Desejo: este sempre foi o motor que definiu a organização do calendário de moda oficial. Quando ele surgia do topo da pirâmide, com os criadores da alta costura lançando um novo formato, e os olhos do público aguardando o tempo hábil necessário para o consumo em massa através do ready-to-wear; nasceu a lógica de lançar propostas com seis meses de antecedência para a indústria. Quando o lifestyle global se acelerou; e a ânsia pelo consumo tornou-se mais imediata, o fast-fashion somou velocidade ao mercado com suas coleções ligeiras e semanais. E hoje, tempos em que tanto os lançamentos das grandes grifes, quanto o varejo são expostos just-in-time a nível global por todos os caminhos digitais possíveis; ele, o desejo, tornou-se muito mais alinhado ao tempo real de exposição na internet do que ao prazo estabelecido até então, já que o ato de comprar encontra-se separado pela breve distância de um mero clique.
Então se antes a paixão pelo consumo de moda era causada pelo assédio do produto exposto no ponto de venda, hoje o famoso brilho no olho do consumidor é despertado no exato momento em que as apresentações são veiculadas na internet: ou seja, em tempo real. E não existe sacada comercial mais assertiva, do que oportunizar a comercialização das peças alinhada à presença deste impulso. Este, é o grande desafio que tem motivado debates acerca da organização do calendário de moda, primeiramente em Nova Iorque, e mais recentemente em Londres, local onde grandes varejistas como Burberry já começam a adotar alterações visando oportunizar os produtos no ponto de venda imediatamente após as apresentações. A mudança anunciada pela grife no dia 5 deste mês, veio acompanhada também da declaração de que as denominações das coleções por temporada de inverno ou verão não será mais utilizada, já que as próprias estações já não são mais tão definidas. Também outros estilistas manifestaram a adoção de alterações tendo em vista a adaptação às mudanças no calendário; entre eles Tom Ford, Marc Jacobs, Donatella Versace e Tommy Hilfiger.
Mas as mudanças no ciclo da moda não são manifestos exclusivos do cenário internacional. Em solo brasileiro, temos o case bem sucedido do alinhamento entre as tendências oferecidas nas novelas – cuja influência para o território nacional equivale à dos desfiles para a moda global – e sua disponibilidade praticamente instantânea em locais de venda popular, como o Brás. O que aparece nos folhetins, resulta em procura real nas ruas: cientes desta realidade, as confecções nacionais buscam oferecer as peças expostas na novela, em formatos adaptados não apenas para a classe C mas também para as classes A e B; valendo-se de variações de tecidos que permitem encarecer ou baratear as propostas. Acostumados com este ritmo, os lojistas brasileiros adaptaram-se ao tempo de duração de 7 a 9 meses de uma telenovela, aproveitando-o para acelerar o giro de roupas e acessórios. Trata-se de um ciclo que em sua essência manifesta lógica semelhante à que vem modificando o cenário global, na medida em que fundamenta toda sua logística de produção e distribuição tendo em vista o aproveitamento do marketing no momento em que ele realmente acontece.
Enquanto o comércio brasileiro já demonstra flexibilidade e antecipação, os desfiles ainda seguem o antigo modelo, que agora começa a ser repensado. As mudanças no calendário de moda internacional passam a ocorrer a partir de setembro deste ano, começando por Nova York. Mas as transformações nos modelos de produção e varejo do vestuário, estão apenas começando a se desenhar. O novo ciclo que será formatado agora volta todas as suas atenções para a formulação de uma logística que permita a oferta dos produtos no exato momento em que os mesmos ganham exposição e viralizam para o consumidor. O que trocando em miúdos, equivale ao mesmo espaço de tempo necessário para o tráfego de dados de uma imagem pela internet e seus incontáveis apps: ou seja, imediatamente.
VIVIAN DAVID | IMAGENS: REPRODUÇÃO









