Indústria da moda deve tomar atitudes mais rápidas em relação às mudanças climáticas, diz relatório

A preocupação com o meio ambiente necessita de ações mais decisivas. É o que apontou o último relatório publicado pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas), ou IPCC, das Nações Unidas, onde cientistas alertaram que a humanidade tem hesitado demais e feito de menos em relação as mudanças climáticas.

O relatório convoca os líderes, governos e empresas a tomar ações mais rigorosas de forma rápida e imediata. Isto porque a raça humana tem alterado o clima de maneira tão drásticas que a possibilidade de exceder o limite do 1,5ºC até meados de 2030 se torna cada vez mais clara.

E a indústria da moda desempenha um papel relevante neste cenário, sendo o terceiro maior setor manufatureiro e emissor global com operações distribuídas globalmente. Segundo o Banco Mundial, o setor é responsável por 10% das emissões globais de carbono, o que representa mais do que as emissões por fretes marítimos e voos internacionais combinadas.

Caso o ritmo atual seja mantido, a indústria da moda perderia a corrida de 1,5 grau em 50% até o final desta década. E com uma previsão de aumento da demanda por roupas e calçados em 63% na próxima década, a estatística não parece muito otimista. As atitudes para reverter este quadro, contudo, não são urgentes e focadas.

“Precisamos de uma mudança completa. A sustentabilidade não pode ser restrita a determinadas marcas ou coleções pequenas. Concordar com a tomada de ações definitivamente não basta. Precisamos que todo o setor abrace as metas do Acordo de Paris”, disse presidente designado da Conferência de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, Alok Sharma.

A indústria da moda é responsável por mais de 70% das emissões de CO2, como a etapa de produção de tecidos, devido à dependência excessiva de tecidos sintéticos derivados de combustíveis fósseis, além de instalações e fábricas que gastam muita energia. Porém, a troca para materiais sustentáveis não é suficiente se não houver mudança no status quo do restante das operações.

De acordo com o relatório do IPCC, as marcas precisam agir e assumir o controle de toda a cadeia de valores se quiserem fazer alguma diferença significativa. Mas, como?

As marcas devem se afastar de decisões influenciadas pelo marketing e adotar uma abordagem baseada na ciência para identificar a linha de base, definir as metas de 1,5ºC, medir e monitorar com frequência as suas emissões. É preciso criar sinergias entre diferentes partes interessadas na cadeia de suprimentos, seja para incentivar os parceiros da cadeia de suprimentos a usar renováveis ou investir na criação de recursos e criar um impacto de longo prazo.

As marcas e varejistas de moda também devem medir, remediar e comunicar seus impactos ambientais para reduzir de forma tangível seu impacto climático. E, por fim, a indústria precisa trabalhar em conjunto e mudar de uma cultura de fast fashion para slow fashion, do modelo de negócios linear para o circular e de esforços individuais para coletivos.

Escolhas de compra mais sustentáveis teriam como impulsionadores a redução da produção e do consumo excessivos atrelada a um investimento na escalabilidade dos modelos de negócios circulares. Com empresas fornecendo opções e facilidades para alugar, revender, consertar e customizar suas roupas, isso moveria a indústria para mais perto do sistema de circuito fechado e poderia evitar a emissão de cerca de 143 milhões de toneladas de gases causadores do efeito estufa até 2030.

De acordo com o relatório Fashion on Climate da McKinsey, atualmente menos de 1% dos produtos usados são reciclados dentro da cadeia de valores de vestuário e um aumento na reciclagem tem o potencial de reduzir cerca de 18 milhões de toneladas de emissões anualmente. É preciso criar um ecossistema que acolha essa nova forma de pensar.

Vale destacar ainda que compromissos com a natureza também não significam nada se não existir a preocupação de proteger a vida humana. Como uma indústria de US$ 2,5 trilhões, que emprega quase 430 milhões de trabalhadores, a moda não tem apenas os recursos, mas também a obrigação moral de garantir a segurança de toda e qualquer pessoa que participa da sua cadeia de valor.

O relatório do IPCC aparece como um alerta vermelho de que, após passar os últimos 30-40 anos ignorando o aviso dos cientistas sobre as mudanças climáticas. A mudança é, mais do que nunca, urgente.

Fonte: Redação | Foto: Reprodução