Inovação e sustentabilidade devem andar de mãos dadas

Na última semana, a plataforma O Futuro da Moda promoveu um evento online para discutir a estruturação de gestão da sustentabilidade em empresas. O bate-papo transmitido ao vivo no Youtube contou com a presença de Ana Tavares, engenheira química fundadora da We Sustain e que liderou o setor de desenvolvimento sustentável da portuguesa Tintex Textiles por cinco anos, e a estilista e pesquisadora Thaísa Peralta, que atualmente é Denim Head da Covolan Têxtil.

Com mediação de Américo Guelere, o evento deu seu pontapé inicial com Ana Tavares apontando o passo a passo da tinturaria portuguesa em preocupação e aplicação da sustentabilidade no meio.

“A Tintex é uma empresa especializada em tingimento de malhas circulares, malharia que se fala no Brasil. Desde do seu início, focou na prestação de serviço – como muitas tinturarias do mesmo porte. Trabalhava com aquilo que o cliente pedia”, indicou Ana Tavares.

A empresa portuguesa ainda que se localize no norte do país, que é onde as tinturarias costumam se concentrar, está distante de suas concorrentes. A localização foi um dos fatores para a mudança, principalmente por causar custos que outras empresas não tinham.

“A Tintex teve que evoluir rapidamente os seus negócios e deixar de ser apenas uma prestadora de serviço, mas também criar e apresentar seu produto, suas próprias coleções. Já ai foi inovador, pois nenhuma outra tinturaria de Portugal fazia isto até então”, completou.

Quando passou a investir em produtos próprios, a preocupação com a sustentabilidade foi o próximo passo. Especializada em tinturas de fibras naturais e artificiais, a empresa passou a implementar sistemas de gestão em 2015, que trilhariam suas novas atitudes em relação ao meio ambiente e a sociedade como um todo.

Na sequência, foram indicadas metas onde a sustentabilidade estava incluída. A estratégia ganhou uma forma 360º, atingindo todos os níveis da empresa, melhorando processos e novos produtos passaram a ganhar a colaboração das equipes de inovação e sustentabilidade. Caminho que, segundo Ana, foi essencial para destacar o trabalho realizado pela Tintex.

Aliar a sustentabilidade a inovação é um fator diferenciador. Em Portugal, a indústria tem se diferenciado por isso. E ver que, se uma empresa de pequeno e médio porte consegue implementar esse sistema, mesmo sem os recursos necessários, vemos que é possível”, ressaltou Ana Tavares.

Ainda sobre as adequações necessárias para processos mais sustentáveis, Ana Tavares apontou que as certificações foram o ponto de partida para a Tintex Textiles. Selos como BCI (sigla para Inciativa por um Algodão Melhor, em tradução livre), GOTS (Padrão Global de Têxteis Orgânicos) e OCS (Norma de Conteúdo de Orgânicos) estão entre os citados.

No cenário brasileiro, Thaísa Peralta apresentou o plano estratégico da Covolan Têxtil. A tecelagem, fundada em 1996, segue um trabalho calcado em três pilares: social, econômico e ambiental.

“A Covolan é uma tecelagem que sempre trabalhou com a sustentabilidade, que vem em crescimento”, indicou Thaísa. “Temos cinco certificados, nove programas, duas premiações e seis ações complementares. Além disso, somos filiados ao ZDHC (Zero de Fescartes de Produtos Químicos, em tradução livre), sendo a única do segmento denim do Brasil”, completou.

A estruturação de gestão também foi o primeiro passo da Covolan na busca por produções mais sustentáveis e produtos que se aliam com as preocupações sociais e ambientais da empresa. Não por acaso, os certificados apontados por Thaísa Peralta são semelhantes aos conquistados pela Tintex Textiles.

Voltando-se para a produção denim, Thaísa compartilhou detalhes sobre a produção do denim circular da Covolan. “É um tecido jeans, feito com retalhos do processo de sobra de cortes, feito com base na economia circular”, afirmou.

O modelo circular se baseia inicialmente na reciclagem, passando para o design do novo produto e seguindo para o processo sobre as fibras que serão usadas. Com o tecido fabricado, o artigo é produzido, transportado, vendido e usado, para então o ciclo iniciar novamente.

“É um tecido uniforme, com padrão e qualidade, justamente pelos critérios utilizados, que garantem essa regularidade e padronização do tecido. O resultado é de um jeans bem modal e este foi o nosso desafio”, disse Thaísa. “Ele é competidor com os artigos de coleção. Sabemos que muitos artigos reciclados e reutilizados tendem a ficar de lado, e o nosso é totalmente diferente. É um produto com desejo de compra”, acrescentou.

Além disso, a digitalização foi um tópico importante nas estratégias atuais da Covolan, que hoje já disponibiliza um showroom online em seu site. Por lá, é possível conferir detalhes dos tecidos da tecelagem. A atitude ganha um peso a mais com o atual cenário de quarentena pelo mundo, imposto pela pandemia do Covid-19, o novo coronavírus.

“Nós da Covolan acreditamos na aceleração digital, na sustentabilidade, na tecnologia e na forma como as pessoas vão se relacionar daqui para frente, nas questões de saúde e no cuidado com o trabalho. Então, conversando com parceiros tem tido essa preocupação de como vai ser essa volta e a preocupação com máscaras. Isso eu falo em curto prazo”, indicou Thaísa.

“Ao longo do tempo, entendemos que as pessoas vão mudar e eu imagino que com essa crise irá causar mudanças nas perspectivas não só com a moda, mas até na forma como se compra um alimento ou sai de casa”, completamos.

A transmissão completa já está disponível, confira aqui.

Fonte: Thaina Barros | Fotos: Reprodução