Qual o próximo passo para o denim?

Pode-se dizer que, até o momento atual, quase toda a cadeia da moda já sentiu o impacto da crise gerada pelo novo coronavírus. De certa forma, também não deixa de ser verdade afirmar que as estratégias criadas para sobreviver à pandemia já ganharam uma certa amostra nos mais diversos cantos do mundo. Sem deixar de aprimorar esta fase – a do durante -, a pergunta que paira as mentes dos empresários e demais envolvidos com o setor é o que o futuro reserva para o denim mundial.

E foi com este tema que o empresário Sandeep Agarval, CEO e fundador da Denim and Jeans transmitiu o webinar “What’s Next for Denim” na última quinta-feira. Reunindo profissionais renomados com conhecimento nos mais diversos elos da cadeia que compõem o setor, o executivo buscou formar uma amostra representativa da indústria azul, com opiniões variadas.

Stefano Adiglieri, denim expert aclamado e fundador da Another Denim Studio, que também tem na bagagem marcas como 7 For All Mankind, Hudson Denim e Levi Strauss & Co foi quem iniciou as apresentações dos participantes. Para vislumbrar o futuro do  tecidos sem perder o foco da realidade que afronta o mundo, Alberto Candiani da tecelagem italiana Candiani Denim; foi o nome escolhido.

Já visando ponderar a visão de negócios somando o ponto de vista das companhias desenvolvedoras de químicos Alberto De Conti, atual diretor executivo de marketing,  do Ludolf Group, integrou a lista. Carlos Arias, atual CEO da Jeanologia, por sua vez foi o nome escolhido devido à sua trajetória anterior à companhia espanhola, marcada por intensas vivências na manufatura de roupas.

A lista de convidados segue com Maurizio Donadi, proprietário e fundador da marca de moda circular Ateliers & Repairs, foi o nome escolhido para compartilhar sua visão criativa de modelo de negócios. E, por fim, ampliando o debate para um contexto mundial, o webinar também contou com a presença do chefe executivo da fabricante mundial Arvind Denim, Aamir Akhtar.

Direcionando o debate para as ações que a industria está realizando, e o que provavelmente vai acontecer. Aamir lembrou que a industria do denim mundial é um parque imenso, e funciona de maneira conjunta, da fibra ao fio, passando pela industria e distribuição.

O executivo também opinou que a indústria do jeans, da forma como conhecemos e amamos, deve mudar. Aamir chamou atenção para a inviabilidade atual de um dos looks mais representativos do lifestyle icônico do setor antes da pandemia, o total denim – que não fazia parte de nenhuma das produções dos presentes na transmissão.

Defendendo o mundo digital como uma prioridade para qualquer estratégia, Carlos Arias lembrou que o consumidor é capaz de customizar qualquer produto, do jeans à “pizza”, apontando um dos apelos comerciais estratégicos para o momento e para o pós pandemia.

Maurizio Donadi recomendou que cada companhia aproveitasse o momento para repensar seus próprios valores e princípios de trabalho. “Cada companhia deveria ter essa conversa consigo mesmo”, defendeu.

Como alternativa para o cenário futuro, apontou o espírito de colaboração: “Haverá uma outra cultura, onde as empresas irão criar alianças para se salvar juntas”, defendeu. Como ponto determinante e positivo, antecipou que o jeans poderá inspirar uma mudança de mentalidade da forma como se desenha um produto. “Quando falo em mudança de mentalidade minha questão é: o denim é exclusivamente a five pockets?”, provocou.

Concordando com a reflexão, Carlos Arias lembrou que as características do jeanswear inspiram produtos que vão além da calça tradicional. Indicando um caminho, opinou que quem estiver apto a manter o consumidor apaixonado por denim, o material, e não se restringir ao jeans, será bem sucedido tanto no durante quanto no pós-pandemia.

Reforçando a ideia de que o segmento poderia ser mais do que uma calça ou mesmo um artigo de moda, Maurizio Donadi lembrou que o denim começou sua trajetória de produto como um tecido que não era direcionado para as roupas, e jogou uma provocativa. “Como indústria e fabricantes de um produto, o que podemos fazer sem sair deste extremamente denso e congestionado mercado da five pockets, para deixar o preço mais barato do produto mais barato”, afirmou. “E como podemos ser mais usáveis e utilitários sem perder sua aparência e seu apelo histórico”, provocou, indicando ser a resposta para tais questões a melhor base para formação de estratégias futuras.

“Podemos construir qualquer coisa, máscaras, uniformes, essas coisas precisam ser reavaliadas pois vejo uma folha em branco para a modelagem do setor, como uma oportunidade”, opinou Donadi.

Alertando para a tendência do fim dos excessos, Stefano anunciou prováveis mudanças no formato dos lançamentos de tecidos, que segundo o empresário, deverão ser mais compactos em termos de diversidade, e mais assertivos em termos de funcionalidade. “Temos que olhar dessa forma tanto para os tecidos básicos quanto para as roupas básicas”, explicou.

Para todos os elos da cadeia, o denim expert recomendou uma revisão. “Quantos tecidos você tem na sua indústria e quantos são de fato diferenciados e são exatamente o que você precisa? Precisamos olhar nossos estoques, olhar os sazonais, porque somos sempre o mesmo tecido”, opinou, indicando um caminho mais racional para as próximas coleções.

Alberto Candiani validou como estratégia também a oportunidade de educar os consumidores através das mono marcas, para que a indústria possa recomeçar fazendo desta vez, tudo certo. “Podemos dizer mais aos compradores e às lojas, mesmo que seja pouco, toda sorte de conhecimento deixa as pessoas inspiradas porque é filosófico – contanto que seja compreensível”, defendeu. Alertando para os problemas da comunicação falha, ressaltou: “Temos que ter certeza que o que estamos fazendo em nosso produto é compreensível e compartilhar mais essas informações para que as pessoas entendam mais e assim, apreciem nosso produto”.

Mergulhando no tema sustentabilidade, Stefano Adiglieri lembrou que a maioria das pessoas enxerga a crise atual gerada pelo Covid-19 como uma consequência da falta de cuidado com o meio ambiente. Em seguida, opinou que em seu ponto de vista, a maioria dos players da cadeia já fizeram a movimentação, de calcar suas estratégias em avanços neste sentido. “Ser sustentável já é mais barato, pois se torna mais eficiente em termos de energia, e redução de custos significantes”, defendeu, incitando os participantes a refletir se tais premissas de fato estavam se convertendo em realidade no produto final.

Ponderando as diferenças entre o valor de fabricação dos tecidos e o valor praticado nas lojas, Alberto Candiani defendeu que sim, é possível ser muito competitivo com produtos sustentáveis. Carlos Arias defendeu que o desafio que define o sucesso da trajetória sustentável do denim na decisão de compra, está na assertividade de se capturar o imaginário do mesmo.

“Haverá uma evolução na indústria”, anunciou Alberto Candiani. “As pessoas vão evoluir seu modo de vestir para um patamar mais rebuscado, exigir materiais muito mais interessantes, buscar tecidos técnicos com inovação em sintéticos”, opinou, expondo a visão das tecelagens de que estética do denim não vai mudar tanto, mas sim o seu conteúdo.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução