O formato insustentável das Semanas de Moda

As Semanas de Moda de Nova Iorque, Londres, Paris e Milão recentemente se encerraram. Mas, desta vez, não foram analisadas apenas em formas, volumes e cores. A coerência das apresentações com o contexto em que vivemos também foi decodificada pelos observadores dos desfiles.

Circuitos de desfiles de moda são insustentáveis por natureza. As pessoas mais influentes da indústria voam para diversas cidades ao redor do mundo, deixando consideráveis pegadas de gás carbônico. E este fato, não passou desapercebido pela crítica.

Incontáveis carros levam influencers, jornalistas, compradores e estilistas de evento a evento para auxiliar o cumprimento dos horários lotados de desfiles. Sets e espaços de produção são criados e depois jogados fora. Convites e releases do evento são descartados, assim como a grande quantidade de eletricidade usada para a iluminação. Tudo isso para um evento que é feito para durar apenas alguns minutos.

Como esperado, o volume e a produção bruta de resíduos gerados pelas Semanas de Moda tem um grande impacto em nosso planeta. De acordo com o relatório da Zero to Market, publicado no The New York Times, cerca de 241 mil toneladas de gás carbônico são emitidas durante todo o mês em que os eventos internacionais de desfiles acontecem.

Ainda de acordo com a publicação, tal quantia seria suficiente para abastecer a energia da Times Square por nada mais nada menos do que 58 anos. Estas estatísticas assustadoras trazem a tona um questionamento: tudo isso é realmente necessário?

É importante entender a história dos eventos de moda e porque eles são uma parte tão grandiosa da cultura da indústria atual. Em 1943, Nova Iorque foi a primeira cidade a organizar eventos cíclicos de moda com a direção de Eleanor Lambert, uma publicitária de moda americana. A intenção era proporcionar uma plataforma para que os designers pudessem mostrar suas coleções em um espaço para a imprensa mundial. Isto, claro, em uma época muito distante do contexto atual guiado por mídias como Twitter e Instagram.

Desde então, as Semanas de Moda tem se expandido por múltiplas cidades ao redor do mundo e tem colocado em evidência alguns dos mais extravagantes desfiles da história. Além disso, por nos encontrarmos no meio de uma crise climática, estes eventos soam irresponsáveis e ultrapassados para seguir adiante com o mesmo formato.

Assim como os designers e marcas estão repensando seus negócios para se tornarem mais sustentáveis, parece hipocrisia não realizar a mesma reavaliação com o formato dos eventos no qual estas coleções são apresentadas. As coisas precisam mudar, mas o desafio é encontrar uma alternativa melhor e mais ecológica e que de fato, funcione.

“Em primeiro lugar, a mudança começa pelo próprio evento”, explica a fundadora da sustentável Helsinki Fashion Week. “Quando você começa a planejar um evento ou uma Semana de Moda você tem que se certificar que está realizando parcerias com as empresas certas. Teria sido mais fácil para nós contratar grandes companhias. Mas elas não eram, de fato, sustentáveis”.

Mora comenta que a criação de uma Semana de Moda sustentável é mais fácil do que parece. Segundo ela, existem duas maneiras de se alcançar este objetivo. O primeiro, envolve estar atento à produção e o segundo envolve um critério sustentável na curadoria dos designers que vão mostrar as suas coleções.”

“É possível levar adiante estes eventos de modo mais sustentável, mas é de fato mais desafiador”, conta. Quando Mora lançou o Helsinki Fashion Week, ela começou a considerar se o próprio local de realização era eco-friendly. Isso envolveu a análise do quanto de água e energia seriam empregados, a possibilidade de renovação destes recursos e do uso de energias renováveis, como eólica ou solar.

Criar um modelo de evento mais ecológico envolve realizar mudanças_ pequenas porém fundamentais. Como por exemplo, a decisão de adotar interruptores diferentes nos chuveiros e assim, economizar 19% do uso de água.

No Brasil, eventos de desfiles com perfil sustentável também vem ganhando visibilidade. O Rio Ethical Fashion, idealizado pela diretora criativa Yamê Reis, tem se baseado na escolha de marcas com critério sustentável, e também como espaço para debates e conhecimento de informações relevantes para o tema. O Brasil Eco Fashion, lançado em 2017, toma prestígio cada vez maior por parte da imprensa, e tem influenciado cada vez mais a moda nacional.

Em patamar internacional, outras cidades tem colocado em andamento mudanças para reduzir seus impactos ambientais. Em 2023, Copenhagen Fashion Week anunciou que irá lançar metas de sustentabilidade, e apenas as marcas que atingirem um determinado nível de pontuação no quesito eco-friendly estarão aptas a participar do evento.

A indústria está ouvindo agora, mais do que nunca, os designer sustentáveis. Eles finalmente estão sendo aclamados pela crítica. Os modelos de Semanas de Moda ecologicamente corretas, seja no Brasil ou no exterior, tem apontado que é possível continuar com tradição dos calendários oficiais de apresentações. Mas não no formato antigo.

Cada vez mais, a logística destes eventos será cobrada em termos de consciência e coerência com discurso ambiental. Logo, além das marcas, também as Semanas de Moda, estão fadadas a mudar – por livre e espontânea pressão de mercado.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução