Indústria do denim encara incertezas, mas aposta em inovação e sustentabilidade na Bluezone 2025

O clima de cautela que marcou o início da temporada Outono/Inverno 2026-2027 do denim em abril se manteve até a última feira do calendário, realizada no início de setembro em Munique. Na Bluezone, fornecedores da cadeia produtiva compartilharam como estão ajustando suas coleções para acompanhar as compras mais conservadoras das marcas diante de um mercado em retração. Apesar de voltada principalmente para o público alemão, a feira também foi palco de discussões sobre os impactos das tarifas dos Estados Unidos e a desaceleração do consumo europeu.

O curador da Bluezone, Panos Sofianos, definiu o momento como “business as unusual”, um jogo de palavras que reflete a instabilidade do setor. Para Dilek Erik, gerente global de marketing da Sharabati Denim, o denim vive em constante transição. “Nunca houve tempos fáceis para o denim. A solução não é reagir, mas antecipar o que está por vir e agir no momento certo”, afirmou. Essa mentalidade de adaptação se refletiu nas estratégias apresentadas por diferentes fabricantes ao longo do evento.

A espanhola Tejidos Royo, com 122 anos de história, destacou a automação como chave para sua sobrevivência em um mercado competitivo. Com cerca de 400 funcionários, a empresa modernizou processos para enfrentar concorrentes de países com custos mais baixos. Denis Earl Purvis, representante de vendas da tecelagem, explicou que a prioridade agora é consolidar coleções menores, voltadas para clientes fiéis, em vez de arriscar com produtos aspiracionais. Ainda assim, a Royo apresentou um novo processo de acabamento que imita o aspecto do tingimento em peça, permitindo encomendas a partir de apenas 500 metros em cores diversas.

A Isko, por sua vez, anunciou mudanças em sua linha premium PG Luxury. O diretor criativo de têxteis, Paolo Gnutti, revelou que passará a lançar coleções-conceito a cada dois ou três meses, em vez de duas coleções sazonais. A estratégia busca refletir a rapidez com que o mercado muda e atender melhor às demandas de marcas cada vez mais orientadas por tendências imediatas. Paralelamente, a empresa turca expande sua presença na Ásia, com novos aprendizados vindos de feiras em Hong Kong, Vietnã e Egito.

No campo da sustentabilidade, várias iniciativas chamaram atenção. A Calik Denim apresentou sua estratégia Net-Zero, alinhada a metas científicas de redução de emissões. Já a Sharabati revelou um projeto que conecta sua produção de algodão regenerativo a quase 600 agricultores gregos, em parceria com uma organização local. A Felde Fibres, única produtora alemã de fibras como cânhamo, linho e urtiga, anunciou que abrirá uma nova planta nos arredores de Berlim ainda este ano, com capacidade para 5 mil toneladas anuais, integrando todas as etapas de produção em um único local.

As tendências de produto também estiveram em destaque. Tecidos mais macios, misturas de fibras e algodão reciclado estão em alta para o Outono/Inverno 26-27. A Arvind reforçou sua expertise em misturas com Tencel e apresentou colaborações que resgatam o denim tradicional japonês. A Calik, com a linha Roots Age, apostou em texturas rústicas e tecidos crus. Já a Bossa identificou uma demanda crescente por visuais clássicos, como denins crus, misturas de lã e algodão e efeitos marmorizados construídos diretamente no tecido.

Entre as inovações, a Royo apresentou seu denim feito a partir da reciclagem de roupas de cama de hotéis espanhóis, resultando em tecidos com aspecto neppy que começam a conquistar seu público. A Realteks anunciou planos para ampliar o cultivo próprio de algodão orgânico e investir na fibra Eastman Naia, vista como promissora para o futuro do denim. A Isko também reforçou suas coleções cápsula, como a Future Face 2.0, voltada a tecidos que unem conforto de malha e autenticidade do denim.

Soluções sustentáveis em processos de lavanderia também ganharam espaço. A empresa tunisiana Magic Real Solutions apresentou a Solution BioStone BD, alternativa às pedras-pomes usadas no acabamento do jeans. Feitas de minerais e materiais orgânicos, as pedras podem ser reutilizadas até 200 vezes, reduzem em 40% o consumo de água e diminuem significativamente a geração de resíduos.

Mesmo em um cenário de retração e incertezas, a Bluezone mostrou que a indústria do denim segue apostando em inovação, flexibilidade e sustentabilidade para se manter competitiva. Com coleções mais enxutas, novos processos tecnológicos e parcerias estratégicas, fornecedores buscam não apenas atravessar a fase difícil, mas também moldar o futuro do setor diante de consumidores cada vez mais exigentes e conscientes.

Fonte: Ana Gimonski | Foto: Divulgação