Amélia Malheiros compartilha ‘lado iluminado’ da moda na Economia Afetiva

A indústria da moda está engatinhando para uma visão mais nobre e madura de mercado. Aquela que mensura junto ao valor do produto, seus atributos invisíveis: desde a procedência, até a bagagem emocional e ética empenhada para sua concretização. Nesse caminhar apressado dos avanços tecnológicos, e da produção automatizada o consumidor reage em busca de “ser mais humano”, questionando histórias, valores e rastreando vestígios de respeito e humanidade nos bens que consome. E quem sabe não seja este, o verdadeiro norte para inovação na industria têxtil brasileira, onde a mão de obra artesanal e o senso de comunidade é tão abundante.

Empresas grandiosas tem investido nessa visão, incluindo junto à suas atividades verdadeiras “startups” internas, confiadas para promover essa tão anunciada ruptura no paradigma produtivo. Uma delas é a Cia. Hering, uma empresa com história na indústria têxtil nacional, presença forte tanto na vida quanto no imaginário das pessoas. Desde 2016, a companhia tem inspirado profissionais e criadores através do projeto Trama Afetiva, reunindo diferentes olhares, diferentes perfis e influências ligadas à moda ou mesmo à comunidades – todos em prol de um momento criativo e fluente para repensar o consumo, ressignificando sobras de manufatura, e convertendo-as em lindas coleções (ou seriam soluções)?

Com iniciativa da Fundação Hermann Hering, direção criativa de Jackson Araújo e Luca Predabom, o projeto vem crescendo, irradiando e apologizando o foco na verdade e no fator humano como um caminho iluminado para geração de valor. Para conhecer um pouco mais desse projeto, convidamos a diretora técnica da Fundação Hering, Amélia Malheiros, que vem palestrando e compartilhando as aprendizagens e vivências obtidas com o projeto em diversos eventos influentes para a moda. Entre eles, o Denim Meeting SP, quando tivemos a honra de conhecer com profundidade e admiração maior as bases do projeto e o conceito de Economia Afetiva.

Guia Jeanswear: Nossa primeira pergunta é na verdade um espaço para que você compartilhe com nossos leitores, qual a principal motivação que levou a FHH a iniciá-lo e manter sua continuidade ao longo das edições.

Amélia Malheiros:Meu pai me criou e sustentou meus onze irmãos catando “ferro velho” nas ruas de Blumenau-SC. Então eu tenho essa influência de ver os descartes como possibilidade, embora naquela época não se associasse esse tipo de atividade à sustentabilidade; e sim a uma questão de sobrevivência. Além disso meu primeiro emprego foi na Artex, onde existia um programa completamente inovador para a época, chamado falta zero: o funcionário que não faltasse durante o mês de trabalho, recebia como uma espécie de gratificação, cortes de tecido que não estavam encontrando giro na produção.

Se pensarmos era uma ideia completamente inovadora para a época – ano de 1979 quando não se pensava na otimização de recursos no viés da sustentabilidade. Então eu trago essa bagagem comigo, como um legado, e na companhia Hering assim como em toda indústria da moda, já percebia oportunidades para lidar com esse tema. Sentia que poderíamos reaproveitar, ressignificar ao invés de descartar. Em 2015, tomando café com o Jackson Araújo, descobri que ele tinha a mesma inquietação. Queríamos fazer algo maior. Então nos unimos para fazer o projeto. Inicialmente Jackson pensou em Trama Urbana, e rebuscando a ideia e o conceito chegou à nomenclatura e ao formato ideal, dessa Trama Afetiva.

GJ: Desde a primeira edição em 2016 até a mais recente em 2018, quais foram os avanços mais importantes, em termos de repercussão do projeto, identificado nas indústrias de atuação dos profissionais e/ou estudantes que passaram pelo projeto? E na própria Cia. Hering?

AM: Assim que Jackson e eu conseguimos a aprovação para realizar o projeto, mobilizamos todos os contatos influentes, ligados à expertise, e que pudessem somar conhecimento e validá-lo, tirando o projeto do papel pois não existia um orçamento para o mesmo. Tivemos o cuidado de unir pessoas com bagagens diferentes para criar uma experiência totalmente colaborativa: desde nomes conhecidos até representantes de comunidades; desde estudantes em início de carreira a profissionais renomados. Na primeira edição, contamos com o engajamento de Alexandre Hercovich, Marcelo Rosenbaum, Patricia Centurion e o Cardume de Mães.

O objetivo era selecionar jovens designers para que eles criassem, sob a tutela dos mentores, novos produtos com a sobra do corte de jeans da Cia. Hering. Recebemos 342 inscrições – inclusive de profissionais de outros países. Selecionamos 10 jovens. Logo na segunda edição, o projeto recebeu 443 inscrições, de profissionais interessados em refletir consumo e upcycling. Hoje estamos indo além da ideia de reciclagem de tecidos, olhamos para o ser humano no centro desse processo.

É uma visão mais abrangente do tema, são mudanças de comportamento em relação ao descarte de alimentos, e de muitas outras sobras. Assim como, da invisibilização do próprio homem nessa sociedade pouco inclusiva. Desde a sua criação o Trama Afetiva vem crescendo, principalmente pelo compartilhamento do aprendizado que construímos através dele. Participamos de eventos como o M.A.D.E – Mercado.Arte.Design, o Festival MECAInhotim, realizamos exposições em shoppings em Santa Catarina, participamos da 2ª edição do Brasil Eco Fashion Week, e do próprio Denim Meeting, em março deste ano.

GJ: Alguma das soluções de reaproveitamento de resíduos criadas no projeto encontrou caminhos para aplicação no chão de fábrica?

AM: Além de prover inspiração para nossas produções, os produtos criados no Trama Afetiva inspiraram a coleção Retrama. Uma nova linha que temos desenvolvido com uma cooperativa local e que  pode se tornar um lindo brinde corporativo afetuoso e sustentável. Também algumas bags / pochetes, desenvolvidas, tem sido usadas pelos times das Hering Store em todo Brasil.

GJ: Você acha que a inclusão da Economia Afetiva na indústria da moda nacional, poderia agregar valor ao Made In Brasil, se aproveitado com maior sabedora pelas grandes confecções?

AM: Acredito muito nisso, na economia afetiva como uma forma de geração de valor e defendo o “Made in Brazil”. Mas alerto que para a correta aplicação dessa visão, é preciso entender que economia afetiva visa criar uma relação de ganha x ganha x ganha, onde o ser humano, a indústria e o planeta possam ganhar. Na sociedade atual o conceito de troca e geração de valor precisam evoluir para um capitalismo mais consciente e aí a economia afetiva entrará como novo drive.

GJ: Você acha que é possível colocar em prática as ressignificações de roupas descartadas também nas grandes companhias, integrando uma parcela mais importante da produção?

AM: Sou pragmática quanto a esta questão. No Brasil, eu ainda não vejo alguém implementando completamente esse conceito em sua logística. Acho que essas mudanças de comportamento que afetam a toda sociedade podem ganhar força através de política públicas de leis e regulamentos que demandem ações mais concretas. O futuro já chegou e está nas nossas mãos, enquanto consumidores, indústria e poder público buscar equilíbrio e soluções, mas é possível eu creio.

Fonte: Vivian David | Fotos: Divulgação