Impactos do Covid-19 no varejo mundial e a busca pela reinvenção

A situação é delicada. Vários países decretaram quarentena como recurso para conter a pandemia do Covid-19, o novo coronavírus. O momento é de preservar vidas, mas também precisamos pensar nas melhores estratégias para o retorno em meio à recessão da economia que certamente virá.

Em relatório divulgado pelo Google recentemente, realizado com base em dados coletados pelo Google Retail AIT, os impactos no varejo físico no atual cenário foram apontados. Além disso, o levantamento indicou como auxiliar o mercado para enfrentar este momento especial.

A maior parte das cidades estão com seus serviços fechados, mantendo funcionando apenas os essenciais como supermercados, padarias e farmácias. Com isto, as  vendas online crescem, principalmente nesses setores, já que a recomendação é ficar em casa.

Segundo o relatório, as indústrias mais impactadas no curto prazo são aquelas que envolvem um contato humano, como alimentação e entretenimento fora de casa, viagens, salão de beleza e ginástica. Os bens menos essenciais também foram impactados negativamente, entre eles está a moda, cosméticos, luxo e bebidas. Por último, temos o grupo de bens duráveis que serão despriorizados.

Com este raciocínio, após a pandemia, os segmentos de lazer como alimentação, entretenimento fora de casa e viagens irão se recuperar mais rápido. Já o mercado de cuidados com a saúde e alimentos e bebidas não sentirão tanto o impacto e a indústria da moda deve voltar a aquecer ao longo dos meses. Bens duráveis devem permanecer inalterados por mais um tempo.

O relatório aponta que “as buscas por entretenimento, higiene e limpeza são as que mais se elevaram nas últimas semanas. Categorias como moda, móveis e artigos para viagem foram as que mais caíram”.

Brasil, Estados Unidos e diversos países da Europa tem uma crescente busca no Google por perfumaria e beleza, também por conta da procura por álcool gel, enquanto que moda, móveis e viagens tem a maior queda desde o início do ano.

Em relação ao varejo no setor da moda, a China corresponde a 56% da produção mundial de vestuário. Com a queda produtiva do país, os varejistas enfrentam dois desafios: novas rotas de fornecimento e gerenciamento dos estoques atuais, ainda sem uma solução estabelecida.

Para o varejo fashion, o desabastecimento é ainda mais problemático, pois as coleções são vendidas em temporadas. Outro grande impacto foi o cancelamento de Semanas de Moda pelo mundo, inclusive no Brasil, além de eventos com lançamentos que envolvem toda a cadeia de produção.

Durante a quarentena

Como as marcas podem ajudar nesse momento mantendo seu cliente? Segundo o relatório, é necessário comunicar aos consumidores as mudanças nos horários de funcionamento, tempo de entrega, estoques e limitações de itens, entre outros.

Além disso, é preciso não praticar preços abusivos, oferecer opções de pagamento e linhas de crédito para viabilizar as pessoas em momentos desafiadores, além de mostrar todo o cuidado com o ponto físico para os segmentos que ainda estão abertos — com a utilização de álcool gel, máscaras, higienização do ambiente.

Agora, abordando mais especificamente o mercado de moda, que é um segmento em declínio nesse momento. É importante passar mensagens positivas, além de dispensar esforços para colaborar nas ações sociais, como as diversas empresas que estão produzindo máscaras, álcool gel (no Brasil e em várias partes do mundo), distribuindo cestas básicas ou itens essenciais para comunidades carentes, entre outras ações.

Também é hora de investir em objetos úteis e práticos para o home office: roupas confortáveis, pijamas, moda fitness para a prática de exercícios em casa e o upcycling, reinventando as coleções que não foram comercializadas.

No segmento jeanswear, não adianta investir em novas modelagens ou calças skinnies, fora aquelas com alto power. É hora de oferecer opções comfort, no estilo slauch, joggers — que estão super na moda — principalmente com elasticidade ou no denim moletom, clochards ou baggy.  Agasalhos, t-shirts ou casacos também em malha são ideais para o Inverno que se aproxima. Mensagens positivas também são interessantes para estampar algumas peças.

Uma boa ideia para os varejistas de moda de pequeno porte, segundo Carol Hungria, editora online da revista Harper’s Bazaar, é investir nos marketplaces (sites de moda multimarcas). Apesar de cobrar comissões, são ótimos canais de vendas e facilitam todo o processo de operação.

Ainda de acordo com Carol, é preciso inovar nesse momento e investir no marketing digital, seguindo uma linha de raciocínio mais humana, desde o post no Instagram até as vendas pelo WhatsApp. A editora ainda dita a importância de utilizar a ferramenta Google Trends para descobrir os termos mais buscados no momento e as principais tendências que podem direcionar suas estratégias.

Pós-pandemia

Após esta crise, uma coisa é certa: os consumidores não serão mais os mesmos. É provável que retornem da quarentena mais humanos, preocupados com a saúde, com os familiares, valorizando a vida e a simples coisas que ela pode oferecer. Talvez tenham percebido o canto dos passarinhos ao amanhecer, o horizonte mais azul, as estrelas que agora aparecem no céu limpo e o ar puro que pode ser sentindo, sem tantos carros nas ruas. É um tempo para refletir (o que alguns já vinham praticando) o modo de consumo desenfreado valorizando mais o ser, do que o ter.

Portanto, é um período para os varejistas refletirem também sobre esse novo modo de consumo e investirem neste nicho que irá reorganizar o mercado como um todo, modificando para melhor o pensamento e comportamento das pessoas.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução