Jeanologia e Vicunha discutem equilíbrio entre sustentabilidade e eficiência

O jeans brasileiro tem um imenso potencial em relação à sustentabilidade, talvez seja o mais eco-friendly do planeta. No entanto, apesar deste poderoso argumento, ainda atua como uma ilha perante o mercado global. O ponto positivo deste diagnóstico é que temos uma demanda interna suficiente, porém, é preciso progredir e penetrar em outros mercados.

Esta foi apenas uma das pertinentes observações colocadas pelo webinar “Sustentabilidade, Tecnologia e Eficiência no processo Criativo de Moda”. Mediada por Fabio Felix, coordenador de lavanderia da Vicunha Têxtil, a transmissão reuniu os convidados Enrique Sillas, fundador da Jeanologia, Pedro Daminelli, gerente de sustentabilidade da Damyller, e Marcel Imaizumi, diretor de operações da Vicunha.

Fabio Felix

Fabio Felix iniciou a transmissão dando as boas-vindas aos convidados e explicando a visão de sustentabilidade seguida pela Vicunha. Em seguida, Marcel Imaizumi destacou a relevância das certificações como ferramenta facilitadora para comunicação ao longo da cadeia de moda. “Os selos não veem diferenças legais, mas são uma ferramenta importante para o varejo se comunicar com o consumidor”, explicou.

Para que esse diálogo aconteça, o diretor de operações da Vicunha defendeu não apenas a conquista da maior variedade de selos e certificações possíveis, mas também a compreensão doa que transpõe o chão de fábrica industrial. “O ‘frame’ de sustentabilidade não é só para a indústria, é para a cadeia toda”, explicou, justificando a necessidade de se dominar a história sustentável de um produto em seu ciclo completo.

Tomando como consenso a realidade de que sustentabilidade não é mais usada como argumento do marketing, Fabio Felix convocou os demais participantes a compartilharem suas percepções quanto à visão atual do conceito.

Enrique Sillas elencou como primeiro objetivo o “Mission Zero”, que propõe como missão que até o ano de 2023, nenhum jeans seja produzido contaminando o planeta. Para agregar o tom de realidade da proposta, o coordenador de lavanderia da Vicunha Têxtil trouxe o exemplo da primeira planta de lavanderia criada pela Jeanologia para a Levi’s®.

Enrique Sillas

Desenvolvida em 2019 em pleno deserto para a icônica marca de jeans, a planta vem produzindo peças ao longo destes anos sem impacto ambiental algum. Como segundo objetivo, Silla elencou a produção que chamou “On Demand Manufactory”, termo implica em produzir somente o que se vende, e vender exatamente tudo o que se fabrica. “Isso parece fácil mas é uma cadeia completamente distinta do que temos”, explicou.

Contribuindo para a visualização do contexto nacional, Pedro Daminelli expôs as condutas sustentáveis praticadas pela Damyller através de um breve histórico da companhia. Em seguida, afirmou que na marca, a conduta “zero” de descartes de água e produtos químicos já é uma realidade.

Além dos acabamentos, Pedro citou a presença do discurso eco-friendly nos demais elementos das coleções, como as estampas de café lançadas em camisetas. Já nos showrooms e lojas, mencionou as cortinas de denim reaproveitados e decoração com cones de tecidos.

Ao ser questionado por Fabio quanto à forma como o Brasil é percebido por outros mercados, afirmou: “O Brasil é uma ilha neste mundo do jeans”. Segundo Pedro Daminelli, nos país não domina uma característica exportadora da calça. “Não temos penetração em grande parte, devido aos tratados comerciais”, completou.

De acordo com o gerente de sustentabilidade da Damyller, o Brasil poderia estar aproveitando a onda do dólar para realizar exportações, mas não o faz por falta de preparo. “Talvez o Brasil tenha a cadeia vertical mais sustentável do planeta […]Temos mais de 92% do plantio do algodão irrigado pelas águas da chuva, totalmente profissionalizado, com leis trabalhistas e ambientais duríssimas e design bacana”, expôs.

Em seguida, ressaltou que embora do ponto de vista da sustentabilidade o Brasil esteja perfeito; perante o mundo ainda não é competitivo. Entre os impedimentos para este avanço, Pedro mencionou a fragmentação da indústria local. Já como indicador de um caminho consistente, alertou que os produtos com maior potencial exportador, são precisamente os mais sustentáveis da nossa industria.

Concordando com as colocações dos demais participantes, Fabio enfatizou a importância de que o país faça a sua “lição de casa”, transmitindo ao mundo os potenciais que detém e capacitando os demais elos integrantes da cadeia. Elegendo o setor das lavanderias como um importante tópico a ser problematizado, lançou a Enrique Silla o desafio de diagnosticar as lacunas que precisam ser vencidas em nosso país para equipará-las às lavanderias de prestigio internacionais.

Pedro Daminelli

Em sua resposta, Enrique apontou como principal diferença a desconexão entre o tecido e a peça finalizada.” Há uma conexão entre o tecido e a modelagem, mas há uma desconexão entre o tecido e o lavado”, identificou. Entre as causas, apontou a falta de empresas de jeans com processos verticais em território nacional.

“No Brasil, não há a mentalidade de selecionar o tecido pensando na peça acabada e lavada”, explicou Enrique, que defendeu ainda que a causa não é a falta de tecnologia. “Não acredito que falte tecnologia, o que soluciona esse problema é o modelo operacional”, concluiu.

Pedro compartilhou que considera o processo da Damyller vertical, pois apesar da marca não fabricar o tecido, costuma desenvolver as coleções tendo como ponto de partida o material. Segundo ele, os lançamentos têxteis são submetidos a diversos testes e processos etnológicos antes de serem apresentados para a equipe do estilo.

“Temos um laboratório físico que faz testes de tração, mede a resistência do tecido e os submete aos processos com laser, ozônio e enzimas […] Somente após esse processo os materiais são liberados para o pessoal do estilo, assim quando o estilista entra no showroom ele tem uma biblioteca de informações atualizada diariamente”, afirmou.

Sugerindo adaptações para as lavanderias nacionais avançarem, Silla alertou que a mudança do modelo operacional se coloca como mais urgente e mais relevante do que a própria mudança tecnológica. “Eu não recomendaria para nenhuma lavanderia brasileira investir em uma única tecnologia mas sim na planta, é como montar uma cadeia de costura”, aconselhou, afirmando que esta é a lógica que difere os investimentos em lavanderia de cinco anos atrás para o atual.

A estrutura pequena característica da maioria das confecções nacionais foi levantada por Marcel como principal causa entre a desconexão entre o design e as lavanderias. “Estas confecções buscam tecidos versáteis, o que implica em tecido sem solidez […] Nossa missão é fazer os produtores entenderem de tecido para maximizar seus custos e benefícios através desse entendimento”, ressaltou.

Os caminhos para promover a capacitação dos designers rumo a uma melhor comunicação e maior assertividade entre as áreas também integraram a pauta do webinar. Enrique Silla destacou duas tecnologias disponíveis na Jeanologia criadas para este fim. A primeira seria a plataforma “end to end” intitulada eDesigner, uma ferramenta digital que conecta designers a desenvolvedores de lavagens e designers a fabricantes. Já a segunda seria a Digital Wash.

O desafio de conectar eficiência e sustentabilidade e promover a evolução em um país permeado por diferentes culturas foi o tópico final do debate. Neste caminho, de acordo com Marcel, a integridade fiscal representa um dos maiores obstáculos. “O que percebemos que podemos fazer é capturar tendencias vendáveis e trazer para o mercado, e investir mais em pessoas para oferecer serviço e suporte; não apenas para design mas para suporte de modelo de negocio”, explicou.

Enrique Silla destacou que o custo será um fator importantíssimo nos próximos anos no Brasil. Neste sentido, a eficiência implicará diretamente na redução dos custos. “Qualquer tecnologia que não reduza custos será uma missão impossível”, afirmou.

Estratégias de melhoria do e-commerce foram sublinhadas por Pedro como condutas igualmente eficientes para redução de custos. “Sentimos que podemos melhorar essa ferramenta no sentido de encurtar distancias de transporte, tornando o e-commerce mais sustentável”, explicou. “São pequenas ações que se trabalham no dia a dia”, concluiu.

“O Brasil virá como uma fome de imposto grande e teremos que preparar as empresas com um discurso e uma comprovação de práticas que façam o mundo melhor”, complementou Marcel. “Temos que agir no nosso micro setor e depois levar esta ação para toda a cadeia, para que isso se transforme em uma energia positiva e impacte em produto melhor”, concluiu Pedro Daminelli.

Marcel Imaizumi

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução