Designers criam biomáscara com material obtido a partir de bactérias

A escassez de matérias-primas para produzir máscaras de proteção, como as FFP2 (ou N95 na norma americana), levou os designers Garrett Benisch e Elisabeth Bridges, do Sum Studio, a abordar a questão de um ponto de vista diferente para oferecer uma alternativa que suprimisse as necessidades. E que, ao mesmo tempo, fosse mais sustentável.

O estúdio de design criou uma máscara de proteção com um material obtida a partir de bactérias. Batizada “Xylinum”, a inovação é feita de celulose bacteriana, um subproduto da acetobacter xylinum, uma bactéria comum.

De acordo com os designers, é possível produzir a bactéria com alguns ingredientes simples: água, chá, açúcar e uma pequena amostra da bactéria acetobacter xylinum. O último ingrediente é kombucha, uma bebida fermentada obtida a partir do chá preto adoçado, que é fermentado por leveduras e bactérias.

Neste momento, a biomáscara não passa, contudo, de um protótipo, cujas capacidades não foram ainda testadas. “O protótipo e a ciência referenciada juntaram-se para mostrar que o biodesign tem um verdadeiro potencial para um impacto e inovação rápidos”, afirma Garrett Benisch.

À medida que a bactéria se multiplica, cria uma folha de celulose na superfície do líquido onde vive. Essa folha, quando analisada ao microscópio, revela uma malha de fibras celulósicas que deverá impedir a passagem de microrganismos, como vírus.

Quando o material tem cerca de 6,5 milímetros, o que normalmente demora duas semanas, a dupla indica que pode ser removido, colocado a secar e receber tratamentos de superfície adicionais, como um tratamento de impermeabilização à água e óleo para lhe dar uma textura de couro macio.

O material é ainda translúcido, o que significa que, se for usado para produzir uma máscara, é possível ler os lábios ou ver a expressão facial da pessoa que a está a usar, tornando-a mais inclusiva para as pessoas surdas ou com dificuldades auditivas.

O desafio da “respirabilidade”

A atual versão da máscara tem, contudo, um grande problema: as bactérias criam malhas tão apertadas que dificultam a respiração. Para corrigir isso, Garrett Benisch e Elisabeth Bridges referem uma técnica da Universidade Virginia Tech (EUA), desenvolvida pelos engenheiros biomédicos Paul Gatenholm e Rafael Davalos, que acrescentaram partículas de cera na superfície de crescimento das bactérias.

As bactérias têm, assim, de tecer as fibras de celulose em volta dos glóbulos de cera e depois da cera derretida, a folha de material tem espaços negativos microscópicos, criando uma “porosidade que possivelmente irá permitir a respiração e a filtração“, explicou Benish à Fast Company.

De acordo com os designers, esta biomáscara poderá ter uma capacidade de filtragem semelhante às máscaras com respirador FFP2, que são consideradas o padrão para proteção contra o novo coronavírus, embora tal seja, para já, especulativo, uma vez que não foram realizados testes.

Garrett Benisch e Elisabeth Bridges acrescentam ainda que o material é tão fácil de produzir que pode ser cultivado em qualquer lugar, incluindo hospitais, e em qualquer tipo de recipiente – obedecendo, assim, a padrões específicos.

A grande mais-valia passa ainda pela sustentabilidade. Em comparação com uma máscara tradicional N95, que tem uma utilização única e é depois colocada no lixo, as biomáscaras podem ser reutilizadas e depois decompostas “de forma tão simples como os restos de vegetais”.

“O objetivo deste projeto não foi desenvolver e distribuir máscaras, mas questionar se estaríamos com falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) se tivéssemos investido em biomateriais da mesma forma que investimos em (materiais) sintéticos”, sublinha Garrett Benisch.

Citando a utilização infinita de plásticos à base de petróleo e a inceneração de combustíveis fósseis, os designers do Sum Studio sugerem que a produção de base biológica aponta na direção de novos meios, nos quais os indivíduos têm mais controle e que possui mais potencial a longo prazo.

Fonte: Portugal Têxtil | Fotos: Divulgação