Congresso Internacional Brasil 2026 discute sobre o futuro e suas transformações nos setores têxtil e de confecção

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) realizou entre os dias 14 e 15 de outubro, no Centro de Convenções de Fortaleza, no Ceará, o 11º Congresso Internacional Brasil simultaneamente a 41ª IAF World Fashion Convention e a Conferência Anual da ITMF reunindo lideranças empresariais, autoridades e representantes de entidades nacionais e internacionais.
A convenção tem como foco a indústria têxtil e de confecção e suas transformações diante de mudanças geopolíticas, tecnológicas, regulatórias, ambientais e do comportamento do consumidor.

Na abertura, Ricardo Steinbruch, presidente do Conselho de Administração da Abit, destacou a importância da cooperação internacional e de condições equilibradas de concorrência para fortalecer a indústria brasileira.

“A Abit defende um comércio internacional aberto, baseado em regras equilibradas e transparentes. A integração dos mercados precisa caminhar com condições justas de concorrência, responsabilidades equivalentes e respeito aos compromissos tributários, trabalhistas e ambientais. Essa previsibilidade é essencial para quem investe, produz e gera empregos”, afirmou. Ricardo disse ainda que o Brasil precisa avançar em soluções para os altos custos que prejudicam os negócios. E, finalizou: “O futuro está em movimento, cabe a nós participar de sua construção”.

O presidente da ITMF, Juan Parés, abordou os desafios da indústria têxtil mundial e as oportunidades proporcionadas pelas novas tecnologias. “A inteligência artificial, a digitalização, a automação avançada e os novos materiais estão abrindo possibilidades que pareciam inimagináveis há poucos anos. Mas a tecnologia, por si só, não pode garantir o progresso”, destacou.

Na sequência, Stefano Festa Marzotto, presidente da IAF, defendeu maior colaboração entre os diferentes elos da cadeia produtiva. “Hoje esperamos que os fabricantes sejam mais rápidos, flexíveis, sustentáveis e transparentes, mantendo os preços baixos. Mas cada investimento tem um custo, e não se pode esperar que os fabricantes absorvam tudo isso”, afirmou.

Representando a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Neide Freitas, diretora de Industrialização Sustentável e Transformação Tecnológica, destacou a parceria com a Abit para um estudo inédito sobre resíduos têxteis industriais e pós-consumo. “O objetivo é produzir uma base nacional de informação e reunir elementos para orientar um modelo de logística reversa para o setor”, explicou.

Com o tema “Futuro em Movimento: Transformação, Inovação e Novas Realidades”, os palestrantes discutiram o posicionamento estratégico da indústria têxtil e de confecção brasileira no mercado global, considerando tanto questões já abordadas em edições anteriores quanto novos temas que surgiram no mundo e que impactam todo o ecossistema da moda.

No Painel 1 “A nova geografia da indústria e as oportunidades para as economias emergentes”, Marco Branquinho, diretor presidente da Vicunha, falou sobre as transformações globais e como pode traduzir concretamente para a indústria têxtil e de confecção e disse que o Brasil pode ganhar relevância, mas precisa mostrar de forma efetiva, a capacidade de entrega aos seus clientes. “A Ásia vai continuar sendo o centro da produção mundial, mas o Brasil tem grande potencial também, temos uma cadeia integrada, com uma atividade têxtil de mais de 150 anos e somos o maior produtor de algodão do mundo, mas ainda temos um longo caminho a percorrer”.
Varun Vaid, diretor-executivo da Wazir, destacou que a redistribuição da produção mundial depende de fatores que vão além dos custos de mão de obra e das mudanças tarifárias. Ao analisar o posicionamento do Brasil, apontou a integração da cadeia produtiva e a dimensão do mercado consumidor como vantagens competitivas, mas ressaltou o elevado custo do financiamento como obstáculo à atração de investimentos industriais de longo prazo.

Robert P. Antoshak, representante da Grey Matter Concepts, abordou as mudanças nas estratégias globais de fornecimento, cada vez mais orientadas pela diversificação e pela gestão de riscos. O executivo destacou oportunidades para o Brasil e outros países latino-americanos, especialmente pela proximidade com o mercado norte-americano e pela possibilidade de reduzir os prazos de entrega. “A região deve competir em velocidade e previsibilidade, não em preço”, ressaltou.

Chen Hao, secretária do Conselho de Administração e gerente-geral do Centro de Mercado de Capitais da Bosideng, apresentou a experiência da empresa chinesa no desenvolvimento de produtos especializados e na construção de marcas. A executiva destacou a importância do conhecimento do consumidor, da colaboração internacional e das práticas ESG para ampliar a competitividade. “Uma empresa pode contribuir com design especializado, conhecimento sobre materiais ou sobre seu mercado doméstico. A oportunidade depende do valor que ela pode agregar à relação”, afirmou.

Sustentabilidade em foco
A sustentabilidade aparece como um dos eixos centrais do congresso, junto com inovação e oportunidades de mercado. A própria IAF destaca que tecnologia, sustentabilidade e mudanças econômicas estão redefinindo a forma como o valor é criado na cadeia têxtil e de moda.
Nesse contexto, ganham importância temas como circularidade, rastreabilidade, novos materiais, eficiência produtiva e adequação às novas regulamentações ambientais.

O segundo painel, “Futuro das fibras” trouxe a importância de se combinar conforto, desempenho, funcionalidade e sustentabilidade. A expectativa é de que, nos próximos anos, a sustentabilidade deixe definitivamente de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito básico em toda a cadeia produtiva, tanto para fibras naturais quanto para fibras químicas. Nesse cenário, o consumidor deverá valorizar cada vez mais produtos confortáveis, duráveis, fáceis de cuidar e produzidos de maneira responsável.

Carlos Fernandes, Presidente do Conselho da ABRAFAS disse que 57% das fibras utilizadas, são químicas, elas têm vários atributos e, cada vez mais surgem novas tecnologias na utilização de produtos mais sustentáveis como energia renovável, reutilização de resíduos têxteis, rastreabilidade e circularidade, certificações e regulamentações que são muito importantes. O grande desafio é produzir uma economia circular em escala.
“O Brasil quer ser protagonista do mercado de fibras químicas sustentáveis”, disse Carlos. E a projeção para o futuro é o aumento da reciclagem dos produtos têxteis e maior escalabilidade. “O futuro não será sem fibras químicas, mas com fibras químicas diferentes, sustentáveis e nacionais”, finalizou Carlos.

Já Fernando Prudente, diretor executivo da Bayer falou sobre a importância das mudanças que vem acontecendo e como evoluir juntos trazendo mais sustentabilidade e retorno para a cadeia. Ele disse ainda que somente 0,2% de área no Brasil é utilizado para o plantio do algodão e, isso deve aumentar, sendo que o padrão de qualidade do algodão brasileiro vem se mantendo. “Devemos pensar juntos, em novas formas de se utilizar o algodão. Nós, como indústria de sementes, estamos trabalhando incansavelmente para inovações e novas funcionalidades para reforçar essa fibra que é natural e sustentável”, declarou Fernando.

Haroldo Cunha da ABRAPA afirmou que a indústria trabalhou em 2025 com 139 milhões de fibras, sendo que somente 18% era algodão. A indústria têxtil brasileira é a quinta maior do mundo e a segunda maior cadeia de empregos no Brasil. Então, como recuperar espaço do algodão, dentro desse mercado? Para o profissional é importante manter uma produção responsável, sócio-ambiental, a rastreabilidade e novos usos para o algodão. Além disso, trabalhar a percepção de valor para o consumidor e a ABRAPA vem investindo em diferentes ações como código de barras para a rastreabilidade, o projeto Sou de Algodão, entre outros.
Eduardo Ferlauto, diretor de sustentabilidade das lojas Renner disse que o magazine é a maior empresa de varejo omnicanal e que há necessidade de uma maior pressão social para buscar a sustentabilidade nos produtos, pois o consumidor influencia numa jornada sustentável quando adquire produtos de qualidade e durabilidade, a importância dos selos e certificações. E a pergunta, atualmente é – quem não é sustentável?

No painel “Novas expectativas, dados e mudanças de comportamento de mercado imprevisível”, Mariana Santiloni da WGSN Latam falou sobre as macrotendências para 2028, que será o ano Delta, de mais união, um olhar para os diferentes contextos e uma relação mais positiva com a IA. “Saímos de uma era de pensar isso ou aquilo, para isso E aquilo”, disse Mariana. Segundo a profissional, até 2028 não teremos um consumidor padrão, comum e, Mariana destacou os Otimizadores: otimistas, gostam de novas tecnologias mas que façam bem para eles, não somente pela tecnologia em si. No Brasil, 60% dos consumidores se sentem mais otimistas quanto ao futuro, na China, são 61%. Já 71% da população brasileira usa a IA no fluxo de trabalho deles e esperam que o varejo esteja integrado com a Inteligência Artificial. Dentro desse contexto, é necessário pensar em como vai recompensar a fidelidade do público.
Cacau Moraes da Insider Store falou sobre sobre canais de vendas e a importância da base de dados e Fabio Davidovici apresentou a sua marca Aramis e o crescimento da empresa.
O Painel discutiu como as empresas podem entender e antecipar um consumidor que muda cada vez mais rapidamente. E é aí que entram dados, personalização, tendências, novos canais de venda e mudanças na relação entre consumidor, marca e produto.

“Brasil: capacidades, cadeia de valor integrada e oportunidades de investimento” foi o tema do Painel 7 onde participaram Rodolfo Margato, vice-presidente de Pesquisa Econômica da XP Investimentos; Marcelo Prado, diretor do IEMI – Inteligência de Mercado; Fábio Marimon, gerente da Unidade de Competitividade do Sebrae Nacional, eLaurent Aucouturier, consultor da Gherzi Textil Organisation AG.
Rodolfo Margato destacou o cenário internacional desafiador, marcado por choques de oferta, inflação e juros elevados. Apesar das incertezas, considera que o Brasil apresenta vantagens relativas devido à distância dos conflitos internacionais, à neutralidade diplomática e às exportações de commodities.
O executivo também alertou para a desaceleração do varejo e dos serviços, o endividamento das famílias e os juros elevados, que inibem investimentos. “Até meados de 2027, o cenário deve continuar difícil. Não se prevê recessão, mas a perspectiva é de desaceleração”, ressaltou.

Marcelo Prado apontou o potencial do algodão, da viscose e do poliéster-viscose para ampliar investimentos e agregar valor à produção nacional. Segundo ele, o desenvolvimento industrial exige políticas alinhadas às características da cadeia brasileira.
“O algodão é um dos segmentos que vêm sendo trabalhados de forma assertiva, com resultados muito importantes”, afirmou Prado, observando que 59% da produção têxtil e de confeccionados utiliza a fibra como principal matéria-prima.
Sobre o poliéster, defendeu investimentos para superar gargalos industriais. “O Brasil é o maior produtor mundial de madeira, matéria-prima para a produção de viscose. No segmento de poliéster, é necessário reduzir os gargalos do refino para transformar o petróleo brasileiro em produtos de maior valor agregado”, destacou.

O encerramento ficou a cargo de Monica Magalhães, futurista e fundadora da Moovers, com o tema “2075 – A arte de atravessar o tempo” que destacou a capacidade de identificar sinais de mudança no presente para que empresas e profissionais se preparem para o futuro. Segundo a especialista, a atenção excessiva às demandas imediatas pode dificultar a percepção de oportunidades e transformações que se desenvolvem ao longo dos anos.
“Viver o presente é orgânico para cada um de vocês. Viver o futuro tem que ser uma ação intencional”, afirmou.

A futurista também abordou a aceleração dos ciclos tecnológicos, especialmente com o avanço da inteligência artificial, e seus efeitos sobre modelos de negócio, processos produtivos e competências profissionais. Para Monica, acompanhar essas mudanças exige não apenas a adoção de novas tecnologias, mas também disposição para repensar estratégias e desenvolver novas formas de atuação.

Fonte: Vanessa de Castro – Fotos: Abit