A trajetória de inovação e autenticidade compartilhada por François Girbaud

Tratando-se de jeanswear, olhar para a trajetória histórica do produto é sempre um ritual enriquecedor. E quando podemos conciliar esse olhar com construção de marca, avanços de mercado e até mesmo evoluções do modo tradicional para o sustentável, encontramos um material completo para reflexão. Foi por essa razão que trouxemos François Girbaud, como convidado internacional para integrar a programação do Denim Meeting 2019. Com o tema Trajetória de Sucesso, nossa intenção foi proporcionar um aprendizado sobre a grande influência que a marca Marithé+François Girbaud agregou à moda jeanswear atual.

François iniciou sua narrativa com muita autenticidade, mostrando uma foto do início da sua trajetória, nos anos 60, e contando em tom bem-humorado que seu nome com frequencia era confundido com o nome de Marithé. Uma confusão que de acordo com ele, é frequente já que a marca reúne ambos na nomenclatura. François compartilhou com os ouvintes, o quanto a musica foi uma grande influencia inspiracional para ele e para a o mundo como um todo, destacando que na época os valores de liberdade que vinham com o rock também disseminavam a cultura americana como uma influência quase inevitável. Ainda na lista de referências, citou a série Les Chevaliers du Ciel, que na época – final dos anos 60 e início dos anos 70 – era apresentada em preto e branco na França. Logo ao começar a fabricar calças, nos anos 70, François já tinha muito claro em sua mente, o ideal de produzir jeans com uma estética diferenciada dos Americanos.

“Marithe e eu começamos a fazer calças mas não queríamos fazer o jeans como os Americanos da Lee ou Wrangler. Por isso fomos tão diferentes”, contou.

Já nos anos 60 a dupla realizou sua primeira inovação produzindo calças com influência na indumentária das marinas de navegação. Mas também com o diferencial do botão triplo na perna. Também lembrou que introduziu matéria prima chinesa em suas coleções, com imenso alcance e adesão. Apresentou aos ouvintes a evolução das silhuetas e contestou sua classificação como criador do stone washed: “o que nós inventamos foi a industrialização do processo de lavagem”, argumentou. François comentou que ao adotar a prática de lavar o jeans poderia trabalhar o rompimento das costuras e seus efeitos. Também falou das múltiplas influências que foram convertidas em inovação em suas criações, destacando que mesmo as absorvendo, nunca deixou de “ser francês” em suas inovações.

“Tivemos a influência da França, estávamos indo muito bem Marithe e eu”, comentou. Até que chegamos nos anos 80 e realizamos criações com acabamento over dye. E então fomos copiados e copiados e aquele visual fez um grande sucesso. No traçado da sua linha do tempo evolutiva, Francois também mencionou o Chambray, que até então era apenas utilizado para camisa: “fizemos a provocação e usamos também para as calças”, contou.

Ao longo da sua narrativa François mencionou também a inspiração nas nas roupas de neve, a participação em 1983, na Compagnie dês Montegnes e em 1985, seus experimentos com o jacquard.

Em 1977 decidimos amarrar a cintura, então surgiu a paper bag. Em 1983, citou a visibilidade que Jennifer Beals, do filme Flashdance, conferiu ao seu trabalho. “Foi caro mas as pessoas pagavam para ver a garota do flashdance e não François.”

A Pedal Pusher, referência que está sendo resgatado nas coleções também foi mencionada como uma evolução muito importante da sua trajetória. “Não fizemos jeans como Americanos, nem como a Levis: era 1982 e ninguém usava essas técnicas”.

François também mencionou a coleção African Waist Line, da campanha Closed de 1986, apontando sua contribuição inspiradora de brincar com a posição da cintura e dos bolsos. Também a Campanha Intermix em 2006, que usou o laser como parte do processo. Adentrando em exemplos mais recentes, citou a campanha Mouvement Stripes, em 1991 destacando que a liberdade de movimento no jeans, hoje tão valorizada, já em 1993 era seu tópico. Citou também seu trabalho em parceria com a Jeanologia e algumas campanhas que marcaram a introdução da técnica do laser como a Imajean. Em seguida abordou suas campanhas, como a Mutation, de 2010 que criticou as mortes geradas pela disputa do petróleo. Também a sua campanha que recria uma cena inspirada na santa ceia, em 2005, onde Jesus Cristo é uma mulher. “Foi um choque pela forma como mudou a pele, foi interpretado como pornografia”, desabafou.

“Quero salvar o mundo, mas não consigo, pois as pessoas mostram a lavagem ácida em Paris”, alertou. “Precisamos parar de usar permanganato”, enfatizou.

A trajetória de um estilista que tornou da sua própria personalidade, um case para o mercado azul provocou reações inesperados tanto no público ouvinte quanto no próprio convidado. Entre elas, a ruptura da expectativa de ouvir apenas a narrativa da linha do tempo evolutiva de François, e se deparar com defesas fervorosas sobre mudanças radicais e urgentes para o setor da moda como um todo.

Refletindo sobre todas as informações colocadas por Girbaud, a Professora Doutora Maria Carolina, diretora de internacionalização e BA Creative iniciou sua participação na palestra como mediadora. Em suas falas, Maria Carolina enfatizou que o ‘Case’ do estilista nos ensina a olhar para si: “a dupla decidiu que não iria copiar o jeans americano e seguiu seu ideal. Aprendemos e ganhamos a missão de nos transformar e continuar esse trabalho. A transformação é essencial todos os dias”, concluiu.

Abordando um dos tópicos que François mais depositou energia em suas declarações, Carol perguntou sobre a incoerência e inconsistência das mídias sociais digitais em espalhar informações contrárias à responsabilidade, acrescentando sua percepção como educadora. “A escola deveria colocar em pauta esta discussão.” comentou. “Não é apenas uma discussão que aborda moda, mas também as pessoas, e em como podemos educar as pessoas para se importar mais com o meio-ambiente”, concluiu.

“Mesmo que digamos que não queremos mais usar química, o próprio processo de fiação demanda químicas”, comentou Girbaud.”Temos que enfrentar um novo mundo”, alertou.

Instruir-se no passado, para desenhar um novo futuro, rompendo com as práticas habituais. Este foi como Maria Carolina brilhantemente identificou, o maior legado deixado pelo estilista: algo que François praticou diariamente. Talvez algumas falas enérgicas tenham causado estranhamento na platéia. Mas a trajetória do estilista mostrou que muitas de suas defesas, ao longo de sua carreira, provocaram igual reação. Que estamos vivendo momentos de transformações nada sutis todos concordam. A apologia deixada por François, foi uma convocação a colocar em prática no agora, todos esses ideais, que flutuam apenas em falas de um futuro distante. Não temos tempo, este foi um dos seus argumentos repetidos com fervor e frequência maior. Entre polêmicas e aceitações, nos sentimos honrados em conhecer de perto, essa fatia da história do jeans, que se confunde com uma personalidade tão singular. Glad to meet you, François!

Fonte: Vivian David | Foto: Equipe Guia JeansWear