O que as perspectivas francesas de um modelo circular da indústria tem a nos ensinar?

Durante a Dornbirn Global Fiber Conference, Maud Hardy, diretora de economia circular da organização sem fins lucrativas Refashion, com sede em Paris, apresentou uma perspectiva francesa sobre a responsabilidade estendida do produtor (EPR). E a visão de um futuro totalmente circular não parece tão distante.

Hoje, países membros da União Europeia age seguindo uma Diretiva de Resíduos, que exige uma coleta separada de têxteis e vestuário usados até 2025, e estes materiais não podem mais ser enviados para aterros ou incinerados. Na França, foi desenvolvido um esquema nacional de EPR para a indústria têxtil e de calçados, que segue atuando desde 2008, quando a Refashion foi criada para gerenciá-lo. A organização é credenciada pelas autoridades francesas e administrada por 29 fabricantes e três federações industriais.

“Nossa missão é trabalhar para tornar a moda 100% circular no futuro, reunindo todas as partes interessadas para desenvolver eco-design, reutilização e reciclagem e nossas prioridades são repensar a produção, reimaginar o consumo e reavaliar o desperdício”, indicou Hardy.

O esquema adotado atingiu 4.096 membros no último ano, totalizando uma arrecadação de 36 milhões de euros para a Refashion. Do montante, 17 milhões de euros foram para operadores de triagem, 4 milhões de euros para projetos comunitários locais e quase 1 milhão de euros foram destinados para projetos de inovação.

“O principal objetivo que temos agora é renegociar os fundamentos do esquema para realmente nos concentrarmos na reciclagem […] Uma meta mais longa é que os stakeholders se tornem totalmente autônomos e 100% circulares, e a Refashion desaparecerá”, completou.

Maud Hardy durante a Dornbirn Global Fiber Conference

Atualmente, há 44.000 pontos de coleta de têxteis e calçados na França, o que equivale a um para cada 1.490 habitantes. A Refashion mantém um total de 64 centros de triagem, 50 deles na França, sete na Bélgica, quatro na Holanda, dois na Espanha e um na Alemanha.

“Os têxteis usados ​​têm de passar de resíduos a novos recursos. Se olharmos para o mercado europeu, somos 500 milhões de consumidores, cada um comprando 10kg de têxteis e calçado por ano. São cinco milhões de toneladas por ano e um terço é coletado separadamente e reutilizado ou reciclado, os dois terços restantes indo para o lixo doméstico – 3,4 milhões de toneladas incineradas ou depositadas em aterro”, explicou Maud Hardy.

E continua: “Isso é drástico, mas o que temos que entender é que se quisermos um modelo circular, o custo da coleta de têxteis e calçados mais a triagem e a reciclagem devem ser menores do que o custo da gestão do lixo doméstico, caso contrário não será lucrativo e não fará nenhum sentido, mas a coleta será obrigatória em 2025 em qualquer caso.”

Vale destacar que, nos primeiros dez anos, os membros investiram mais de 150 milhões de euros no esquema EPR e a principal descoberta é que as operações de reciclagem ainda não são suficientemente industrializadas ou lucrativas.

A reciclagem, segundo ela, é o principal motivador para a indústria. “Quando olhamos para a evolução da divisão entre reutilizar, reciclar e desperdiçar nos últimos dez anos, e nos próximos dez anos, o reaproveitamento vai diminuir e a reciclagem terá que aumentar porque não teremos mais desperdício. Quanto mais você coleta, menos você será capaz de reutilizar, por isso é uma necessidade criar uma indústria de reciclagem lucrativa na Europa e isso é fundamental antes de aumentar a coleta”, disse.

“Atualmente o que é coletado para reaproveitamento vai para a África e para reciclagem vai principalmente para a Ásia. A questão principal aqui é investir maciçamente para desenvolver soluções de reciclagem industriais e lucrativas aqui na Europa”, finalizou.

Fonte: Redação | Fotos: Reprodução