Não basta ser sustentável tem que ser vegano

Reciclagem de fibras, acabamentos eco-friendly, visual reaproveitado. Todas essas “ondas” têm impactado o segmento jeanswear de modo definitivo. E sabemos, não são passageiras, vieram para ficar. Cada vez mais o entendimento de um jeans bem feito, inclui uma produção excelente em termos de ética, sustentabilidade e gestão dos recursos – em todos os seus detalhes. E por detalhes, subentende-se não apenas o tecido e a lavagem, mas também os pormenores dos aviamentos. O mercado global está seguindo nessa direção – nenhuma minúcia passará despercebida em sua incoerência, quando se anuncia ou se posiciona para o consumidor como uma marca com discurso eco-friendly.

A mais recente movimentação que acusa esse caminho é a onda do veganismo no setor. O alvo e vilão da mudança, neste caso, é a etiqueta traseira. Tradicionalmente confeccionada em couro, tem sido alvo de estudos quanto aos efeitos nocivos e impactantes no meio ambiente.  Uma enorme quantidade de energia e químicos são requisitados para a concepção do material.

De acordo com a People for the Etical Treatment of Animals (PETA), além de ser um processo nocivo aos animais, é comprovadamente perigoso para o ser humano, em especial para os trabalhadores dos curtumes que apresentam altos índices de câncer resultantes das condições de trabalho.

Uma das companhias que recentemente apostou na mudança de materiais e processos envolvendo a etiqueta do jeans foi a Nudie Jeans. Our beef is over: nosso bife acabou! Com essa chamada bem-humorada a marca anunciou no mercado a recente adesão às exigências do lifestyle vegano, substituindo a etiqueta de couro por um patche de papelão reproduzindo no visual o aspecto do couro, resistente aos acabamentos industriais e ao uso contínuo e diário do consumidor. A alternativa, na verdade não é uma novidade recente no mercado. Em 2016, a Naked & Famous apostou na mesma ideia em sua linha premium, confeccionada com denim selvedge.

Na época, adotou um design “gastronômico” tanto na etiqueta quanto na campanha, usando chamado como “glúten free” (livre de glúten) no aviamento e no tag. A peça é comercializada até hoje, em denim japonês 12 Onças feito de algodão orgânico, sem tratamento, e tingido com índigo natural. A etiqueta, como a da Nudie, era confeccionada em um papelão resistente.

Na sequência, a Mud Jeans lançou seu mix vegano, em outubro do mesmo ano, mas com uma estratégia diferente: não utilizando papelão, mas sim um carimbo sobre o tecido. Sem esquecer que a marca já é considerada diferente por ter um sistema de arrendamento de jeans, diferente da venda convencional, compartilhando a responsabilidade da peça até o final de sua vida.

Ou seja, o cliente não compra o jeans, apenas o “aluga” e durante a vigência do contrato conta com serviços de reparos na peça. Seja comprando a peça quando não está mais vestível para reciclagem das fibras, seja dando a ela uma nova vida através do reaproveitamento. O sistema proposto pela Mud, inclui serviços de reparos durante a vigência do contrato de arrendamento. E ao final do mesmo, o cliente pode escolher entre comprar, ou devolvê-lo. Em caso de devolução, o destino será o reaproveitamento de pelo menos, 96% seja em reciclagem ou pelo upcycled.

No Brasil, temos algumas marcas de sapatos e roupas veganas, entre elas a paulista King55, que foi fundada em 2002, grife que adotou acabamentos ecológicos e mantém seu posicionamento como discurso principal. Abdicando de qualquer produto de origem animal em suas produções, a King55 usa etiquetas de tecido, e reforça seu discurso com o sistema de delivery em São Paulo com uso de bicicletas, além do desconto na compra de um jeans novo com a devolução de um antigo. A grife ostenta um mix diversificado e trabalhado de peças de jeanswear. O futuro sinaliza: não basta ser sustentável na lavagem. Tem que ser ético em todos os detalhes.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução