O varejo em 2020

Em um ano definido por mudanças repentinas e a aceleração de muitas tendências, a adaptação e a capacidade de antecipação foram trunfos para o varejo. Comércio eletrônico, pagamentos sem dinheiro, venda de artigos previamente usados, comunidade e exclusividade são alguns dos conceitos que deixam marca em 2020.

Com o consumo se movendo para o online, o e-commerce floresceu e os varejistas exponenciaram as suas capacidades para responderem à procura em mudança, de acordo com a empresa de pesquisa de tendências WGSN, no balanço de “um ano difícil”.

A situação financeira mais “apertada” das famílias ainda está exigindo que as marcas maximizem o orçamento disponível e, à medida que os consumidores se tornam mais confortáveis e habituados a comprar na internet, a sua tolerância a qualquer fricção está diminuindo.

Como tal, ainda segundo o WGSN, “vimos os varejistas se mobilizarem para tornarem o processo o mais fácil possível”, incluindo nas devoluções.

A adaptação mais radical veio das marcas de luxo, que tiveram de encontrar formas de garantir o seu serviço de excelência num ambiente inteiramente virtual, usando para isso showrooms e lojas online para criar uma experiência de compra imersiva. Estes players começaram também a aderir a marketplaces e plataformas maiores, como a Amazon e o Tmall, para ficarem mais acessíveis aos consumidores.

Economia contactless

A prioridade dada à higiene e segurança levou o varejo a reavaliar os seus espaços físicos, as transações e as estratégias de envolvimento com o consumidor para se prepararem para uma sociedade de baixo contato.

De acordo com o Citi, a chamada “economia contactless” deve chegar aos 300 bilhões de dólares até 2024. Este ano, os pagamentos sem dinheiro físico tornaram-se norma no mundo, obrigando as marcas a abraçar novas tecnologias.

Experimentar as peças em realidade aumentada pode ser um caminho mais curto para a compra e para reduzir as taxas de devoluções, afirma o WGSN, ao mesmo tempo que permite recriar a experiência das compras offline em casa.

A utilização de mensagens de texto – nomeadamente no aplicativo WhatsApp – também foi mais usada para manter a ligação com o consumidor e esta é uma área que o gabinete de tendências acredita que vai crescer, sobretudo entre os consumidores mais jovens que procuram um serviço mais eficiente e conectado.

Para os varejistas com lojas físicas, a queda do tráfego devido às vagas da pandemia foi o maior desafio nos últimos meses. Mas há tecnologias que estão ajudando na retoma, como é o caso de showrooms interativos. Os códigos QR e as máquinas de venda automáticas também estão se apresentando como alternativa para vender a uma distância segura.

O papel das lojas terá ainda de ser repensado, assim como o layout, os sistemas de filas para pagamento e os próprios provadores. Além disso, estes espaços poderão ter uma função fundamental na preparação e entrega de encomendas colocadas online.

Revenda e aluguel

Com as carteiras ficando mais vazias à medida que os efeitos da crise começam a ser sentidos financeiramente, e com a crescente preocupação dos consumidores com o impacto ambiental da moda, o comércio de artigos previamente usados está se revelando um ponto de sucesso num ambiente extremamente difícil.

Durante algum tempo a revenda foi popular apenas entre os jovens, mas atualmente está sendo adotada por outras demografias.

2020 foi o ano em que marcas e varejistas começaram a abraçar o conceito, como prova a plataforma de denim previamente usado que a Levi’s® criou para o Project Earth da Selfridges. A ação permite controlar a narrativa e integrar a revenda nos seus modelos de negócio. A tendência foi sentida inclusivamente nas marcas de luxo, como mostra o Farfetch Secondlife.

Os modelos de negócio que têm por base a posse temporária também aceleraram depois da chegada da pandemia, com novas propostas para aluguer em diversas categorias, incluindo vestuário, jolheria e mobiliário. Os serviços de cuidado de artigos pós-venda estão igualmente prosperando, assim como os de reaquisição pelas marcas.

Direto ao consumidor

Com a Covid-19 acelerando a transformação digital, as vendas diretas ao consumidor deixaram de ser uma ideia secundária para se tornar um canal essencial para as marcas.

Os consumidores e os varejistas estão percebendo que é a mensagem autêntica das vendas diretas ao consumidor que se torna um atrativo, mais do que simples imagens para o Instagram. Parcerias com plataformas de comércio como o Shopify estão tornando o processo mais fácil do que nunca para as marcas venderem diretamente aos seus públicos, ao mesmo tempo que criam espaço para a recolha de dados cuja análise poderá gerar produtos que vão ao encontro dos desejos dos consumidores.

Segundo o WGSN, “trata-se de tornar o consumidor parte da jornada, certificando toda a cadeia de aprovisionamento, e desenhar peças de vestuário que duram uma vida inteira”.

Foco na comunidade

Em tempos de crise, os varejistas estão servindo consumidores que pensam localmente e que estão tentando ter um impacto positivo nos seus bairros.

No início de 2020, as lojas já davam mostras de se querer reposicionar como espaços voltados para a comunidade, respondendo um crescente número de ativistas locais que está em busca de comprar em terrenos menores e manter o seu dinheiro dentro da sua localidade. O surto do novo coronavírus levou mais pessoas a se manterem mais perto de casa e a apoiarem os negócios locais nesta altura de dificuldade.

Há cada vez mais varejistas reconsiderando as suas estratégias para vender produtos centrados no local e investir em iniciativas para a comunidade. “À medida que mais pessoas enfrentam dificuldades, o varejo deve olhar para novas formas de minimizar os resíduos e aumentar a conexão com as comunidades locais”, reforça o WGSN.

Redefinir a exclusividade

As compras privadas e exclusivas estão emergindo como uma estratégia fundamental para aprofundar as relações com os consumidores e ligá-los de novo à vida antes da interrupção provocada pela pandemia.

Com as preocupações crescentes em relação à higiene e segurança, os varejistas estão tentando criar ambientes super exclusivos que podem reduzir o medo, ao mesmo tempo que oferecem uma experiência elevada e aumentam a fidelização. À medida que as lojas reabrem, o varejo está mudando o seu foco para serviços por agendamento e a transformar os espaços físicos para providenciar uma experiência mais íntima.

Os clubes de membros estão igualmente cada vez mais atrativos para os consumidores jovens, que estão tentando se sentir mais integrados tanto online como offline. Há ainda uma maior procura por acesso exclusivo e mais rápido, compensações mais tangíveis pela sua participação em vez dos esquemas de fidelização mais tradicionais.

As marcas estão oferecendo mais experiências de luxo como recompensa, na forma de comunidades fechadas, voltadas só para membros e redes com consumidores que pensam da mesma forma.

As marcas estão, da mesma forma, tentando encontrar novas formas de redefinir a exclusividade – com um crescente número de consumidores usando comunidades digitais para procurar peças únicas. Estão também mudando para o vintage, pela sustentabilidade e pela exclusividade.

Fonte: Portugal Têxtil | Fotos: Reprodução