No dia 22 de abril, colocamos a mão na consciência para lembrar-se de onde somos e de onde realmente viemos: a terra. É dela que brota a planta Indigofera, dado origem ao azul que protagoniza a trajetória icônica da peça mais popular do vestuário mundial, o jeans. E é também no seu ecossistema, que se dispensam todas as sobras desse processo de tingimento, no qual sabemos, a maioria das vezes é muito pouco gentil nesse retorno para casa.
Por isso, movidos pela sensibilização desta importante data, fomos atrás de iniciativas mais naturais, capazes de inspirar rupturas nos processo industriais tradicionais dessa alquimia. Em uma época de valorização das formas de pensar das startups, nossos jovens talentos tornam-se importantes observatórios para inovação.
Nosso primeiro “case” envolve o processo de obtenção do azul de uma forma bem brasileira, a partir do tingimento com feijão. Quem já preparou o alimento, já teve ter observado a semelhança na tonalidade da água deixada em reserva junto aos grãos, com o azul usado no mercado jeanswear.
De acordo com Mariana Brito, designer de moda idealizadora do processo, não foi exatamente este o “estalo” que a induziu a escolher o experimento para realização do seu trabalho de conclusão na faculdade de Belas Artes, em 2016. Mas sim, a observação dos problemas causados pelas pragas e insetos na agricultura.
“Na época em que eu realizei a pesquisa o mercado da moda estava iniciando a imersão no tema sustentabilidade, e o principal assunto era o tingimento natural com o índigo”, contou a designer. “A extração do índigo original era a minha ideia inicial, mas com as barreiras impostas para o processo de extração da planta e a partir da observação pessoal dos problemas causados pelas pragas nas lavouras resolvi unir os dois mercados e seguir em uma nova ideia”, complementou.
Mariana explorou a técnicas de tingimento artesanais inspiradas nos processos dos artesãos africanos da região de Benin, resgatado técnicas milenares. “É tudo muito simples, a água do feijão de molho já contém o pigmento, o desafio é extraí-lo de forma viva, potencializando sua fixação”, explicou.
Como nos processos de tingimento conhecidos, a designer explicou que existem diversas formas de tingir e ativar o corante que influenciam diretamente na cor. Entre elas está a temperatura, a quantidade de mordente (fixador), o tempo de tina, a pureza da água e imersão, por exemplo. Até mesmo a variedade do feijão e o tipo de solo usado para o cultivo são variáveis para o tom, ainda segundo Mariana.
Perguntada sobre os ganhos obtidos pelo processo, em termos de variações de tons e solidez do tingimento, a designer afirmou que desde a conclusão do curso até o momento avançou com dados importantes no processo e está em busca de parceiros para aprimorá-lo na etapa da fixação. “O tingimento com feijão é possível, é lindo mas como todo processo natural é vivo e muda de cor com o tempo”, explicou Mariana.
Já sobre como o processo poderia ser usado em escala industrial, a designer sugeriu os setores de home e decoração, pois os processos de impermeabilização empregados colaborariam para manter a cor por mais tempo.
Confira abaixo o vídeo sobre o trabalho de Mariana Britto:
Nosso segundo “case” inspirador fala de ruptura sem negar as raízes e a tradição do segmento, mas sim o retomando através do tingimento natural com índigo. A brasileira com raízes asiáticas Kirianne Miyazaki foi morar no Japão aos 17 anos, e ao retornar para o Brasil em 2014, em uma aula de superfície têxtil da faculdade de Belas Artes, teve contato com técnicas de tingimento artesanais. A conexão foi imediata e após muitas experiências caseiras, em 2016, Kirianne voltou para o Japão para estudar o cultivo do índigo em uma fazenda em Tokushima, cidade tradicionalmente ligada à planta.
Após o aperfeiçoamento, Kirianne realizou todo o processo de germinação e extração do corante azul usando a técnica japonesa mencionada. “Primeiro as sementes são semeadas e colocadas em uma estufa por 30 dias. Após, são transplantadas para o solo e lá ficam por mais quatro meses. Depois você faz um composto das folhas, e após a colheita, as coloca para secar. Aí elas passam por uma fermentação de 120 dias, resultando em uma bola semelhante a uma terra”, explica.
O material orgânico, chamado Sukumô, consiste no índigo fermentado pronto para fazer a mistura do tingimento. Após essa etapa, o índigo pode ficar fermentando por até 30 dias em uma mistura com farelo de trigo, saquê, cinzas de árvore e cal hidratado, e precisa ser mexido diariamente até sua redução. A técnica é dotada de paciência oriental, visto que demanda 365 dias até a obtenção do corante. “É só depois desse longo processo que o azul surge”, explica.
O resultado dessa busca foi um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo. A pesquisa foi convertida no vídeo educativo “Tingimento Natural com índigo: da germinação à extração do pigmento azul”, além de uma produção regular. O filme retrata em uma linguagem poética o procedimento completo, algo inédito no Brasil, visto que não existem fazendas nem indústrias que usam o tingimento natural.
Kiri Miyazaki atualmente mora na Serra da Cantareira, local onde realiza toda a extração do pigmento azul do indigo japonês, seguindo as normas da agricultura orgânica. Também ministra cursos, oferecendo o índigo em pó em pastas importadas para facilitar a obtenção da cor. Para o próximo ano, tem como objetivo aumentar a produção e vender o pigmento para outros artistas.
Seja pelo cultivo do feijão ou pela manutenção da tradição, a pesquisa que brota do fazer manual e do ambiente natural é um dos focos mais visados na busca por inovação com sustentabilidade no segmento denim mundial. Uma busca, que no mercado da moda JeansWear representa pura necessidade de sobrevivência e longevidade. Da terra viemos, por ela, quem sabe através da arte, nos reinventaremos.
Assista ao vídeo de Kirianne Miyazaki:
Feliz Dia da Terra a todos os nossos leitores!
Agradecimentos a Prof. Maria Carolina Garcia Diretora de Internacionalização e BA Creative Collectibles.
Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução
















