Trama Afetiva leva à Brasil Eco Fashion Week a força coletiva da transformação na moda 

Por ser uma plataforma de convergência e pesquisa em design social sobre a inovação para resíduos da indústria têxtil, a Trama Afetiva sempre busca um ecossistema de moda inclusivo, sustentável, transparente, lucrativo e criativo. Para isso, é imprescindível a abordagem coletiva das iniciativas da Trama, que conta com grupos de costureiras, cooperativas de tratamento de resíduos e coletivos de artesanato para trabalhar segundo o upcycling, técnica que recupera matérias-primas em desuso na prática produtiva central de criação das peças únicas da Trama.

É essa força agregadora a guia do desfile da plataforma na próxima edição da Brasil Eco Fashion Week (BEFW), no dia 7 de dezembro, às 20h30. Com o nome de “Tudo pode Acontecer”, a coleção idealizada por Thais Losso, diretora de moda da Trama Afetiva, é inteiramente composta de criações colaborativas, sempre seguindo o upcycling, para reforçar o compromisso da Trama com uma articulação coletiva para transformar a indústria têxtil e da moda em todos os seus níveis.

Os parceiros são a AZLA (calçados), a Sagui Óculos (óculos de sol), a Revoada (bolsas) e Justine Le Lapin (acessórios). Também fazem parte o designer de superfícies Anderson Rubbo, da Silk na Goma (estampas em silk) e o grupo de crocheteiras Empreendedoras da Quebrada. Os looks do desfile serão arrematados por acessórios de cabeça criados pelo diretor de arte Zeca Gerace, e em três looks do desfile, modelos levam objetos cênicos assinados pelo ator e artista plástico Nelson Baskerville.

O nome da coleção tem origem na trilha composta para o desfile pelo sound designer Dan Maia, outro criativo parceiro, que fez um upcycling musical: a frase vem de um verso da música “Chuva“, interpretada por Gaby Amarantos e presente no remix “Tropicanalha“, criado pelo DJ Ad Ferreira em 2013 e retrabalhado por Dan para o desfile.

“A frase ‘Tudo pode acontecer’ diz muito sobre a liberdade de experimentações que constrói nosso processo criativo, além de falar das incertezas climáticas que nos rodeiam – um dia tempestade, noutro calor escaldante – caracterizando nossa participação na Brasil Eco Fashion Week como um manifesto micropolítico por meio da moda”, declara Jackson Araujo, diretor criativo da Trama Afetiva. O desfile é, de fato, um recorte detalhado das camadas de estrutura política que a Trama atravessa tendo o impacto social como perspectiva maior do seu trabalho como plataforma de pesquisa e criação em design regenerativo na moda. Com o investimento de recursos financeiros e humanos para suas iniciativas, a Trama potencializa cerca de 300 costureiras e catadoras mensalmente – em sua maioria, mulheres responsáveis pelo sustento de suas famílias. Todos os itens do desfile e as peças da Trama estarão à venda na Feira da Rosenbaum e na loja Bafu.

‘Mais é mais’: autoria compartilhada que aumenta as possibilidades de reuso da matéria-prima

A mente criativa por trás das peças da Trama é a estilista Thais Losso, diretora de moda da iniciativa e estilista de uma geração que redefiniu a moda brasileira, com criatividade e autenticidade entre os anos 1990 e 2000 – trabalhando para as marcas Cavalera e Zapping. A coleção de vestíveis deste ano já confirma a adoção do upcycling como caminho, já que todas as peças são confeccionadas em náilon de guarda-chuvas recuperados do descarte de resíduos sólidos. Em aterros sanitários, esse náilon levaria 30 anos para se decompor.

A ideia principal da linha consiste em dispor de uma série de peças únicas que, combinadas entre si, podem construir um guarda-roupa pautado pelo maximalismo, com muitas referências à mistura de estampas, cores e modelagens da moda esportiva e de rua. Isto vai na contramão do minimalismo comum às etiquetas de moda responsável e procura provas que a sustentabilidade começa nas etapas de produção, antes das roupas chegarem às mãos do consumidor.

As estampas variadas e os tons vibrantes do náilon dos panos dos guarda-chuvas são coautores das peças da Trama, já que convidam a pensar diferentes possibilidades de combinação para um mesmo item. Quanto mais opções, melhor para montagem desse quebra-cabeça têxtil, que é o que move a criação de Thais Losso: a estilista gosta de ser surpreendida pela diversidade do material que chega das cooperativas de catadoras de resíduos sólidos, que fornecem o náilon para ser transformado em vestíveis e acessórios. “Essa lógica da surpresa rompe com o esquema tradicional em que o designer cria sabendo a cartela de cores e estampas na qual vai trabalhar. Aqui, só sabemos que é náilon de guarda-chuvas e que, além da surpresa com as cores e estampas, também temos que lidar com as variáveis de gramatura. E tudo vai surgindo mesmo é na mesa de corte, ao darmos forma às peças como num caleidoscópio”, conta Thais. “Tudo pode acontecer”, conclui.

É este um dos traços mais marcantes do que a Trama chama de ‘Mais é mais‘, em que quanto mais material disponível mais formas surgem de reaproveitá-lo. “Quanto mais possibilidades criamos de utilização do náilon, mais conseguimos interditar a ida do material para o aterro sanitário”, afirma Thais. Outro ponto importante de seu trabalho na Trama é que ela modela e corta com duas assistentes, mas sua definição da modelagem e do corte é decisiva para o aproveitamento criativo do náilon.

Fonte: Redação | Foto: Divulgação