalho dos colaboradores. “É importante salientar que além de não deixarmos resíduos, nossos colaboradores e funcionários também têm esse pensamento de dentro para fora, de causar menos impactos ao meio ambiente”, finaliza.

Fernando Pimentel, presidente da Abit, apontou que a associação está engajada com a agenda sustentável e acredita que daqui a algum tempo levar essa informação ao consumidor não será mais um motivo para de diferenciação mas também obrigatoriedade. “O grande público ainda não tem essa visão sobre sustentabilidade, isso é um caminho ainda a ser seguido”, comentou Fernando.

Rastreabilidade na moda

O painel “Rastreabilidade: Início de uma moda transparente” contou com a participação de Claudio Bicudo da H2O Company, Juliana Picoli da Fundação Getúlio Vargas, Marcio Portocarrero da Abrapa, Dari Santos do Instituto Alinha.

 Marco Portocarrero, da Abrapa, contou que 99% do algodão (1% é orgânico) é rastreado através de uma etiqueta que contém um código de barras, no qual é possível verificar desde o nome do produtor e da fazenda até as características do produto como cor e comprimento. Esta é uma garantia de transparência. “O cliente já sabe o que está comprando e o que está dentro do fardo. Ele ainda tem condições de controlar todo o caminho do algodão e se houver algum problema pode entrar em contato com o produtor”, afirmou.

Juliana Picoli, da Fundação Getúlio Vargas, acredita que falta ainda ao consumidor um pensamento de análise de ciclo de vida do produto, mas que daqui a pouco ele começará a perguntar sobre qual o impacto ambiental de sua roupa.

Claudio Bicudo, da H2O Company, disse que as empresas que querem fazer bem feito saem na frente. Além disso, ele afirma que o consumidor voltará diferente pós-Covid-19, ele estará mais atento e preocupado com o produto que adquire.

O webinar ainda apresentou o painel “A Moda e suas alternativas para os Micro Plásticos” com Giuliana Moreira, da GT Água/ONU Pacto Global, Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica, José Guilherme Teixeira, da Cotton Move, Angelo Lima, do Observatório das Água, Flavia Aranha, da marca de mesmo nome, e Antonio Queiroz, assistente executivo da presidência na Cetesb. A mediação foi de Chiara Gadaleta.

Por fim, o evento online contemplou o painel “Parcerias inovadoras em prol da Água na Moda”, com Marcel Yoshimi Imaizumi, da Vicunha, e Marussia Whately, do Instituto Água e Saneamento.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Divulgação