Design circular é a solução para uma indústria têxtil mais sustentável

Segundo análise da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEA), têxteis têm, em média, o quarto maior impacto negativo do ciclo de vida no ambiente e nas alterações climáticas, a seguir à alimentação, habitação e mobilidade. O levantamento recente apontou os impactos que a produção e os resíduos têxteis têm no meio ambiente na Europa, e como o sistema pode ser mudado para melhor.

Entre as soluções para o atual cenário, a AEA colocou luz no design circular de têxteis para melhorar a durabilidade, a capacidade de reparo e a “reciclabilidade” do produto e para garantir a absorção de matérias-primas secundárias em novos produtos. A mudança exigiria inovação técnica, social e de modelo de negócios, bem como mudança comportamental e apoio político.

A AEA afirma que o design circular é um componente importante dos modelos de negócios circulares para têxteis. Ainda que seja importante permitir a reciclagem e a reutilização de materiais, as estratégias de prolongamento da vida útil, como design para durabilidade, facilidade de reutilização, reparo e remanufatura, devem ser priorizadas.

A prevenção do uso de produtos químicos perigosos e a limitação de emissões tóxicas e liberação de microplásticos em todas as fases do ciclo de vida devem ser incorporadas ao projeto do produto.

Vale destacar que, segundo a The Spin-Off, famílias europeias consomem grandes quantidades de produtos têxteis. Em 2019, tal como em 2018, os europeus gastaram em média 600€ em vestuário, 150€ em calçado e 70€ em têxteis para o lar.

A resposta à pandemia de Covid-19, envolvendo medidas de permanência em casa e encerramento de empresas e lojas, diminuiu a produção têxtil e a procura global. Com isto, o consumo de vestuário e calçado por pessoa diminuiu em 2020, face a 2019, enquanto o consumo de têxteis para o lar aumentou ligeiramente. O consumo médio de têxteis por pessoa foi de 6,0 kg de vestuário, 6,1 kg de têxteis para o lar e 2,7 kg de calçado em 2020.

Produtos duráveis e com longevidade

A garantia da longevidade e durabilidade nos produtos é o primeiro caminho para uma moda circular, com uma seleção cuidadosa de materiais durante a produção de têxteis. Vários princípios de design subjacentes entram neste cenário, como requisitos técnicos para solidez da cor e resistência do tecido e requisitos práticos de que as roupas sejam multifuncionais e adequadas à finalidade e que kits de reparo e/ou peças de reposição estejam disponíveis.

Contudo, não é apenas a introdução de materiais duráveis e ecologicamente corretos que irá alterar o cenário. As atitudes da indústria devem estar atreladas a mudanças no comportamentos de seus consumidores.

Sendo assim, o foco deve ser no design atemporal (slow fashion) para combater as tendências da moda em rápida evolução e no fornecimento de informações sobre o cuidado do produto e na oferta de serviços de reparo. Além disso, é preciso facilitar políticas para apoiar a longevidade e a durabilidade. Aqui incluem requisitos de design ecológico, esquemas harmonizados de responsabilidade estendida do produtor, instrumentos econômicos (como impostos sobre certos usos de materiais indesejados) e suporte para processos de produção desejáveis.

Otimizando recursos

É preciso também otimizar o uso de recursos para reduzir as pressões. As empresas do setor têxtil estão se concentrando na redução e otimização do uso de água e energia, emissões atmosféricas e poluição da água, usando produtos químicos seguros e materiais biodegradáveis ​​diversificados.

Além disso, os modelos de negócios baseados no acesso (em vez da propriedade tradicional) podem ter o potencial de aumentar o uso de produtos, reduzindo o uso de novos materiais e resíduos têxteis.

Na fase de produção, os princípios de ecodesign foram identificados para otimizar o uso de recursos. Isso inclui a redução de emissões, resíduos e insumos, como água, produtos químicos e energia, e a produção de fibras a partir de fontes renováveis ​​e/ou conteúdo reciclado. Os requisitos de projeto que certificam um conteúdo mínimo de material reciclado também podem otimizar o uso de recursos.

Vale destacar ainda que as medidas também precisam ser apoiadas por políticas. Esses facilitadores de políticas precisam apoiar a adoção bem-sucedida de modelos de negócios baseados em acesso, definir regulamentos sobre propriedade, transporte e comércio de têxteis (incluindo fluxos de resíduos) e promover incentivos regulatórios (como reduções de IVA ou responsabilidade estendida do produtor).

Reutilização de materiais e reciclagem

A coleta e a reutilização de têxteis aparecer como próximo passo no design circular. Para tal, são necessárias regulamentações específicas sobre o transporte e o comércio de têxteis coletados. Metas e incentivos regulatórios para atividades de reutilização e esquemas de responsabilidade estendida do produtor são caminhos a seguir que apoiam o investimento em capacidades de coleta, reutilização e reciclagem.

Hoje, apenas cerca de 20% dos consumidores compram regularmente roupas usadas, de acordo com uma pesquisa do ING de 2020. As plataformas online para comprar e vender roupas são cada vez mais populares, e algumas marcas e varejistas introduziram serviços de devolução e coleções pré-amadas. Ainda assim, o sucesso desses modelos de negócios alternativos depende de fatores como a imagem da marca e o estilo e qualidade dos produtos.

Transformar resíduos têxteis em matéria-prima para novos têxteis ou outras cadeias de produção também somam a equação. Contudo, devido a necessidades funcionais específicas (por exemplo, elasticidade), razões estéticas (por exemplo, uso de estampas ou camadas) ou razões econômicas (por exemplo, mistura de fibras naturais com fibras sintéticas mais baratas), outras considerações no processo de design geralmente têm prioridade sobre a reciclagem.

Com isto, quase um terço de todos os resíduos têxteis são inadequados para a reciclagem de fibra para fibra. Os produtos têxteis devem ser rotulados com os materiais e produtos químicos que contêm e se são puros ou mistos, pois os processos de reciclagem de têxteis têm requisitos de entrada diferentes.

Projetar e fabricar um produto para reciclagem só é eficaz se o ciclo estiver realmente fechado. Até agora, a maioria das roupas e têxteis domésticos usados ​​na Europa ainda são descartados em fluxos mistos de resíduos urbanos. A União Europeia, vale destacar, deve adotar a coleta obrigatória de têxteis em 2025.

Fonte: Redação | Fotos: Reprodução