Startup usa artesanato e moda circular na reintegração de ex-detentas em Goiânia

Agulha, linha e instrução podem reestruturar uma vida. É nisto que o Instituto Total tem apostado com a criação da Rede Mãos Livres, em Goiânia. Formalizada como startup desde o segundo semestre de 2018, a plataforma relacional atua na ressocialização de mulheres que estiveram presas e buscam se inserir no mercado de trabalho. Para isto, o artesanato e a moda circular são os principais agentes.

A plataforma oferece capacitação técnica, artística e de empreendedorismo às egressas do sistema prisional. E o trabalho se inicia de dentro do próprio presídio, com o projeto Arte Móvel, que promove atividades com artesanato e expressões artísticas às detentas.

“Quando elas deixam o presídio, temos uma estrutura, que é a startup Mãos Livres, para receber esse público. Não somente as regressas do centro prisional, mas também outras pessoas em situação de vunerabilidade”, apontou Célia Reis, coordenadora do projeto Arte Móvel há sete anos, em entrevista ao Guia JeansWear.

A Rede Mãos Livres aposta na moda circular como seu “carro-chefe”, pegando materiais que já perderam seu valor agregado e resignificando em peças. Os insumos podem ser banners, uniformes e outros itens inutilizáveis para os fins produtivos específicos oferecidos por empresas, que acabam comprando-os de volta após customização da plataforma e utilizando como produtos de marketing.

“Temos uma parceria com a empresa Enio, pegamos uniformes em jeans de eletricistas que não usam mais, resignificamos em bolsa e eles compram de volta, para fazer marketing […] Nós já produzimos 4 mil bolsas para eles”, completou Célia.

Alguns destes produtos estiveram presentes no Dia do Algodão de 2019, na última semana, realizado no Instituto Goiano de Agricultura (IGA), em Montividiu, região Sudoeste do estado. O evento foi promovido pela pela Agopa (Associação Goiana dos Produtores de Algodão), uma das principais apoiadoras do Instituto Total. Os visitantes foram presenteados com cachepôs de jeans feitos pela Mãos Livres.

Além de Célia Reis, a empresária Eliane Lima, que contou com a ajuda do projeto após deixar o presídio, esteve presente no evento.Mãe de cinco filhos, ela integra a Rede Mãos Livres desde 2013 e fez questão de ressaltar sua gratidão ao projeto.

“Tive meu primeiro contato com o Instituto Total lá na CCP (Casa de Prisão Provisória), quando estava lá cumprindo pena. Tudo que aprendi sobre artes lá, eu não conseguia nem colocar uma linha na agulha, aprendi todo o processo. Consegui me estabilizar, organizei meu emocional, que era totalmente abalado, minha família estava toda desestruturada. Me reergui, voltei a estudar e hoje dou aula em duas casas de recuperação”, disse.

Dentro da Rede Mãos Livres, ex-detentas são orientadas quanto à abertura de uma empresa MEI (Microempreendedor Individual) e, por meio do Instituto Total, é formalizado um contrato regulamentando-as como empresárias parceiras de execução.

As peças customizadas na startup são vendidas a preço de mercado e metade do superávit gerado é destinado às próprias parceiras de execução. Já os outros 50% seguem para custeio das despesas operacionais da unidade de produção, manutenção de equipamentos e investimentos em projetos que contemplam os objetivos do Instituto.

“A startup veio para dar apoio ao projeto Arte Móvel e ajudar essas pessoas a se colocarem no mercado de trabalho, conosco ou em outras frentes. Nosso trabalho é ser uma ponte, descobrir com eles qual a posição, o propósito e objetivo de vida deles”, finalizou Célia Reis.

Fonte: Thaina Barros | Fotos: Equipe Guia JeansWear